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DOUTOR SONO | Batalhas mentais

07/11/2019

 

A referência surge logo no início com um garoto no triciclo andando por um famoso carpete padronado, mas a cena não é a mesma daquela guardada na memória do público, pois um rosto diferente, de Roger Dale Floyd, está na pele do pequeno Danny Torrence. É com esse tipo de relação de semelhança e referência que o cineasta Mike Flanagan trabalha em Doutor Sono (2019), continuação do clássico O Iluminado (1980), ambos inspirados – mais fielmente ou não – nos livros homônimos de Stephen King. Esta e outras imagens icônicas do filme de Stanley Kubrick são recriadas no recente longa, com novos atores caracterizados como os originais, já que traz novas sequências para elucidar o que aconteceu com os personagens após os acontecimentos antes retratados.

 

Não tarda, porém, para o novo capítulo apontar claramente a sua desassociação da fórmula e do tom daquela que é considerada uma obra-prima do terror psicológico, sem deixar de honrar a sua herança. Além da ambientação inicial que remete mais a outros filmes contemporâneos, como a própria duologia IT – A Coisa (2017/2019), outra adaptação da Warner do universo de King, do que uma emulação do cinema da passagem dos anos 70 para os 80, a produção se propõe mais a ser uma fantasia psicológica do que um terror propriamente dito. Bem como o original trazia uma proposta diferente dentro do que era o gênero naquele momento.

 

Isso ocorre por uma inversão básica. Se no filme de Kubrick, a derrocada psicológica de Jack Torrence como zelador no Hotel Overlook era o eixo principal, com o dom da iluminação do filho se tornando mais um acessório na trama do que é no livro O Iluminado (1977), o contrário acontece na adaptação de Flanagan de Doutor Sono (2013). A iluminação se torna alvo de cobiça dos antagonistas e objeto central da narrativa em seus últimos dois terços do longa, enquanto o drama pessoal de Danny e suas questões com essa figura paterna ocupam o primeiro ato e se transforma em subtrama no resto da história.

 

Assim, o público é apresentado a um traumatizado garoto que ainda é assombrado pelos fantasmas do Overlook, especialmente pela mulher do quarto 237, e depois, já adulto na interpretação de Ewan McGregor, reverte isso no vício em álcool e drogas. Tentando fugir dele mesmo, Dan tenta um recomeço parando em uma pequena cidade no estado de New Hampshire. Frequentando sessões do Alcoólicos Anônimos, ele conta com a ajuda de companheiros do AA (Cliff Curtis e Bruce Greenwood) para arranjar trabalho, como o de enfermeiro em uma clínica de pacientes terminais, em que sua faceta de Doutor Sono alardeado no título é abordada apenas em um curto segmento da produção.

 

Perto dali, vive Abra Stone (Kyliegh Curran, na adolescência / Dakota Hickman, na infância), cujo nome já indica a magia – como ela chama a iluminação – desta garota com um dom ainda maior do que o de Torrence quando era pequeno e que passa a se comunicar com ele. Contudo, o imenso poder da jovem é, ao mesmo tempo, um chamariz e uma ameaça para o Verdadeiro Nó, um grupo nômade que mais parece uma banda de folk rock em turnê e que se alimenta dos vapores do brilho de crianças iluminadas para manterem a sua juventude por séculos e séculos. É então, que entra Rebecca Ferguson, roubando um pouco a cena como a líder desse bando, Rose Cartola, uma vilã que facilmente poderia cair na caricatura se não fosse pelo seu talento.

 

Diretor de longas de terror como O Espelho (2013) e Ouija: Origem do Mal (2016) e da série do gênero A Maldição da Residência Hill (2018-), Flanagan também edita seus trabalhos, conseguindo êxito, mesmo com as imperfeições, ao juntar quase três filmes em um só de duas horas e meia de duração. Tudo que era subjetivo e alegórico na obra de Kubrick ganha substancialidade nesta fantasia criada por Mike, a exemplo das caixas aprisionantes na mente labiríntica de Danny. Se isso soa muito genérico e direto para os fãs puristas de O Iluminado, é muito interessante como o cineasta também diferencia Doutor Sono da ação contemporânea ao construí-la através de batalhas psíquicas – se assemelhando mais ao jogo psicológico de Legion (2017-19) do que as disputas mentais entre o Professor Xavier e Jean Grey no cinema, em uma escala X-Men.

 

Por isso, Flanagan é mais eficiente quando assume este caráter único da sequência, sem necessitar adentrar novamente no terreno do anterior, como ocorre no clímax. O realizador, no entanto, ainda é mais reverente a King do que a Kubrick, em uma adaptação mais literal do material escrito do que O Iluminado, o qual foi alvo de críticas do próprio autor. Discursos recorrentes do escritor sobre o medo implantado desde a infância e do mal se alimentando dele recebem destaque, tal qual a ideia de que a magia está diminuindo em tempos mais conturbados e céticos como o de hoje. Daí a moral aplicada ao Doutor Sono, que escondia essa iluminação para sobreviver em um mundo de trevas, e passa a compreender a necessidade de mostrar isso, apesar dos perigos, para mudar este ambiente desfavorável.

Doutor Sono (Doctor Sleep, 2019)

Duração: 151 min | Classificação: 16 anos

Direção: Mike Flanagan

Roteiro: Mike Flanagan, baseado no livro “Doutor Sono” de Stephen King

Elenco: Ewan McGregor, Rebecca Ferguson, Kyliegh Curran, Cliff Curtis, Zahn McClarnon, Emily Alyn Lind, Carel Struycken, Roger Dale Floyd, Alex Essoe, Henry Thomas, Bruce Greenwood, Jacob Tremblay e Dakota Hickman (veja + no IMDb)

Distribuição: Warner Bros. Pictures

 

 

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