© 2019 por Nayara Reynaud. Criado a partir da plataforma Wix.

FERNANDO | Ao mestre, com carinho

02/12/2019

 

Típicas fotos da década de 1990 mostram o registro de um projeto único que promovia o ensino das artes a crianças de uma pequena comunidade no interior do Rio de Janeiro. As imagens trazem consigo as memórias contadas em voz off pelo criador deste mosteiro cultural, que é justamente o objeto de interesse, desde o título, do filme Fernando (2017). Exibido no festival curitibano Olhar de Cinema de 2017 e na Mostra de Tiradentes de 2018, chega agora ao circuito a homenagem cinematográfica que os outrora alunos Igor Angelkorte, Julia Ariani e Paula Vilela promovem ao mestre querido, o ator e professor Fernando Bohrer.

 

A relação anterior com seu personagem permite aos diretores estreantes uma grande intimidade que é transmitida no longa ao acompanhar a sua modesta rotina atual, entre as aulas na Casa das Artes de Laranjeiras (CAL) e a rotina domiciliar. No entanto, alguns espectadores devem se surpreender no final, ao descobrirem que o marido do protagonista não é realmente o personagem interpretado por Rubens Barbot neste exercício híbrido de documentário e ficção. Por tratar-se de um ator, os realizadores querem, por bem utilizar a ficcionalização como dispositivo, mas somente quando o ato de atuar fica claro nos ensaios da peça, é que a obra extrai as melhores verdades sobre este Fernando, enquanto a vertente documental é minada e não reforçada por esta escolha aqui: há, por exemplo, uma diluição da potência que descobrir o cotidiano real de um casal homossexual, sendo normal como qualquer outro, teria para uma parcela da plateia, a partir do momento que esta questiona a veracidade do que vê na tela.

 

Se também é questionável se os problemas de saúde que o afligem são artifícios narrativos, a ideia de sua inconformidade pessoal com a proximidade da morte consegue dialogar mais com a realidade, como metáfora da resistência de uma classe cada vez mais sufocada pela falta de recursos para continuar subsistindo. Na conversa de bar com os amigos, justamente no dia da eleição municipal de 2016, a discussão casual da experiência deles com editais e financiamento públicos refletem um debate mais profundo sobre o futuro sustentável da área artística, já prevendo os tempos mais difíceis que viriam à frente. Há ali, naqueles rostos cansados, um ressentimento sobre o porquê continuar trabalhando com isso em um país no qual, governo após governo, segundo o pensamento do protagonista, não se valoriza a sua função e a necessidade social dela, pelo medo das transformações que a educação e a cultura podem provocar em um povo que se torna esclarecido sobre as suas condições e tudo aquilo que podem almejar.

 

Agora, se o professor que, bem ou mal, tem condições de viver apenas de arte, tem uma rotina restrita morando em um pequeno apartamento com o companheiro e almoçando marmita na rua, como será que estão os antigos alunos dele do mosteiro? Este é um questionamento que permanece desde o início, quando o interesse do público e da obra podem diferir nos caminhos opostos que seguem – e, particularmente, acredito que o filme encontraria mais ressonância ao entender de que maneira aquelas crianças foram ou não modificadas por tal imersão artística em um ambiente que não lhes permite tal “luxo”, independente se seguir ou não uma carreira na área. Assim como a sua longa cena final, Fernando é aquele mosaico imperfeito, cuja justaposição de suas peças nem sempre formam a melhor combinação ou cobrem todos os vazios, mas é realizado com tamanho carinho que forma um retrato terno deste operário da cultura.

Fernando (2017)

Duração: 70 min | Classificação: 16 anos

Direção: Igor Angelkorte, Julia Ariani e Paula Vilela

Roteiro: Igor Angelkorte, Julia Ariani e Paula Vilela

Elenco: Fernando Bohrer, Rubens Barbot, Carolina Virgüez, Jacob Herzog, Igor Angelkorte, Chandelly Braz, Paula Vilela, Arnaldo Marques, Claudia Mele, Damiana Guimarães e Ligia Veiga (veja + no IMDb)

Distribuição: Olhar Distribuição

 

 

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