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O PINTASSILGO | Uma moldura intocável

10/10/2019

 

Sensação das listas de mais vendidos quando foi publicado em 2013, o livro O Pintassilgo ainda adicionou ao seu currículo o Prêmio Pulitzer de Ficção no ano seguinte. Tamanho prestígio certamente renderia uma adaptação cinematográfica do terceiro romance de Donna Tartt, que se concretizou agora no longa de John Crowley, O Pintassilgo (2019). No entanto, condensar as quase 800 páginas da prosa literária em até extensas duas horas e meia se torna um desafio que o filme não dá conta.

 

Uma das estratégias do roteirista Peter Straughan, de O Espião Que Sabia Demais (2011) e Boneco de Neve (2017), é não seguir a ordem cronológica adotada pela escritora, começando a misturá-la mais a partir do segundo ato. É quando a vida adulta de Theo Decker, encarnado por Ansel Elgort, de A Culpa É das Estrelas (2014) e Em Ritmo de Fuga (2017), passa a se intercalar com a sucessão de perdas e descobertas de sua adolescência, com Oakes Fegley, de Meu Amigo, O Dragão (2016) e Sem Fôlego (2017), até melhor ao segurar o papel na maior parte da produção. Antes, então, o público é apresentado a esse jovem de 13 anos que perde a mãe em um atentado à bomba no Metropolitan Museum of Art de Nova York (MET), onde, segundos antes, mãe e filho admiravam o famoso quadro de Carel Fabritius que dá nome ao livro e ao longa, enquanto o garoto também se encantava com uma menina ruiva com seu pai ao lado.

 

Sem que as autoridades localizem o seu pai, a princípio, o órfão fica com a família de seu colega da escola Andy (Ryan Foust), os Barbour’s, cuja matriarca interpretada por Nicole Kidman, entregando no olhar por trás da polidez desta mulher de alta classe, vai aos poucos se afeiçoando a ele. As duplas de figuras juvenis e adultas o acompanham, desde o (re)encontro com o restaurador de móveis e objetos antigos Hobie (Jeffrey Wright como um mentor para o protagonista) e Pippa (Aimee Laurence e, já maior de idade, com Ashleigh Cummings), outra vítima da tragédia, e quando a sua figura paterna reaparece. O alcoólatra ator Larry (Luke Wilson) o leva para morar junto dele e de sua atual companheira Xandra (Sarah Paulson) em um subúrbio afastado de Las Vegas – cuja desolação do deserto é belamente retratada na fotografia de Roger Deakins –, onde encontra o único apoio na amizade de Boris (Finn Wolfhard / Aneurin Barnard), um adolescente ucraniano de vida nômade que esconde na rebeldia e também nas drogas os seus problemas.

 

Intercalando passado e presente para potencializar as consequências dos eventos que marcaram a formação de Theo, o roteiro constantemente frisa a ideia de que a vida reserva um revés atrás do outro para atentar as pessoas sobre a sua fragilidade e a necessidade de aproveitar o(seus) momento(s) – isso é até ressaltado em como tanto a poeira quanto a fumaça surgem de forma simbólica, especialmente quando uma perda se faz presente. Não por menos, o protagonista e o filme em si descobrem o prazer pelas antiguidades perenes dos objetos e da própria arte como um valor duradouro, sendo um antídoto para a fugacidade com que a vida humana os trata. Se O Pintassilgo (1654) de Fabritius é levado impulsivamente pelo garoto como uma lembrança física dos últimos momentos com sua mãe, a pintura que originalmente sobreviveu a uma explosão que vitimou seu autor se torna um amuleto redentor para o rapaz, trazendo consigo a eternidade que as obras artísticas dão a uma humanidade perecível.

 

No entanto, apesar de todo o esforço do diretor irlandês mais conhecido pelo seu último trabalho em Brooklin (2015), é perceptível, mesmo para quem não leu o original, a autossabotagem do longa em uma adaptação que pouco desenvolve os diversos temas trabalhados no livro, descrito por alguns como uma espécie de narrativa dickensiana para um O Apanhador no Campo de Centeio (de J. D. Salinger, 1951) do século XXI. O acúmulo de tragédias soa, então, manipulador e a guinada pra um thriller de ação no último ato mina de vez o melancólico filme, em um final que também é condescendente com um protagonista cuja trajetória vai de inocente vítima a um cínico culpado. Como um objeto perdido no meio do caminho, O Pintassilgo de Crowley nem de longe é um trabalho ruim; porém, com uma eloquência que encanta o público, mas não o permite se aproximar, se trata de uma obra que não deixa sua marca através do tempo como fizeram o recente pássaro da literatura e o secular das artes plásticas.

O Pintassilgo (The Goldfinch, 2019)

Duração: 149 min | Classificação: 16 anos

Direção: John Crowley

Roteiro: Peter Straughan, baseado no livro “O Pintassilgo” de Donna Tartt

Elenco: Oakes Fegley, Ansel Elgort, Nicole Kidman, Jeffrey Wright, Luke Wilson, Sarah Paulson, Aneurin Barnard, Finn Wolfhard, Ashleigh Cummings, Aimee Laurence, Willa Fitzgerald, Carly Connors, Hailey Wist, Ryan Foust, Denis O'Hare, Boyd Gaines, Luke Kleintank, Jack DiFalco, Austin Weyant, Collin Shea Schirrmacher e Robert Joy (veja + no IMDb)

Distribuição: Warner Bros. Pictures

 

 

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