© 2019 por Nayara Reynaud. Criado a partir da plataforma Wix.

O ESCÂNDALO | Um coral de vozes

18/01/2020

 

A melhor cena de O Escândalo (2019) já estava no teaser trailer que iniciou a divulgação do filme estrelado por ninguém menos do que Charlize Theron, Nicole Kidman e Margot Robbie. Isso não é nenhum demérito em si para a produção, até porque é mais do que necessário assisti-la para entender os códigos não-ditos daquele momento em que as três personagens principais entram no elevador e, sem conversarem entre si, compreendem a situação pelo simples número do andar que está no painel. O longa de Jay Roach é melhor quando trabalha nesse subtexto do que nas várias passagens de diálogos expositivos, mas são justamente estes que fornecem as informações necessárias para o público entender o que está acontecendo nesta trama que acompanha os caminhos que levaram à queda do ex-CEO da Fox News, Roger Ailes (John Lithgow), após uma série de denúncias de assédio sexual por parte das funcionárias da rede de notícias – caso que também foi objeto de interesse da minissérie The Loudest Voice (2019).

 

Essa é a estratégia adotada por Charles Randolph, cujo passado como roteirista de A Grande Aposta (2015) se faz sentir desde o início, com o texto rápido da apresentação que Charlize Theron faz na pele da apresentadora Megyn Kelly – com uma transformação não só estética, graças ao bom trabalho de maquiagem, mas também na modulação de sua voz – sobre o microcosmo da redação, estúdios e administração da emissora de TV jornalística e de todo o prédio que concentra o grupo midiático controlado por Rupert Murdoch (Malcolm McDowell) e seus filhos. Mesmo com estas indicações endereçadas diretamente ao espectador na quebra da quarta parede, que também acontece de maneira diferente com a âncora Gretchen Carlson (Nicole Kidman), nomes aparecem na tela como no GC de uma matéria, para reforçarem quem é quem neste ambiente.

 

Tal ritmo frenético recorda não só o citado filme de Adam McKay, mas principalmente a série Succession (2018-), produzida pelo realizador – e cujo piloto foi dirigido por ele –, que também acompanha os bastidores de um conglomerado de mídia de uma família livremente inspirada nos Murdoch. Tanto a narrativa e o texto seguem o ziguezague entre os diversos personagens quanto a direção de Roach guarda a mesma câmera ágil à procura das reações dos personagens, como em um mockumentary mais do que um documentário. No entanto, sendo um diretor também vindo da comédia, conhecido pelas franquias Austin Powers e Entrando numa Fria, Jay já demonstrava este estilo em alguns momentos, bem como seu interesse pelo lado dramático e temas políticos, nos telefilmes Recontagem (2008), Virada no Jogo (2012) e Até o Fim (2016), além da sátira Os Candidatos (2012).

 

O cenário politico dos Estados Unidos em transformação naquele não tão longínquo ano de 2016 é, aliás, o foco do primeiro ato do longa, que destaca a perseguição virtual de Donald Trump e seus seguidores à Kelly quando o então presidenciável se zangou com uma pergunta feita pela jornalista no debate dos pré-candidatos do Partido Republicano. Se a narrativa principal demora a vir à tona, Roach cria desde o princípio a imersão neste ambiente tóxico de trabalho, onde o assédio moral dos chefes e colegas, além de serem alvos dos comentários maldosos do público, vem antes mesmo do sexual para as mulheres que ali habitam. Mais pertinente ainda é como o debate sobre o padrão Fox de beleza feminina e sua exposição, com a desculpa de se tratar de uma “mídia visual”, como afirma o mandachuva Roger Ailes, não está longe da imagem explorada e vendida por Hollywood; tanto que o filme traz três estrelas dessa indústria, louvadas antes como musas para, aos poucos, serem reconhecidas de fato como atrizes – é bom lembrar que Theron e Kidman ganharam o Oscar por papéis em que tiveram de se despir de sua beleza usual para “comprovar” o talento delas para a Academia.

 

Roach costuma tratar tudo com certa leveza, trazendo o humor que lhe é familiar para aliviar o clima de um tema tão delicado, porém, acaba minando o drama em certos momentos. No entanto, não deixa de abordá-lo com uma preocupação, em parte, semelhante a que demonstrou em seu longa anterior, Trumbo – Lista Negra (2015): lá, a narrativa de uma ameaça comunista durante a Guerra Fria cria uma perseguição aos artistas de Hollywood partidários da ideologia; aqui, trata-se do outro espectro, centrado apenas no ambiente conservador, mas em ambos, o diretor observa uma tática de isolamento e difamação a quem ousa se opor contra o discurso dominante. Essas vozes, porém, não conseguem ser caladas e chamam uma à outra, como bem pontua a trilha sonora de Theodore Shapiro, junto com a canção original de Regina Spektor, One Little Soldier, que toca durante os créditos finais estilizados e convida essas mulheres a serem mais do que “pernas” e contarem a sua história.

 

Esse chamado vai desembocar em Kayla Pospisil, personagem fictício ou, talvez, uma composição de várias mulheres que trabalhavam nos bastidores da emissora, que se torna a mais intrigante de todas no roteiro de Randolph e, principalmente, na interpretação de Margot Robbie. A assistente de produção é fruto de um ambiente em que a Fox News faz praticamente parte do imobiliário de casa e se denomina como uma millennium evangélica, porém, isso não a impede de expressar um pensamento mais aberto à colega Jess Carr (Kate McKinnon), bem como a sua ambição por um posto mais alto na empresa se choca com a vergonha pela situação a qual seu superior a coloca para tanto. São nuances que, em tempos de polarização, podem ser vistas como contradições, mas, na realidade, apenas humanizam a sua figura, em um filme que apresenta vítimas e agressores, mas não tenta santificar ou demonizar ninguém.

O Escândalo (Bombshell, 2019)

Duração: 109 min | Classificação: 14 anos

Direção: Jay Roach

Roteiro: Charles Randolph

Elenco: Charlize Theron, Nicole Kidman, Margot Robbie, John Lithgow, Allison Janney, Malcolm McDowell, Kate McKinnon, Connie Britton, Liv Hewson, Brigette Lundy-Paine, Rob Delaney e Mark Duplass (veja + no IMDb)

Distribuição: Paris Filmes

 

 

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