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O CASO RICHARD JEWELL | Não é só um Tupperware

04/01/2020

 

Eventos extraordinários que rompem a banalidade do cotidiano de homens comuns têm sido um objeto constante dos últimos filmes do prolífico e quase nonagenário diretor, além de ator, Clint Eastwood, vide Sniper Americano (2014), Sully: O Herói do Rio Hudson (2016), 15h17: Trem Para Paris (2018) e A Mula (2018). O mais novo membro do rol de heróis ordinários da vida real que ele traz às telas é o homem que dá nome ao longa O Caso Richard Jewell (2019), segurança responsável por alertar a polícia e outras autoridades sobre a presença de uma suspeita mochila que guardava a bomba que desencadeou o atentado no Centennial Olympic Park, em Atlanta, durante os shows abertos ao público que aconteciam como parte das comemorações externas das Olimpíadas de 1996.

 

Exaltado pela opinião pública por ter poupado a vida de inúmeras vítimas – ainda assim, o artefato explosivo causou a morte direta de uma espectadora, indireta de um cinegrafista que sofreu um infarto durante o ocorrido e feriu 111 pessoas –, Richard Jewell foi logo massacrado pela mesma, alguns dias depois, ao ser investigado pelo FBI como suspeito pela autoria do crime. Indo do céu ao inferno em tão pouco tempo, o turbilhão que se transformou a sua vida é retratado na produção cinematográfica que se baseia no artigo de Marie Brenner, American Nightmare – The Ballad of Richard Jewell, publicado em 1997 na revista Vanity Fair. Mais de duas décadas depois dos acontecimentos, Eastwood e o roteirista Billy Ray, de Capitão Phillips (2013) e Projeto Gemini (2019), são capazes de, ao mesmo tempo, deixar em suspenso, por boa parte da narrativa, a dúvida sobre o caráter da participação do protagonista no atentado para a parcela da plateia que desconhece o caso e de construir uma empatia crescente por ele antes mesmo que fique clara a sua inocência – desculpe o “spoiler”, mas a verdade é que a investigação não comprovou a tese do “falso herói” e o verdadeiro autor foi identificado em 2005.

 

Essa complexidade também se deve à composição do personagem interpretado por Paul Walter Haulser, que, já em Eu, Tonya (2017), demonstra ser ótimo na pele de tipos cujos sonhos de grandeza inalcançáveis os levam a tomar atitudes idiotas. Diferente do lunático e realmente culpado Shawn da cinebiografia da patinadora artística Tonya Harding, o grande problema de Richard Jewell é que a sua ânsia por se tornar um agente da lei se torna exagerada e lhe causa queixas anteriores, que, ao virem ao conhecimento do FBI, fazem o segurança, que possui um enorme arsenal de armas e mora sozinho com a mãe Bobi (Kathy Bates), se encaixar no perfil do lobo solitário que orquestraria o atentado em busca de notoriedade. Mesmo assim, há um tom cômico que permeia a sua figura, na insistência que o suspeito tem em desobedecer as ordens do advogado Watson Bryant (Sam Rockwell), demonstrando sua excentricidade para os investigadores e fornecendo munição contra si.

 

Eastwood usa o artifício como forma de contrabalancear o drama inerente da história, mas nem por isso deixa de criar uma eficiente tensão na sequência do atentado. No entanto, o que é mais destacável no seu trabalho é o olhar para o cidadão norte-americano médio e sua relação com o grande Sonho Americano, pontuando como essa necessidade de “ser importante” assombra e guia as pessoas, tanto para o bem quanto para o mal, em sua vida medíocre – e não há qualquer valor pejorativo aqui no adjetivo, apenas o seu sentido original de mediano. Desta forma, não só Jewell passou a vida em busca desse momento em que se destacaria dos demais e realizaria seu sonho de ser o “mocinho combatendo os bandidos”, como pontua a sua mãe, mas também os outros personagens ganham a sua chance de ouro ao se envolverem na questão: a jornalista Kathy Scruggs (Olivia Wilde) ambicionando pelo grande furo de reportagem; o agente do FBI Tom Shaw (Jon Hamm) que sente o orgulho ferido pelo atentado acontecer no seu turno e fez dessa caçada um trunfo pessoal; ou Watson Bryant, um tipo peculiar perfeito para Rockwell, advogado que tem a chance de resolver um caso que pode reerguer a sua carreira.

 

No entanto, nenhum deles passa ileso por esse momento, nem mesmo aquela que não desejava nada além da felicidade do filho. Por isso e pelo talento de Kathy Bates em elevar um papel até pequeno, o drama de Bobi se sente no simples problema dos seus Tupperware's que são levados para a perícia. O que, à primeira vista, seria apenas uma questão doméstica é, na realidade, é a prova de um cotidiano alterado à revelia, pela atitude invasiva das autoridades e pelo julgamento midiático.

 

O último item, aliás, é a grande crítica feita pelo filme, que pega o caso mais exemplar para o jornalismo norte-americano sobre como não conduzir de forma parcial e sensacionalista uma cobertura – uma espécie de Caso Escola Base de lá – para apontar o dedo para o Quarto Poder. O principal problema é que, diferente do personagem fictício de Hamm que representa os desmandos dos agentes da lei, a figura real de Kathy Scruggs, interpretada por Wilde, é colocada como a única “Judas” para malhar toda a imprensa que seguiu o equívoco do FBI, em um dos vários exemplos do fenômeno do circo midiático na cobertura policial nos Estados Unidos dos anos 90 – o próprio Eu, Tonya mostra um dos muitos casos daquela década que recebeu semelhante atenção e tratamento. Sem demonstrar o mesmo desenvolvimento complexo que denota tão bem ao protagonista, Eastwood e Ray recorrem a uma vilanização simplificada da repórter e, pior, a uma caracterização machista a qual a mesma, falecida em 2001, não pode se defender.

 

Certamente outras produções “baseadas em fatos reais” – perdão, pela redundância – incorrem na mesma incorreção. Mas a questão se faz mais sensível aqui pela obra, que também é um produto da mídia a qual está criticando, cair justo no erro que está expondo, ao macular a imagem de alguém com passagens que não se sabem se aconteceram para falar exatamente do equívoco que afetou a rotina de Richard. E como o próprio filme frisa tão bem, tal qual o pote marcado à caneta, a vida marcada pela calúnia e difamação nunca mais é mesma.

O Caso Richard Jewell (Richard Jewell, 2019)

Duração: 131 min | Classificação: 14 anos

Direção: Clint Eastwood

Roteiro: Billy Ray, baseado no artigo “American Nightmare – The Ballad of Richard Jewell” de Marie Brenner, publicado pela Vanity Fair

Elenco: Paul Walter Hauser, Sam Rockwell, Kathy Bates, Olivia Wilde, Jon Hamm, Nina Arianda, Mike Pniewski e Ian Gomez (veja + no IMDb)

Distribuição: Warner Bros. Pictures

 

 

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