© 2019 por Nayara Reynaud. Criado a partir da plataforma Wix.

JUDY | O drama da criação

30/01/2020

 

Por vezes, a arte permite momentos de tamanha simbiose entre criador e criatura, em que é difícil distinguir quem contribuiu mais para o sucesso do resultado final. De certo modo, é isso que acontece com a famosa intérprete e a célebre pessoa retratada na cinebiografia Judy (2019). A adaptação da peça teatral de Peter Quilter, End of the Rainbow (2005) – montada aqui no Brasil com o título Judy – O Fim do Arco-Íris (2011) –, segue o recorte do espetáculo, centrado no período final da vida de Judy Garland, quando o ostracismo na carreira da estrela eternizada como a Dorothy de O Mágico de Oz (1939) acentuou seus problemas de longa data, e vice-versa.

 

O longa dirigido por Rupert Goold e roteirizado por Tom Edge tem aquele molde ideal para que a encarnação da(o) biografada(o) na tela seja laureada com prêmios, como a temporada de premiações tem comprovado até agora com Renée Zellweger. No entanto, por mais que sua indicação ao Oscar carregue esse peso do tipo de papel que a Academia adora, a sua atuação vai além da mera imitação de Garland: se ela não alcança o mesmo brilho vocal da artista tão conhecida por sua voz, faz da mescla de seus maneirismos com os dela uma soma natural em sua Judy. Uma organicidade vinda das próprias vivências da ganhadora da estatueta de Atriz Coadjuvante por Cold Mountain (2003), que tem na trajetória da personagem real uma chance de expurgar feridas de sua própria relação de altos e baixos com Hollywood, especialmente na dificuldade de ambas com a autoimagem por causa do tratamento recebido pela indústria e pela mídia.

 

O roteiro de Edge, em sua primeira experiência no cinema depois de trabalhar em séries como Lovesick (2014-) e The Crown (2016-), foca no ano de 1968, quando as poucas oportunidades levaram a atriz e cantora a cair na estrada e se apresentar com os filhos Lorna (Bella Ramsey, a Lyanna de Game of Thrones) e Joey (Lewin Lloyd, de His Dark Material, de 2019). Mas ao ser “despejada” do quarto de hotel em Los Angeles, as crianças ficam com o pai, o seu ex-marido – o terceiro dos cinco que ela teve – Sid Luft (Rufus Sewell, menos vilanesco do que em outros papéis). Sem condições de ter um lar, o convite para a série de shows em uma casa noturna em Londres surge como um pote de ouro no final do arco-íris para essa mãe poder estar com seus rebentos de novo.

 

A questão da maternidade marca a personagem durante toda a narrativa, mas, ainda assim, o filme pouco explora a relação de Judy com sua outra filha, Liza Minnelli. Sua primogênita aparece, interpretada por Gemma-Leah Devereux, em uma breve cena na primeira parte do longa, porém, a interação entre as duas parece mais de colegas de trabalho do que de mãe e filha. Mais que isso, há na matriarca em decadência uma ponta de inveja pela autoconfiança da jovem cria, já uma estrela em ascensão, algo que justamente lhe falta naquele momento. Contudo, a trama nunca volta a este importante ponto e sua parada ali serve apenas para a apresentação de Mickey Deans (Finn Wittrock, da antologia História de Horror Americana) como interesse romântico da protagonista.

 

Em compensação, o roteiro dedica um tempo para recorrentes flashbacks das memórias de sua adolescência dentro dos estúdios da MGM, com Darci Shaw na pele da jovem Garland, para apontar a origem dos problemas que se acumularam com o passar do tempo e culminaram no final da carreira e da vida dela, a exemplo da dependência em remédios para dormir. Goold, um diretor teatral em seu segundo longa, imprime um leve toque de fantasia nessas lembranças, conferindo um tom de fábula para a exploração infantil das várias horas de trabalho, os abusos das dietas e ingestão de anfetaminas e barbitúricos para mantê-la acordada ou adormecer, e do assédio moral com a pressão psicológica e insultos proferidos pelo chefão do estúdio, Louis B. Mayer (Richard Cordery), um vilão desenhado com tintas fortes neste triste conto de fadas. Ainda assim, o cineasta de A História Verdadeira (2015) constrói uma cinebiografia bem formal, que ganha mais vulto nos números musicais de sua estrela e na parte final, mas cuja assinatura estilística mais marcante é o uso dos flashes nessas elipses temporais.

 

Mais que isso, essas luzes são os sinais de uma intimidação constante para aquela mulher que sempre desejou uma vida comum, que pode desfrutar em poucas ocasiões, como o improvisado jantar com o casal de fãs (Andy Nyman e Daniel Cerqueira), em que os dois representam tantos outros admiradores que consideravam a artista um ícone gay, ou no significado dado para uma simples fatia de bolo ao longo da narrativa. E, em certo ponto, a figura da sua assistente nesta turnê londrina, Rosalyn Wilder (Jessie Buckley, que disputa um BAFTA com a colega de cena por sua ótima performance, também como uma cantora, em As Loucuras de Rose, de 2018), é a representante dos olhos do espectador durante o filme ao observar com sentimentos tão contrastantes a jornada de desintegração de Judy sob os holofotes do público e da mídia – é possível que alguns se lembrem do caminho semelhante trilhado por Amy Winehouse mais recentemente, entre outro exemplos. No entanto, a obra salienta que este mesmo palco que a tortura em alguns momentos, é uma necessidade básica para Garland, na sina de todo artista que precisa se alimentar de aplausos.

Judy (Judy, 2019)

Duração: 118 min | Classificação: 14 anos

Direção: Rupert Goold

Roteiro: Tom Edge, baseado na peça “End of the Rainbow” de Peter Quilter

Elenco: Renée Zellweger, Jessie Buckley, Finn Wittrock, Rufus Sewell, Michael Gambon, Richard Cordery, Royce Pierreson, Darci Shaw, Andy Nyman, Daniel Cerqueira, Bella Ramsey, Lewin Lloyd e Gemma-Leah Devereux (veja + no IMDb)

Distribuição: Paris Filmes

 

 

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