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1917 | A complexidade de uma simples missão

25/01/2020

 

Se depois dos horrores que o mundo vivenciou durante aquela que era, então, chamada de “A Grande Guerra”, acreditava-se que a humanidade havia aprendido a lição e nunca mais repetiria tamanho equívoco, mas se passaram apenas duas décadas para tudo acontecer de novo em uma escala de destruição e alcance maior que antes. As terríveis particularidades da II Guerra Mundial fizeram dela um objeto de interesse constante do cinema, não apenas hollywoodiano, porém, isso não quer dizer que a I Guerra Mundial, menos representada nas telas, tenha sido menos brutal. Glória Feita de Sangue (1957), um dos primeiros filmes de Stanley Kubrick, era a principal referência quanto ao assunto até agora, que os relatos familiares de um veterano daquele combate, o escritor Alfred Hubert Mendes, inspiraram seu neto Sam Mendes a realizar 1917 (2019), uma nova obra essencial sobre o tema.

 

Ao lado de Krysty Wilson-Cairns, roteirista da série Penny Dreadful (2014-16) em seu primeiro longa, o cineasta de Beleza Americana (1999) e 007 – Operação Skyfall (2012) pega essa fonte e a transforma na história ficcional desses dois soldados britânicos, Blake (Dean-Charles Chapman, o Tommen de Game of Thrones) e Schofield (George MacKay, o primogênito de Capitão Fantástico, de 2016), que recebem a missão de entregar um aviso suspendendo o ataque de outra unidade e evitar que caiam em uma armadilha. Era 6 de abril de 1917, no norte da França, e o recuo das tropas alemãs fez com que os Aliados acreditassem em uma desistência deles neste ponto do conflito. O movimento, no entanto, é estratégico e a possível batalha pode ser imensamente letal para as forças do Reino Unido, como bem explica, logo no início, o General Erinmore, interpretado por Colin Firth em uma das muitas participações especiais que surgem na trajetória dos protagonistas, que também cruzam rapidamente com Benedict Cumberbatch, Richard Madden, Mark Strong e Andrew Scott.

 

A trama simples e cheia de conveniências narrativas é envolta em uma proposta grandiosa de emular um take único, feito que garantiu 10 indicações ao Oscar para a produção. Um virtuosismo do diretor que encontra um propósito na experiência cinematográfica de imersão em uma jornada contínua por essa “Terra de Ninguém”, entre as trincheiras. Mesmo que não adote os planos em primeira pessoa, a linguagem se assemelha a de muitos videogames, convidando o espectador a se sentir como um combatente da I Guerra Mundial, que precisa cumprir uma tarefa, mas, para isso, tem de ultrapassar várias fases.

 

Não se trata, porém, de um filme rodado em plano-sequência. Não só existe uma interrupção proposital em um ponto da trama, já que a narrativa acompanha o ponto de vista de Schofield, como o trabalho conjunto da direção de Sam Mendes, da fotografia de Roger Deakins e a montagem de Lee Smith disfarçam os cortes entre os sets para dar essa impressão de continuidade. A fluidez que obtêm, por vezes, é acompanhada pela trilha sonora de Thomas Newman, mas há momentos, a exemplo da cena na vila Écoust-Saint-Mein à noite, em que ela se excede em uma monumentalidade que contradiz o próprio caráter dos personagens.

 

Em um caminho semelhante ao adotado em Dunkirk (2017), no qual a sobrevivência guiava mais aqueles soldados em retirada do que qualquer heroísmo, os protagonistas aqui são homens regulares e não os bravos heróis que os filmes do gênero estampam, geralmente; o que não significa que eles sejam capazes de atitudes heroicas. Assim, enquanto Blake se mostra mais empolgado com a situação, o cético e prático Schofield guarda seus traumas de batalhas passadas e sabe que uma medalha de bravura não vale de nada quando se tem sede. Há também rápidos vislumbres para o inimigo como um ser humano também, a exemplo do relance na foto da família de um, mas é no mote deste filme de guerra cujo objetivo é impedir uma batalha inútil e custosa em baixas humanas que a obra entrega sua mensagem antibélica, justamente em um período conturbado no cenário geopolítico mundial.

 

Neste sentido, a proposta de Mendes com a câmera guiando o olhar do espectador, de certo modo, deixa pouco espaço para a reflexão do público além dessa questão. No entanto, há no próprio ritmo da trajetória deles, pontuada por várias pausas mais ou menos contemplativas que representam temas como dor, beleza, traição, morte e família, uma frágil alegoria existencial para a jornada da vida. Algo que fica mais claro com a cena em que um soldado canta I Am A Poor Wayfaring Stranger, tradicional canção folk gospel que fala de um viajante por esse mundo que ruma até sua casa, em alusão ao Paraíso, e na simbólica árvore iniciando e encerrando este ciclo.

1917 (1917, 2019)

Duração: 119 min | Classificação: 14 anos

Direção: Sam Mendes

Roteiro: Sam Mendes e Krysty Wilson-Cairns

Elenco: George MacKay, Dean-Charles Chapman, Colin Firth, Andrew Scott, Mark Strong, Benedict Cumberbatch, Richard Madden e Claire Duburcq (veja + no IMDb)

Distribuição: Universal Pictures

 

 

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