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ELA DISSE, ELE DISSE | Episódios escolares

07/10/2019

 

Desde 2003, a escritora Thalita Rebouças tem se dedicado com sucesso à literatura juvenil, mas apenas há três anos, o cinema nacional começou aproveitar bem tardiamente o potencial desse material que já gerou milhões de fãs. Depois de É Fada! (2016) e os bem-sucedidos Fala Sério, Mãe! (2017) e Tudo por um Pop Star (2018), agora é a vez de uma nova adaptação de um de seus trabalhos chegar às telas no longa de Claudia Castro. Ela Disse, Ele Disse (2019) é baseado no livro homônimo de 2010, que traz o primeiro protagonista masculino da obra da autora.

 

Na realidade, Rosa é tanto protagonista quanto Leo, sendo os narradores em capítulos intercalados do romance. Algo traduzido aqui no roteiro adaptado pela própria Rebouças e Tati Ingrid Adão e na montagem, através de uma narrativa paralela que desde o início mostra como a ansiedade dos personagens interpretados por Duda Matte e Marcus Bessa é diferente para o primeiro dia de aula em um novo colégio. Lá, eles e o público são apresentados, com direito à grafismo e tudo, aos típicos arquétipos do ambiente escolar explorados em filmes adolescentes, especialmente os norte-americanos com sua high school, que são explorados superficialmente além de seus estereótipos.

 

Um deles é o da garota popular do colégio representada na fútil Júlia, com Maisa na sua primeira antagonista e novamente ostentando um sotaque carioca. Por mais que a artista faça um tipo diferente de suas personagens anteriores, seu papel sofre como o dos outros com a falta de conflito na narrativa. Isso faz com que a produção tenha um ritmo mais seriado, como se episódios de uma sitcom teen fossem aglutinados em um único longa: um inicial sobre o primeiro dia de aula, seguido pelo que acompanha a rixa dos dois novatos com os alunos mais populares da turma e um final sobre todo o caso em cima de um beijo.

 

Castro, que já foi assistente de direção em filmes como Dois Filhos de Francisco (2005) e Tim Maia (2014) e séries como Magnífica 70 (2015-18) e Ó Paí, Ó (2008-09), imprime uma dinâmica pop, além da linguagem adolescente e da internet em seu primeiro longa-metragem. A diretora até que resolve de modo eficiente a lacuna da grande passagem de tempo entre o primeiro e o segundo ato, na sequência de fotos tiradas por Rosa com seus novos colegas, e traz a quebra da quarta parede como solução narrativa para a narração dos protagonistas no livro, como algo que funciona em alguns momentos e em outros traz uma reiteração que soa repetitiva e perde o impacto da deixa anterior. De qualquer modo, é uma produção que deve atingir em cheio o seu público-alvo com o poder de identificação pelos pequenos dramas escolares, além de conquistar outros na plateia pelo simples fato de tratar um beijo, seja qual for, com a normalidade que uma demonstração de carinho deveria ter.

 

 

O olhar para dentro da adolescência

 

Foi uma longa caminhada para Ela Disse, Ele Disse chegar aos cinemas pelo que confessou sua produtora Paula Barreto aos jornalistas durante a coletiva de imprensa do filme. Sem ter muito dinheiro para comprar os direitos do livro na época, ela insistiu por acreditar no potencial da obra de Thalita Rebouças. E o resultado foi gratificante para a autora: “ficou lindo eles olhando pra câmera, quebrando a quarta parede”, elogiou a escritora que também afirmou gostar de adaptar seus trabalhos – em resposta ao NERVOS, ela confirmou que a próxima adaptação será de seu primeiro romance, Traição Entre Amigas (2000) –, neste caso atualizando para uma era com as redes sociais, diferente do material original.

 

Quem já está repetindo a dobradinha com a sensação da literatura juvenil é outra figura importante para esse público. “Estou muito feliz em estrear outro filme com a Thalita”, declarou Maisa, também reforçando que a personagem é diferente de tudo que ela já fez por ser uma antagonista, um feito também compartilhado por Matheus Lustosa, feliz em seu primeiro papel grande no cinema como o encrenqueiro Rafa. “Aprendi a diferenciar os meus valores do meu trabalho como atriz”, explica a artista conhecida por seu posicionamento sobre questões como sororidade, empoderamento e empatia, mas que está no papel de uma garota que ignora estes princípios por grande parte da trama. A jovem apresentadora ainda citou sucessos do gênero como Meninas Malvadas (2004), As Patricinhas de Beverly Hills (1995) e High School Musical, por ter crescido com essa imagem do “high school americano, que até eles saturaram”, mas reafirmando a necessidade de fazer diferente no Brasil.

 

Trocando de posição com sua colega de cena na novela Carinha de Anjo (2016-18), o jogo virou e agora é a vez de Duda Matte ser a “mocinha” infernizada pela outra. Descrevendo como incrível a experiência de trabalhar com a Sétima Arte, a intérprete de Rosa destacou o fato de dar “mais tempo de preparar o personagem” como uma das vantagens deste ramo em que se aventura pela primeira vez. “Gostei muito que a gente pode criar a cada plano”, declarou Marcus Bessa, que precisou aprender a moderar os movimentos corporais por ter vindo do teatro, para entregar as intenções através do olhar.

 

Eles não foram os únicos novatos em um set cinematográfico dentro do elenco que também conta com a apresentadora Fernanda Gentil e a influenciadora digital Bianca Andrade, mais conhecida como Boca Rosa. “Tô aqui pela amizade com Thalita”, brincou a primeira, dizendo que sua vivência como mãe, mesmo sendo de meninos, trouxe esta essência para o papel da figura materna da protagonista, enquanto aprendeu muito sobre os termos característicos do cinema, a exemplo de “filmar” em vez do “gravar” típico da linguagem televisiva. “Sou fã dessa mulher [Rebouças] desde pequeninha”, confessou a segunda, explicando que estudou teatro, mas o fato da história falar de internet a instigou a participar da produção na pele da querida professora Fátima.

 

E se foi um desafio para a produção os dois meses de preparação e agendar as filmagens durante as férias escolares, o clima foi de descontração no set, segundo os relatos da equipe. Tanto que, quando perguntadas sobre o fato dos seios de Júlia serem exaltados pelo texto e pela câmera, a diretora e a atriz afirmam que isso não foi um problema. “Em nenhum momento a gente tem apelo sexual, nem a própria Júlia se importa com isso”, defendeu Castro, enquanto Maisa falou que esta foi uma questão que ela sofreu muito na vida, pois demorou para desenvolver o seu corpo frente a outras garotas da sua idade, e que “colocar a confiança na personagem”, lhe ajudou a dar autoconfiança. Para Paula, este é um problema que aflige tanto quem tem seios fartos ou não e o filme mostra como “a adaptação é mais difícil para as meninas do que para os meninos” em um novo ambiente.

 

Questionada sobre a “corrente do beijo” da narrativa, Rebouças confirmou que existe já um beijo gay no livro e que o fato da ideia permanecer no longa veio em um “momento propício”. Segundo Claudia, foi uma opção e a produção acabou saindo agora, mas que ela não é sobre os beijos, já que eles são “resultado dos sentimentos” dos personagens. E a coletiva que tomou rumos e discussões mais sérias do que imaginadas para um simples filme adolescente se encerrou com um discurso emocionado de Paula Barreto sobre o cenário da política cultural no Brasil, desde as leis de incentivo criadas durante os mandatos de Fernando Henrique Cardoso, passando pelos anos do PT – que ela não considera tão bons –, até os conturbados tempos atuais, defendendo a necessidade de qualquer governo brasileiro “entender que o povo precisa de cultura, para olhar dentro de si” e que o cinema tem “o poder de mudar o dia de uma pessoa” e também disseminar a sua cultura bem como os norte-americanos fizeram através de Hollywood.

Ela Disse, Ele Disse (2019)

Duração: 78 min | Classificação: 12 anos

Direção: Claudia Castro

Roteiro: Thalita Rebouças e Tati Ingrid Adão

Elenco: Duda Matte, Marcus Bessa, Maisa Silva, Giulia Ayumi, Cecília Warpe, Matheus Lustosa, Pedro David, Rodrigo Tavares, Daniel Pim, JP Rufino, Maju Lima, Bianca Andrade, Maria Clara Gueiros, Fernanda Gentil, Ângelo Paes Leme e Aramis Trindade (veja + no IMDb)

Distribuição: Imagem Filmes

 

 

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