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MARAVILHOSA SRA. MAISEL – 3ª temporada | Os limites do humor e da série

05/01/2020

 

Mais uma vez, chega às vésperas da época de premiações, uma nova temporada de Maravilhosa Sra. Maisel (2017-) para provar a força da série de Amy Sherman-Palladino. A produção original da Amazon conquistou o Globo de Ouro em 2018 de Melhor Comédia ou Musical, mal tendo desembarcado os seus primeiros episódios na sua plataforma de streaming Prime Video, e o SAG de 2019 com o seu elenco pela então “fresquinha” segunda leva, sem falar nos 16 Emmys acumulados durante as duas temporadas. A terceira estreou novamente em dezembro e já garantiu, no mês passado, as indicações em ambos os prêmios que acontecem neste janeiro – confira a lista completa de indicados dos Golden Globes e do SAG’s de 2020.

 

A série cômica que acompanha a transformação da dona de casa judia Miriam, ou simplesmente Midge, na comediante Sra. Maisel, em plena Nova York no final dos anos 1950, se distingue pela junção do texto verborrágico e velocista de Sherman-Palladino, uma assinatura desde Gilmore Girls: Tal Mãe, Tal Filha (2000-07), com a espirituosa reconstituição de época. A obra, porém, entra em uma nova era temporal, ao alcançar o ano de 1960 e, automaticamente, fazer o público vislumbrar os acontecimentos que podem porvir desta conturbada década. Ainda mais quando a protagonista vivida por Rachel Brosnahan, que já ganhou dois Globos de Ouro e um Emmy pelo papel, depois de aprender os macetes da comédia stand-up na primeira temporada e tentar expandir sua carreira na segunda, agora firma o seu nome na área ao embarcar na turnê de Shy Baldwin (Leroy McClain), abrindo os shows do cantor afro-americano pelo país.

 

Mas antes de entrar neste mérito, vale frisar que, enquanto a narrativa acompanha a comediante em duas paradas desta tour, mais especificamente em Las Vegas e Miami, novos cenários também se apresentam para os outros personagens coadjuvantes principais. Tendo a chance de expandir seus negócios como empresária, Susie Meyerson (Alex Borstein, ganhadora de dois Emmys pela sua idiossincrática agente) precisa lidar com os egos desde o início da terceira temporada, quando aceita administrar também a carreira de Sophie Lennon (Jane Lynch, agora recorrente no elenco, depois de participações premiadas). Já os pais de Midge se encontram deslocados desde que Abe (Tony Shaloub, que levou um Emmy e ou Globo de Ouro no último ano) decidiu largar o cargo de professor universitário, para o terror de Rose (Marin Hinkle), e eles precisam sair do seu apartamento, o que rende uma subtrama nível de sitcom na interação deles com os quase ex-sogros de Miriam, Moishe (Kevin Pollak) e Shirley (Caroline Aaron).

 

O novo ano prossegue praticamente na mesma batida dos anteriores, com Amy continuando a frente da direção também, conduzindo metade dos episódios da temporada, seguida pelo marido Daniel Palladino, com quem divide o roteiro, e a primeira participação de Daniel Attias na função. Isso significa que a câmera permanece a fluir na steadycam que circula os espaços, desta mise-en-scène que acompanha o ritmo incessante dos diálogos, sempre entregues eficientemente pelo ótimo elenco, mas os realizadores encontram em Baldwin uma justificativa para os números musicais, que já pontuavam aqui e ali, ganharem mais destaque e tempo na bela voz de McClain – com direito até a apresentação de nado sincronizado típico dos filmes daquele período e de décadas passadas com a “Sereia de Hollywood” Esther Williams. Esses detalhes, além da própria viagem, dá a chance para mais outro trabalho de grande esmero das funções técnicas, desde a reconstituição de época da arte, figurino, maquiagem e penteado à fotografia, cujo ápice é o uso das cores no encontro no clube latino da Flórida.

 

Aliás, antes de entrar neste assunto, fica o aviso aqui para quem ainda não assistiu a terceira temporada e não deseja adiantar os detalhes da trama parar por aqui no texto, evitar spoilers e voltar depois. Com oito episódios nesta leva, a primeira metade deles ainda insiste no ioiô cansativo da relação da Sra. Maisel e seu quase ex-marido Joel (Michael Zegen), que a traiu e a abandonou logo no piloto da série, sendo o responsável pela protagonista tomar as rédeas de sua vida. Mesmo que este tenha evoluído enquanto personagem e até encontrado um novo interesse romântico na figura de Mei (Stephanie Hsu), conhecedora de todos os esquemas dos negócios de Chinatown, onde ele está tentando abrir uma casa noturna, a junção do antigo casal não significa uma evolução para ela, que precisa crescer sozinha e, se necessário, tem melhores opções para ocupar o seu coração: Lenny Bruce (Luke Kirby, também premiado por suas participações no papel do célebre comediante) surge com um flerte real para os fãs “shiparem” e Benjamin (Zachary Levi) volta ao final para acertar as contas com a ex-noiva que o abandonou friamente no segundo ano.

 

No entanto, há menos romance a partir do sexto episódio, Tipo de Azul / Kind of Blue, com o arco desta temporada se tornando mais dramático em seu final que as passadas, na guinada que toma para novos temas. O tom político visto na anterior se acentua, primeiro na crítica bem cômica à rebeldia jovem vazia de princípios, para depois ser mais veemente sobre a caça às bruxas durante o Macarthismo dos anos 50, ainda presente naquele início da década seguinte. No sétimo e penúltimo Rádio Maravilhosa, quando a Sra. Maisel precisa recorrer À publicidade radiofônica para se manter durante o hiato da turnê, ela é confrontada com a necessidade de se sujeitar a repetir algo que não concorda pelo dinheiro ou a fazer valer a sua própria voz, enquanto artista ou cidadã.

 

Essa chamada acontece parcialmente para a série, que desde o início optou por certa frivolidade em conjunto à crítica ao sexismo de sua trama central e das paralelas. Algo que não seria um problema se a protagonista permanecesse nos círculos judeus da sociedade nova-iorquina, mas com ela partindo para outros estados, incluindo um sulista, em uma turnê com um artista negro durante os anos 60, fica difícil justificar a falta de olhar da obra para a questão. Fora a citação de Shy sobre ele, seu empresário Reggie (Sterling K. Brown, ótimo em sua participação) e sua banda estarem hospedados em um hotel diferente na Flórida, o texto pouco se arrisca na abordagem do racismo inerente daquela década em que a segregação racial ainda existia, mas era combatida na luta pelos direitos civis igualitários que se ergueu no país a partir de então.

 

O tema fica no subtexto da introdução de outra temática à história, a da homofobia, quando Shy mostra, para Midge e para o público, as dificuldades de ser negro e gay naquele cenário sessentista – aos moldes de Green Book – O Guia (2018). Se a entrada desse e de outras problemáticas é um pouco tardia, serve para a série de confrontos que a protagonista enfrenta no tenso episódio final Uma Garota Judia Entra no Apollo, especialmente na sequência da derradeira apresentação da Sra. Maisel. Se esta season finale é especialmente melancólica, o sabor agridoce é menos anticlimático que o da segunda, quando a protagonista rodava em círculos, já que a sua “queda” agora serve de lição para fazê-la seguir em frente: saindo da autoindulgência dela e da própria série, os limites do humor são questionados, enquanto a obra procura expandir seus limites, quem sabe para uma quarta temporada mais madura, mas mantendo as risadas de sempre.

Maravilhosa Sra. Maisel (The Marvelous Mrs. Maisel, 2017-)

Série | 3ª temporada: 8 episódios, a partir de 6 de dezembro de 2019

Plataforma: Amazon Prime Video (streaming)

Direção: Amy Sherman-Palladino, Daniel Palladino e Daniel Attias

Criação: Amy Sherman-Palladino | Roteiro: Amy Sherman-Palladino e Daniel Palladino

Elenco: Rachel Brosnahan, Alex Borstein, Tony Shalhoub, Marin Hinkle, Michael Zegen, Nunzio Pascale, Matteo Pascale, Matilda Szydagis, Caroline Aaron, Kevin Pollak, Leroy McClain, Stephanie Hsu, Jane Lynch, Joel Johnstone, Bailey De Young, Brian Tarantina, Luke Kirby, Zachary Levi, Sterling K. Brown, Cynthia Darlow, Justine Lupe e Will Brill (veja + no IMDb)

 

 

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