• Nayara Reynaud

É TUDO VERDADE 2018 | Todo dia era dia de índio

Atualizado: Ago 15


As primeiras imagens de Ex-Pajé (2018) datam de 1969, quando a tribo Paiter Suruí, cujas terras se localizam entre os estados de Rondônia e Mato Grosso, teve o seu primeiro contato oficial com os “brancos”, ou melhor, não-indígenas. Em um diálogo visual com o antigo registro do mastro com a Bandeira do Brasil, o primeiro plano da captação original de Luiz Bolognesi, realizada 38 anos depois, que adentra a tela logo após essa passagem histórica inicial é de um poste de luz, marcando a entrada da modernidade na vida deles. É assim que o roteirista conhecido por sua parceria com a esposa, a cineasta Laís Bodanzky, passa dos traços para o registro cotidiano daqueles índios para aprofundar seus questionamentos já feitos na premiada animação Uma História de Amor e Fúria (2013), sua estreia solo na direção de um longa no cinema.

Na nova produção, que estreou no Festival de Berlim ganhando menção especial do Júri Oficial de Documentários da Mostra Panorama, o diretor traz uma representação desta vida através de uma construção documental feita com ferramentas narrativas ficcionais. É sensível os enquadramentos calculados e, por vezes, uma mise-en-scène, mas isso não retira a veracidade de seu conteúdo, centrada especialmente na figura de Perpera, junto a alguns membros de sua família e tribo nesta rotina paradoxal, entre a nova vida moderna, “ocidentalizada”, e os costumes nativos ainda arraigados, apesar de quererem os arrancar. Assim, o público entende que a entrada dele na casa lotérica é planejada de antemão, mas sua dificuldade de diálogo com a atendente é verdadeira. Na sequência, ele vai ao supermercado em sua ida à cidade, mas, mesmo em sua casa, a cultura adquirida está presente na sua nova máquina de lavar, estilo “tanquinho”, tal qual nas crianças com o celular, enquanto as velhas fotos da sua antiga vida estão ali para matar a saudade.

Bolognesi constrói uma narrativa fundamentada no poder imagético, em que o simbolismo está presente em um raro momento de explosão de Perpera, destruindo o cupinzeiro que carrega um espírito inimigo dos Paiter, e todos os outros momentos de melancólica conformidade deste homem dividido, como a dele, todo paramentado de camisa e calça social, na porta da igreja. Vivendo, até seus 20 anos, isolado com a tribo da qual era pajé, o contato com os não-indígenas foi cruel para ele, especialmente quando o pastor disse que “pajé era coisa do Diabo” e os seus se voltaram contra ele, passou a frequentar a igreja, para não ser rejeitado pelos Suruí, mas, ao mesmo tempo, tem medo dos espíritos que estão bravos com sua atitude. O cineasta é claro desde a cartela inicial de que, diferente do extermínio físico do genocídio, o etnocídio os destrói culturalmente, em seu modo de vida e pensamento, usando a frase do antropólogo e etnógrafo francês Pierre Clastres (1934-77): “Enquanto o genocídio assassina os povos em seu corpo, o etnocídio os mata em seu espírito”.

Contudo, há momentos em que essa modernidade não é demonizada pelo cineasta, seja no momento em que as redes sociais servem de veículo para eles denunciarem a invasão de madeireiros na terra demarcada dos Paiter Suruí, chamada Sete de Setembro, ou quando uma indígena é tratada no hospital, mas, na hora da precisão, a família não deixa de lado os ritos de cura tradicionais, com Perpera voltando às suas origens e usando até a flauta sagrada. Trata-se de um material antropológico não necessariamente acadêmico, porém, mais acessível do que os estudos de pesquisadores europeus, como a tese em francês que recebem no decorrer do documentário, e que os trata de maneira mais humana e não como meros objetos de estudo. No entanto, é triste imaginar que, chegando ao Brasil através do festival É Tudo Verdade, na véspera e no próprio dia 19 de abril, respectivamente no Rio de Janeiro e em São Paulo, e sendo lançado no circuito comercial na semana seguinte, Ex-Pajé vire apenas uma pauta sazonal para a época em que o país se recorda de seus primeiros brasileiros.

Ex-Pajé (2018)

Duração: 80 min | Classificação: Livre

Direção: Luiz Bolognesi

Produção: Brasil / São Paulo-SP

Áudio e Legendas: diálogos em português e línguas indígenas, com legendas em português e legendas eletrônicas em inglês

> Estação NET Botafogo / Rio de Janeiro – 18/04/2018 às 20h30

> IMS Paulista / São Paulo – 19/04/2018 às 19h00

> IMS Paulista / São Paulo – 19/04/2018 às 21h00

> IMS Rio / Rio de Janeiro – 20/04/2018 às 16h00

> Sesc 24 de Maio / São Paulo – 21/04/2018 às 15h00


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