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ADORÁVEIS MULHERES | Mentes, almas e corações

09/01/2020

 

Em determinado momento de Adoráveis Mulheres (2019), a protagonista Jo March revela a sua preocupação de que ninguém ligue para o que ela escreve. Sendo a personagem uma espécie de alter ego de Louisa May Alcott, autora do livro no qual o filme de Greta Gerwig é baseado, pode se dizer que o temor da autora não se concretizou, pois Mulherzinhas (1868-69) se tornou um clássico da literatura norte-americana ao acompanhar a história de crescimento e amadurecimento das quatro irmãs March, de Massachusetts, durante e após os anos da Guerra Civil Americana (1861-65). Lido por gerações ao longo de mais de um século e meio, o romance já foi levado diversas vezes para o palco e para as telas, seja do cinema ou da televisão – para ficar apenas nos últimos anos, foram produzidas a minissérie Little Women (2017) pela PBS e um longa homônimo com uma versão moderna da trama, em 2018.

 

No entanto, 25 anos depois do sucesso da terna visão de Gillian Armstrong da narrativa de época em Adoráveis Mulheres (1994), filme que contava com os jovens Winona Ryder, Kirsten Dunst, Claire Danes e Christian Bale, além de Susan Sarandon, muitas pessoas devem ter se perguntado o porquê de uma sétima adaptação cinematográfica do livro. O coming of age, por si só, e a relação de irmandade que Alcott traz, livremente inspirada em sua vida e de suas três irmãs, fornecem o tipo de material com que a cineasta de Lady Bird – A Hora de Voar (2017) gosta de trabalhar e esclarecem a habilidade de Gerwig em lidar com o desafio e justificar a existência da nova produção. Para tanto, a roteirista, antes de diretora, encontra na opção pela narrativa não-cronológica, uma forma de pontuar a obra a sua maneira, através de um olhar contemporâneo, sem deixar de abraçar a familiaridade do público com a história.

 

O romance foi escrito, originalmente, em dois volumes, publicados em 1868 e 1869, sendo reunido em uma única publicação a partir de 1880. A realizadora promove, então, a desconstrução da narrativa cronológica original através da construção de paralelos entre a primeira parte, que se dedica à agitada rotina domiciliar das March durante a adolescência – ou infância, de acordo com o período –, e a segunda, que encontra a romântica primogênita Meg (Emma Watson, voltando aos vestidos de época, após o live action A Bela e a Fera, de 2017), a impetuosa Jo (Saoirse Ronan, novamente estrelando um longa da diretora, depois de Lady Bird), a caseira Beth (a australiana Eliza Scanlen, tirando lágrimas do público tal qual em Dente de Leite, de 2019) e a antes mimada caçula Amy (Florence Pugh, em seu ano de ouro ao se destacar também por Midsommar: O Mal Não Espera a Noite) lidando individualmente com os desafios da vida adulta. Na realidade, são estes eventos posteriores que surgem a princípio, com a apresentação da personagem principal já em Nova York, tentando engrenar com sua carreira de escritora e todas as dificuldades que isso significava em meados do século XIX.

 

O link da primeira transição entre tempos não é tão claro: das saias e pernas rodopiando em uma agitada dança de Jo com o colega de pensão, o professor alemão Friedrich Bhaer (o francês Louis Garrel), a narrativa retorna para seus tempos pueris em Massachusetts, quando, apesar da penúria por conta da guerra que tirou o pai delas (Bob Odenkirk) de casa, as irmãs e a mãe, carinhosamente chamada de Marmee (Laura Dern), colecionavam alegrias familiares, além das típicas discussões. Só depois de algumas cenas, a dança reaparece para fazer a protagonista e o jovem vizinho Laurie (Timothée Chalamet, também trabalhando de novo com Greta) se reconhecerem no desdém pelas formalidades da festa em questão. Tão cedo ele conhece o clã March, logo se encanta por aquelas mulheres e encontra nelas uma família, tal qual os outros homens ao seu redor que também admiram aquela vivacidade e fraternidade, como o tutor do rapaz, John Brooke (James Norton), e especialmente o seu avô, Sr. Laurence (Chris Cooper), com Gerwig acentuando a relação paternal que este estabelece com Beth através do piano de sua falecida filha.

 

Depois, o roteiro passa a delinear de modo mais eficiente uma justaposição de causas e consequências ou de resultados diferentes para uma mesma situação nos tempos distintos. Essa narrativa paralela demanda maior atenção do público, especialmente daqueles que estão sendo apresentados ao material pela primeira vez, ao mesmo tempo em que oferece maior envolvimento emocional em alguns momentos. Assim, se o filme não entrega uma cena tão emocionante quanto a de Claire Danis no papel de Beth, na versão de 1994, o dispositivo utilizado nesta adaptação de 2019 propõe um jogo de expectativas na sequência sobre a mesma passagem, com o texto se debruçando de modo muito delicado nas consequências emocionais do ocorrido para a família e seus amigos.

 

Outra diferença, ainda mais bem-vinda no novo filme, é como Greta permite à Amy se desenvolver enquanto personagem, particularmente no que concerne à complexa relação dela com Jo. Sendo somente Pugh a interpretá-la com força e versatilidade, tanto como uma espevitada pré-adolescente quanto já na pele de uma jovem adulta em Paris, com um pensamento prático sobre seu papel para o sustento da família, a menina surge madura aos olhos do público, que tem a chance de compreender também o seu ponto de vista. Isso e a inversão proposta pela linha do tempo não-cronológica diminuem, portanto, a impressão de que a caçula atravessa o caminho da irmã, porque é com a primeira que Laurie é apresentado no começo – bem como a precoce aparição de Friedrich e o casting de Garrel contribuem para que o, geralmente, avulso interesse romântico surja de forma mais interessante à plateia do que é de costume.

 

Dessa maneira, a cineasta encontra não só na protagonista que parece uma extensão de sua semibiográfica Lady Bird, com Ronan diferenciando sua interpretação na resolução da aspirante à escritora, mas também em todas as irmãs, uma chance de continuar lidando com os temas de seu longa de estreia, na dificuldade de crescer e deixar pra trás as boas recordações da infância e adolescência para assumirem sozinhas os fardos da vida adulta – sentimentos contrastantes bem pontuados pela trilha sonora de Alexandre Desplat –, além da questão da diferença de classes sociais ao fundo. Mas é no seu trabalho anterior como roteirista em Frances Ha (2012), que se observa a mesma voz autoral que Gerwig deixa se levantar aqui através de alguns discursos-chaves das duas personagens de mais destaque. Tal qual a bailarina do longa que ela também protagonizou, as duas são mulheres que aspiram grandes sonhos através de seus talentos artísticos, mas se frustram por não atingirem o nível de excelência que desejam e, dentro do ambiente machista na qual estão inseridas, tem suas aspirações sufocadas direta ou indiretamente.

 

Se o olhar autocrítico de Amy serve para criticar o mercado artístico em si, não só de outrora, Greta ressalta nas preocupações, ações e discussões de Jo March o espírito à frente do seu e do nosso tempo da obra de Louisa May Alcott, que joga luz sobre a mente e a alma diversa das mulheres, além dos corações que usualmente delimitam o retrato das figuras femininas. E a cineasta assinala isso por meio de um exercício de metalinguagem que fica mais evidente ao final, conseguindo, assim, ser fiel ao livro e agradar ao grande público com o que permanece na superfície, enquanto deixa clara a sua visão artística e instiga as plateias do século XXI nas entrelinhas.

Adoráveis Mulheres (Little Women, 2019)

Duração: 135 min | Classificação: 10 anos

Direção: Greta Gerwig

Roteiro: Greta Gerwig, baseado no livro “Mulherzinhas” de Louisa May Alcott

Elenco: Saoirse Ronan, Florence Pugh, Emma Watson, Eliza Scanlen, Laura Dern, Timothée Chalamet, Tracy Letts, Bob Odenkirk, James Norton, Louis Garrel, Jayne Houdyshell, Chris Cooper e Meryl Streep (veja + no IMDb)

Distribuição: Sony Pictures

 

 

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