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DOWNTON ABBEY | Revisitando velhos conhecidos

25/10/2019

 

Uma carta cruza a Inglaterra até chegar ao condado de Yorkshire, onde cenários conhecidos trazem memórias para o público que é convidado a revisitar a mansão da família Crawley, que rendeu tantas histórias na série que leva o nome dessa gigantesca morada, Downton Abbey (2010-15). O conteúdo da mensagem guarda a informação de que o local receberá nada menos do que a visita da Família Real, fato que serve de premissa para Downton Abbey (2019), o filme que chega aos cinemas quatro anos depois da então despedida dos personagens em torno deste lugar. Dirigido por Michael Engler, que esteve à frente de quatro episódios da atração, o longa-metragem tem ares de especial – particularmente, os de Natal, que eram comuns na atração – no roteiro assinado pelo criador da produção televisiva, Julian Fellowes, que faz deste quase um epílogo cinematográfico do universo que concebeu acerca da aristocracia inglesa do início do século XX.

 

Uma mistura de melodrama de época com uma comédia de costumes, a trama da série começava em 1912, logo sob o impacto do naufrágio do Titanic, e depois levou nobres e criados a terem suas vidas suspensas pela I Guerra Mundial, serem afetados pela gripe espanhola e por ene outros eventos históricos e dramas pessoais ao longo de anos. Apesar de não informar, o filme se passa em 1927, cerca de um ano e meio após os acontecimentos do final do “novelão inglês”. E se Fellowes não se aproveita das transformações do mundo ao redor deles como fazia na TV, carrega para a telona toda a agitação dos “bastidores” debaixo da mansão e a elegância que Downton tem de aparentar lá em cima – embora as seis temporadas do seriado já tenham comprovado que os segredos mais escusos circulam tanto entre os ricos do salão quanto entre os funcionários que os atendem.

 

A rapidez dos diálogos, especialmente com a direção de Engler – experiente em outras séries e produções de época – a percorrer a cozinha e os corredores inferiores da casa e apresentar a rotina frenética dos criados, pode ser difícil de acompanhar para aqueles que não assistiram a série, mas logo o filme se faz compreensível para todo o público, mesmo mantendo os mimos para os fãs. A agitação na mansão e na aldeia por conta da visita do Rei George V (Simon Jones) e da Rainha Mary (Geraldine James) é logo contrastada com as regras e restrições impostas pela equipe de apoio da Família Real, cuja petulância faz com que Anna (Joanne Froggatt), a Sra. Hugues (Phyllis Logan), a Sra. Patmore (Lesley Nicol), o Sr. Bates (Brendan Coyle) e todos os seus colegas de trabalho em Downton criem um plano para retomar o controle do lugar onde dedicam tanto tempo de suas vidas nesta ocasião especial. Sendo essa a espinha dorsal da narrativa, Fellows, que também foi roteirista do longa Assassinato em Gosford Park (2001), preenche o caráter episódico desta premissa com uma teia de subtramas que envolve até o espectador novato neste mundo.

 

Cruzam-se, assim, várias histórias paralelas desse mosaico de personagens, com destaque para Tom Branson (Allen Leech), o ex-choffer que casou com a bela e progressista caçula de Lorde Grantham (Hugh Bonneville) e Cora (Elizabeth McGovern), para desagrado dos pais, mas logo se tornou um membro querido da família. Neste longa, ele é um viúvo com a possibilidade de ganhar um novo capítulo em sua vida amorosa ao conhecer a criada Lucy Smith (Tuppence Middleton) bem como paira a tensão se o ex-revolucionário pela causa irlandesa seria capaz de fazer algum tipo de protesto contra à Coroa britânica por causa dos problemas políticos em sua terra natal. Algo que preocupa sua cunhada Mary (Michelle Dockery) tanto quanto os problemas da casa que ela administra, enquanto sua irmã Edith (Laura Carmichael) vem para ocasião pensando no breve futuro em que aumentará o seu núcleo familiar com Bertie Hexham (Harry Hadden-Paton).

 

A matriarca Violet (Maggie Smith) continua às turras com a prima Isobel (Penelope Wilton), rendendo as melhores trocas de farpas com aquele típico humor inglês, mas as duas se unem para investigar o destino da herança de uma parente distante que vem junto com a comitiva real, Maud Bagshaw (Imelda Staunton). Na parte de baixo da mansão, a assistente de cozinha Daisy (Sophie McShera) evita se comprometer em outro casamento com o volante Andy (Michael Fox) e o Sr. Carson (Jim Carter) é chamado a sair momentaneamente de sua aposentadoria para assumir o comando da equipe da casa durante este evento, o que aborrece o atual chefe Thomas Barrow (Robert James-Collier). O antes vilanesco criado ganha um arco especial aqui, ao mostrar como os homossexuais daquela época eram obrigados a manter uma vida secreta para simplesmente poderem ser quem são em uma sociedade na qual o preconceito ainda era respaldado por lei.

 

Este amplo painel não permite o desenvolvimento pleno de todos os talentos que a produção tem à mão, mas Fellowes e Engler contam com toda a construção realizada ao longo da série como acessório, como se, mesmo sem o conhecimento prévio, um visitante de primeira viagem pudesse sentir toda a vida e história que reside ali. Para os fãs, é como a satisfação de reencontrar velhos conhecidos, como no olhar de satisfação em tom de despedida de condessa viúva Violet. Outro aspecto que não muda é a excelência da produção na recriação desta “era perdida” através do figurino, direção de arte, penteado e maquiagem.

 

Essa valorização da tradição frente a um mundo de novidades sempre pautou a série, como uma justificativa para a manutenção desse palacete e a própria existência de uma atração que faz uma ode à esse estilo de vida aristocrático, ainda que faça as suas críticas. Tal dualidade se manifesta no longa tanto no espírito monárquico da sinopse quanto no pensamento antimonárquico de alguns personagens ou na rebelião dos serviçais contra o desmando dos colegas que trabalham para a realeza, ainda que não seja uma luta contra o status quo com todas as letras. Assim, igual a Tom, que, apesar do caráter revolucionário de suas convicções, não deixa de gostar daquelas pessoas apegadas a costumes e um modo de viver que já não cabe mais no mundo de outrora ou de hoje, o público encontra um entretenimento delicioso de assistir, mesmo que não concorde com a opulência da nobreza. E, talvez, o grande trunfo do filme seja retomar inteiramente o espírito de leveza do material original, em que tudo parece frívolo e privilegiado, mas igualmente cotidiano e universal.

Downton Abbey (Downton Abbey, 2019)

Duração: 122 min | Classificação: 12 anos

Direção: Michael Engler

Roteiro: Julian Fellowes

Elenco: Maggie Smith, Michelle Dockery, Allen Leech, Laura Carmichael, Hugh Bonneville, Elizabeth McGovern, Penelope Wilton, Jim Carter, Joanne Froggatt, Brendan Coyle, Robert James-Collier, Sophie McShera, Lesley Nicol, Phyllis Logan, Michael Fox, Kevin Doyle, Raquel Cassidy, Harry Hadden-Paton, Matthew Goode, Imelda Staunton, Tuppence Middleton, Stephen Campbell, Kate Phillips, Geraldine James, Simon Jones, Susan Lynch, David Haig, Max Brown, James Cartwright e Mark Addy (veja + no IMDb)

Distribuição: Universal Pictures

 

 

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