• Nayara Reynaud

UM INSTANTE DE AMOR | À procura do amor perfeito (ou da mulher perfeita)

Atualizado: há 5 dias


Não é por acaso que o livro O Morro dos Ventos Uivantes (1847) é dado de presente à personagem de Marion Cotillard em uma das primeiras cenas de Um Instante de Amor (2016). O temperamento considerado difícil de Catherine Earnshaw, protagonista feminina de sentimentos intensos e exacerbados do romance da inglesa Emily Brontë, também é encontrado na do novo longa de Nicole Garcia.

A diretora e também atriz francesa transfere a ação da Sardenha para o sul da França nesta adaptação do best-seller Mal di Pietre (2006), escrita pela italiana Milena Agus, começando em Lyon, onde Gabrielle (Marion Cotillard) sai correndo do táxi após reconhecer o nome de uma rua na placa, deixando a família prestes a ir a um concurso de piano do qual o filho (Victor Quilichini/Ange Black-Bereyziat, quando criança) é um dos participantes. Não é preciso muito para entender que aquele endereço lhe traz algo do passado; provavelmente, um amor. Mas o momento serve de ponto de partida para um longo flashback que se desenvolve por quase todo o filme, que transporta o público à juventude da protagonista, com ela se banhando no lago, como se quisesse esfriar o seu desejo.

Com uma trama centrada entre os anos 1940 e 1950, Gabrielle e sua trama dizem muito sobre a ideia de histeria feminina, considerada uma doença, até o início do século XX, pela sociedade que não via com bons olhos quando as mulheres não se comportavam com “bons modos”. A moça queria sentir o amor de modo incondicional e, por isso, não se fazia de rogada em buscá-lo na figura do próprio professor, por quem desenvolveu uma paixão platônica. Com um histórico de postura indiscreta para a família, a sua mãe (Brigitte Roüan) acredita que a filha precisa de um homem para se aquietar e pergunta se José (Alex Brendemühl), um pedreiro espanhol refugiado da ditadura de Franco que trabalha nos campos de lavanda da família, na Provença, não quer ser o marido da jovem – o que acaba se realizando, não sem a resistência da personagem.

Gabrielle é tão incompreendida pelos seus familiares, que a mãe duvida das dores que a filha sente costumeiramente, achando que ela finge ao se retorcer, mas depois, revela-se que o sofrimento era decorrente de pedras nos rins – o Mal de Pierres do título original, em francês. Seria um exemplo do Complexo de Cassandra, termo da psicologia inspirado na profetisa desacreditada da mitologia grega, aplicado no cotidiano das mulheres em um ambiente machista, em que nenhuma de suas aflições ganha crédito.

O fato é que a personagem é muito mais complexa do que aparenta e a sua ida para um spa/sanatório na Suíça, a fim de curar-se do problema renal, aponta isso. Durante o tratamento no local, a nova paciente conhece o tenente André Sauvage (Louis Garrel), militar que lutou na Guerra da Indochina e, por lá, contraiu uma doença que o debilita muito, e se apaixona pelo homem frágil com interesses em comum com ela. Mas, além da condição dele, o casamento dela com José, cuja construção não é feita de forma maniqueísta pelo roteiro de Garcia e Jacques Fieschi, é uma das barreiras para ela vivenciar esse amor que tanto procurou.

Quando a narrativa volta ao ponto inicial, irrompe o terceiro ato com um plot twist ousado para o gênero, que se contrasta com certo conservadorismo no final. A trajetória de alguém considerada rebelde à normalidade, no entanto, tem sua própria dose de insurreição ao ir contra a idealização do amor ultrarromântico tão comumente exaltado nas telas e se inclinar ao que surge genuinamente no cotidiano.

Um Instante de Amor (Mal de Pierres, 2016)

Duração: 120 min | Classificação: 14 anos

Direção: Nicole Garcia

Roteiro: Nicole Garcia e Jacques Fieschi (colaboração: Natalie Carter), baseado no livro “Mal di Pietre” de Milena Agus

Elenco: Marion Cotillard, Louis Garrel, Alex Brendemühl, Brigitte Roüan, Victoire Du Bois, Aloïse Sauvage, Daniel Para, Jihwan Kim, Victor Quilichini e Ange Black-Bereyziat (veja + no IMDb)

Distribuição: Mares Filmes

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