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MOSTRA SP 2019 | Bate-papo com o diretor Sebastian Borensztein e o produtor Federico Posternak, de “A Odisseia dos Tontos”

03/11/2019

Milhões de sonhos depositados nas economias de uma vida que estavam guardadas no banco somem de um dia para o outro. Se o cenário de desilusão descrito logo remete os brasileiros à época do Plano Collor, em 1990, uma situação semelhante ocorreu na Argentina de 2001 com o Corralito, como ficou conhecido o confisco dos depósitos das contas correntes e poupanças da população para evitar a transferência de quantias em dólares ou para o exterior, enquanto o país sofria com mais uma grave crise econômica. O período serve de pano de fundo para a história de A Odisseia dos Tontos (2019), o candidato argentino por uma vaga na categoria de Melhor Filme Internacional no Oscar, que integrou a programação desta 43ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo e estreou no circuito nesta quinta (31).

 

Em visita ao Brasil para divulgar o filme estrelado por Ricardo Darín, o diretor Sebastian Borensztein e o produtor Federico Posternak conversaram com o NERVOS e outros jornalistas em uma mesa-redonda sobre detalhes da produção e seu efeito no público ao contar a história de um grupo de personagens de um povoado que resolve se vingar saqueando aquele que se beneficiou do momento e recuperando o dinheiro que este homem roubou deles. Os dois também falaram da situação atual do mundo e do cinema argentino, como você confere a seguir.

“Muitas coisas do livro não estão no filme e muitas coisas do filme não estão no livro, mas a essência, a história e os personagens foram respeitados como foram criados”

Sebastian Borensztein

 

O longa A Odisseia dos Tontos é uma adaptação cinematográfica do livro La Noche de la Usina (2016), de Eduardo Sacheri, autor de La Pregunta de Sus Ojos (2005), romance que foi levado aos cinemas pelo mesmo produtor no oscarizado O Segredo dos Seus Olhos (2009). Federico Posternak afirmou que ele e seus parceiros de produtora, o ator Ricardo Darín e o filho Chino Darín – que também está neste grande elenco, tendo seu progenitor como pai também na ficção – conversaram com o escritor sobre o interesse em comprar os direitos autorais de seu trabalho e, quando a resposta foi positiva, os três trabalharam junto com Eduardo e o cineasta Sebastian Borensztein para adaptar a trama. Um processo que guardou suas diferenças entre as mídias, explica a dupla em resposta ao NERVOS.

 

“A história do filme é a mesma do livro e os personagens são os mesmos também. A diferença é que nós trocamos o ponto de vista e a estrutura completa do romance. Os leitores não sabem o que está fazendo esse grupo até o final. No nosso filme, todo mundo sabe o que estão fazendo e a incógnita é vai poder fazer? Como vai fazer? Vai ter obstáculos? Vai conseguir? Vai dar certo, não vai dar certo?” esclarece o diretor, que também comenta sobre o ponto de vista da publicação ser de Sacheri, como um narrador onisciente que vai saltando de um personagem a outro, enquanto no longa, isso fica a cargo de Fermín Perlassi, personagem interpretado por Ricardo. “O personagem do [Luis] Brandoni [chamado Antonio Fontana], ele era um anarco-radical. Era impossível explicar isso em um filme com tantos personagens. Então, a gente pegou as coisas mais importantes, a essência”, ressalta Posternak, com Borensztein acrescentando que “muitas coisas do livro não estão no filme e muitas coisas do filme não estão no livro, mas a essência, a história e os personagens foram respeitados como foram criados”.

 

Questionado sobre a trilha sonora, o diretor elucida que a ideia deles era usar hinos do rock argentino, já que sempre pensaram que esta obra deveria ter muito deste sentimento nacional. “São cinco canções de diferentes épocas da história, dos anos 70 para frente. E tudo tem muito sentido para nossa sociedade, para diferentes gerações de pessoas”, ressalva Sebastian.

 

 

“O filme não tem uma bandeira política definida”

Federico Posternak

 

Boa parte da mesa-redonda, porém, ficou concentrada na discussão sobre a pertinência da obra em um cenário político tão conturbado, não só na Argentina. “O que acontece nesta história, aconteceu no mundo inteiro. Você olha a televisão, o que tá acontecendo no Chile, em muitos lugares, em 2008 com o Lehman Brothers... Já ninguém, em nenhuma parte do mundo, é ingênuo com as instituições. Todo mundo está descontente com os governos, com bancos. Então, quando uma pessoa normal de qualquer parte do mundo vê que oito ou nove tontos como eles [os personagens] conseguem levar adiante um plano para recuperar o que os pertence, é uma sensação muito gratificante para todo mundo”, acredita Borensztein. O diretor ainda defende que “o cinema é o lugar perfeito para fazer as coisas que na vida real você não pode fazer. (...) O cinema não tem que ser politicamente correto, ser justo com a lei, porque isto está na vida diária. O cinema tá pra voar para a fantasia e parte da fantasia de todo mundo é isso”.

 

Sobre a recepção do público argentino, Posternak destacou um fato curioso gerado pelo escolha do filme não ter uma bandeira política definida, como ele afirma. “Então, gente de um partido se identificava com o filme, mas gente de outros partidos também”, comenta o produtor. “A gente recebeu felicitações de pessoas que falavam ‘Por fim, um filme peronista’ e outros falavam ‘Bravo! Este filme não é um filme peronista. Gostamos’”, relembra Sebastian.

 

Isso é reflexo de um “casting multi-ideológico”, como define o cineasta. “Tem Luis Brandoni, que é um anti-peronista e tem Daniel Aráoz e Rita Cortese que são muito peronistas. Então, o que fizemos é o mesmo que fazem os personagens: tudo junto trabalhando por um mesmo objetivo que é fazer um filme bom, passar um bom tempo juntos, jantar bem, beber bem e passar bons momentos no set. Somos todos profissionais, além das ideologias, além do pensamento de cada um. Parece uma coisa estranha, mas é como deve ser a normalidade”, afirma Borensztein. “A verdade é que, quinze anos atrás, a gente não falava ‘de que partido político é você?’, para pensar se podia falar com a pessoa. É uma coisa bem nova, dos últimos 10 anos, talvez. Então, a gente nunca pensou nisso”, disse Federico.

 

O diretor e roteirista, no entanto, frisa as diferenças e semelhanças da trama cinematográfica para a realidade atual. “No Chile, o problema que estamos assistindo é um problema também de pobres contra os ricos. E nosso grupo de pessoas tem da senhora que é empresária do caminhão e tem outro senhor ali que é um indigente, que mora perto de uma lagoa, que não tem nada, nem um tostão. E não diferencia na hora de ir adiante com o plano. Então, neste grupo, está representado todos os estratos sociais e econômicos de uma sociedade. E todo mundo trabalhando junto para recuperar aquilo que foi roubado deles”, pontua Sebastian. “A gente acha que a divisão não é tanto política, é mais de uma questão ideológica. Se você tem alguma forma de pensar que as outras pessoas são parte de uma sociedade ou se você não se importa com as outras pessoas. Aí, no filme marca uma forma muito certa de que todos nós somos ‘tontos’, além da posição econômica, ou somos um ‘filho da puta’. Você é um ‘filho da puta’ se você não se importa com as outras pessoas. Se você não é isso, estamos todos juntos”, explica Posternak, com Borensztein categorizando que a briga é “tontos x filhos da puta”.

 

 

“As pessoas sentiram que faziam uma catarse com esse filme”

Sebastian Borensztein

 

O cineasta destacou o número de 1,3 milhão de espectadores que foram aos cinemas argentinos para ver A Odisseia dos Tontos, desde que o longa foi lançado no país, em 15 de agosto. E a expectativa é que o título permaneça em cartaz até o fim do ano. “As pessoas sentiram que faziam uma catarse com esse filme. E essa foi a recepção, também, em Toronto, e em San Sebastián. E acho que aqui poderia acontecer a mesma coisa”, acredita Borensztein.

 

Mas, quando questionado sobre a situação do cinema argentino atual, o realizador não é tão otimista, destacando problemas recentes que afetaram o setor, junto ao colega de profissão. “Temos uma lei de cinema, por sorte, e o instituto que a regula e tudo mais. Mas, nos últimos anos, não fluía o funcionamento desse mecanismo, como deveria ter fluído e isso deteriorou muito, especialmente aos pequenos produtores. (...) Nestes últimos quatro anos [sob o governo de Mauricio Macri, como fica subentendido], não teve um foco para isto, concretamente, em que todos os mecanismos de fomento funcionaram como deveria funcionar, como diz a lei e os bons costumes. Então, isso produziu um dano aos produtores menores, que são sempre os que se queixam rápido quando as políticas de ajudas e de subsídios não fluem da mesma maneira”, afirma o diretor.

 

Contudo, Posternak acredita que, além das questões políticas, outras variáveis estão transformando a indústria cinematográfica, “praticamente, a cada seis meses”. “Se você ver os números do cinema argentino do ano 2017, do ano 2018, 2019, foi muito diferente, independentemente das produções que foram feitas. A quantidade de gente que foi ao cinema para ver filmes argentinos em 2017 não é a mesma que 2018 e não é a mesma que 2019. Este ano, nosso filme (por sorte somos nós) foi o único filme que passou um milhão de espectadores. É o único. E depois, não há nenhum que tenha passado dos 600 mil”, lamenta o produtor, que junto de Sebastian, destaca a mudança no hábito de consumo de conteúdo por parte do público como um agente dessa crise. “É verdade que, na Argentina, se faz muito cinema. Não digo como algo ruim, digo como algo que é real. São feitos 280 longas na Argentina, em um ano. É muito difícil que se vá assistir a todas essas produções. E se esses 280 filmes estão brigando contra o Coringa (2019), contra Toy Story, ou contra uma série por semana na Netflix, se torna muito mais difícil”, observa Federico.

 

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