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RETABLO | Um retábulo que foge ao tradicional

08/11/2019

 

Se a origem dos retábulos está muito ligada à arte sacra nas estruturas ornamentais para altares, o filme Retablo (2017), candidato do Peru por uma vaga na disputa do Oscar de Melhor Filme Internacional, tem como ponto de partida para sua narrativa e estética a sua faceta nacional, mais artesanal e doméstica, que é muito comum em algumas regiões do país. O retábulo ayacuchano é uma arte folclórica peruana na qual a herança da colonização espanhola católica foi ressignificada aos costumes dos povos nativos andinos e transformada em caixas de madeira que retratam, através de bonecos de massa de batata, cenas do cotidiano familiar, da história local e/ou figuras religiosas.

 

Essa tradição já foi abordada, além da figura paterna e questões sobre sexualidade, no primeiro curta de Álvaro Delgado-Aparicio, El Acompañante (2012), e agora o jovem cineasta retorna a estes temas com uma nova proposta em seu longa de estreia. No retrato deste Retablo, Noé (Amiel Cayo) é um mestre nesta arte e Segundo (o ótimo estreante Junior Bejar), o filho adolescente que está aprendendo este ofício com ele – o único, aliás, que ainda mora na vila junto dele e da mãe, interpretada por Magaly Solier de A Teta Assustada (2009). O primeiro ato acompanha o menino de 14 anos nesse aprendizado familiar até que, em uma viagem para vender as peças que fizeram na cidade, ele flagra o pai em uma situação inesperada.

 

Trata-se de um coming of age em que, diferente do comum, a descoberta da sexualidade não se dá de maneira direta. Não é à toa que Noé, cujo nome remete ao patriarca bíblico, está tapando os olhos do filho na abertura do filme. Além do sentido de treinar a visão do garoto para o ofício, é significativo que o jovem protagonista esteja abrindo seu olhar para o mundo logo no início do longa e para o próprio pai.

 

Há, portanto, um choque inicial do adolescente com essa figura que ele idolatrava, mas não conhecia de fato em seus sentimentos mais íntimos. Porém, nada é pior do que o ambiente que os cerca, onde o linchamento de um ladrão de animais já é um indício de como a aquela comunidade andina está presa ao passado, como indica a fala de Noé. E um passado não muito distante, como lembrado na menção aos tempos do terrorismo no Peru, nas décadas de 1980 e 90, e retomado no preconceito e violência que eclodem naquele aparente cenário camponês pacífico.

 

A abordagem do filme sobre estas questões lhe garantiu prêmios no Festival de Berlim de 2018, como o Urso de Cristal na menção honrosa na Mostra Geração ou o Teddy de Revelação entre os débuts de temática LGBT, mas é necessário destacar o rigor estético e narrativo de Aparicio. A sua paciente direção naturalista se aproveita de janelas e portas para apresentar este retrato familiar em desintegração através de planos que se assemelham a retábulos na tela. Se o registro quase documental do cotidiano deles drena um pouco o ritmo da narrativa, o cineasta e o corroteirista Héctor Gálvez ganham fôlego com um final pungente em que, colocando o espectador no mesmo olhar de busca desesperada de seu jovem protagonista no clímax, põem o público como parte integrante desta triste imagem na caixa cinematográfica.

Retablo (Retablo, 2017)

Duração: 101 min | Classificação: 16 anos

Direção: Álvaro Delgado-Aparicio

Roteiro: Álvaro Delgado-Aparicio e Héctor Gálvez

Elenco: Junior Bejar, Amiel Cayo, Magaly Solier, Mauro Chuchon, Ubaldo Huamán, Hermelinda Luján, Ricardo Bromley López e Claudia Solís (veja + no IMDb)

Distribuição: Arteplex Filmes

 

 

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