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EXPOCINE 2019 | Dia 2 – Diversidade para um cinema mais eficiente

03/10/2019

 

O segundo dia da Expocine19 foi cheio, sendo marcado pela abertura de sua feira com expositores que fornecem as mais variadas soluções para o mercado exibidor – mais detalhes aqui – e a realização dos painéis das distribuidoras Universal, Imagem, que contou com a presença dos atores Rodrigo Lombardi e Kaysar Dadour para a divulgação de Carcereiros – O Filme (2019), e da Paramount, que exibiu Projeto Gemini (2019) – nenhuma das apresentações foi aberta à imprensa. Além disso, a programação contou com uma série de mesas de discussão que foram do cinema VR e XR à integração dos elos da cadeia produtiva, com destaque para os debates comandados por nomes femininos da indústria que o NERVOS conferiu nesta quarta (2): “Marketing integrado nas três pontas” e “Mulheres de sucesso”.

 

 

Uma mão lava a outra

 

Mostrar a eficiência que a relação próxima entre os três eixos da indústria cinematográfica na divulgação de um filme pode ter igualmente para a produção, distribuição e exibição foi o intuito da mesa “Marketing integrado nas três pontas”, que contou com a presença das chefes na função de um trio de grandes empresas de cada um desses setores: Dannielle Alarcón, diretora de marketing da produtora Gullane Filmes; Vitoria Durazzo, da distribuidora Paris Filmes; e Patricia Cotta, da rede exibidora Kinoplex.

 

Mediado por Fernando Lauterjung, do site Tela Viva, o debate abriu com a palavra de quem está no início da cadeia de produção. “É um desafio na cauda longa”, confessou Alarcón, já que o contato entre distribuidores e exibidores é mais direto, mas um olhar para as possibilidades de material desde o desenvolvimento pode ser muito benéfico. “A gente tem a filmagem, o elenco, o cenário”, destacou a profissional da Gullane que faz questão de que seja reservada uma diária promocional dentro das filmagens das produções da empresa, a fim de garantir material para as campanhas futuros, a exemplo do case de sucesso de Bingo: O Rei das Manhãs (2017), com o vídeo para os canais digital se aproveitando da quase escalação de Wagner Moura para o papel principal que ficou com Vladimir Brichta, que teve uma resposta orgânica três vezes maior do que o normal.

 

Durazzo ressaltou a importância desse material bem como do acompanhamento do projeto por parte das distribuidoras. “Quando tem o primeiro corte, já fazemos uma pesquisa, vemos qual será o público, as cenas que podem ser trabalhadas na divulgação”, detalhou a diretora de marketing da Paris que deu um exemplo pontual sobre os resultados destas avaliações com o projeto antes chamado de “Festa da Firma”, mas tendo um termo muito paulista como “firma”, teve o título alterado para Tudo Acaba em Festa (2018).

 

As pesquisas, ainda mais rápidas e precisas com a tecnologia digital, também foram frisadas por Cotta. “Há um sigilo de dados dos nossos clientes, mas podemos fazer ações de análise a partir dessa base e traçar um perfil que pode ajudar”, explicou a diretora do setor no Kinoplex, que afirmou já ter ajudado distribuidores para definir um cartaz com isso, por exemplo. “Essa relação é vital”, defende a manager do marketing da rede para que se “crie conteúdos que façam sentido para cada exibidor”, sendo que a três mãos, esse conteúdo fica muito mais rico.

 

Foram apresentados, então, alguns cases das empresas, como o citado sobre o Bingo, com Dannielle também lembrando de outro material realizado pela produtora que exemplifica o tema da conversa: uma vinheta de segurança para outra rede de cinemas que foi estrelada pelo personagem do filme. Vitoria trouxe um vídeo com Leandro Hassum para promover a sequência Até que a Sorte nos Separe 3: A Falência Final (2015) nas telonas, em um caso perfeito de comunicação integrada entre a Paris com a Gullane e o Kinoplex, e outro que mostrou a ação da distribuidora com a ONG Ampara Animal nas unidades do exibidor durante o lançamento de Turma da Mônica: Laços (2019). Ela também comentou sobre a turnê com o youtuber Christian Figueiredo para a promoção do filme Eu Fico Loko (2017) para afirmar que “a maior força é o elenco” no que diz respeito ao marketing; uma ideia reforçada por Patricia, que acredita que a internet e as redes sociais são um facilitador, pois o material gravado pelos atores com o próprio celular tem uma grande eficiência com o público, especialmente jovem.

 

 

O sucesso das mulheres

 

 

Na sequência, o Auditório Spcine 1 continuou tomado pelas mulheres no palco com a mesa organizada pela gestora Debora Ivanov, homenageada no primeiro dia da Expocine19 no fim do seu mandato na Ancine, e Barbara Sturm, diretora de conteúdo da distribuidora Elo Company, contando com a presença física da cineasta Julia Rezende e da produtora Klara Castanho, e virtual da diretora Susana Garcia, que juntas foram responsáveis por um total de 18 milhões de ingressos nos cinemas com filmes nacionais.

 

O painel “Mulheres de Sucesso” começou com as mediadoras apresentando números sobre a presença feminina na indústria cinematográfica no Brasil e no mundo. Ivanov trouxe dados da Ancine de 2018, que contabilizam que, das 2.636 obras audiovisuais – videoclipes e realitys shows são contabilizados também, por exemplo – registradas no órgão durante o ano passado, 20% tinham uma mulher na direção; 25%, no roteiro; 41%, na produção executiva; 12%, na direção de fotografia. Contando os longas, a marca é de apenas 19% mulheres na direção contra 33% nos curtas-metragens, provando a tendência de que as profissionais conseguem mais espaço de trabalho nas produções de menor custo.

 

Com os dados internacionais em mãos, Sturm declarou que apenas 4% dos filmes produzidos no ano anterior eram dirigidos por uma mulher; 70% dos personagens, no total de todos eles, eram homens; e em 88% deles, não havia nenhuma mulher no set. Falando também do único Oscar entregue para uma diretora, no caso, para Kathryn Bigelow por Guerra ao Terror (2008), a idealizadora do selo Elas destacou os feitos de cada uma das convidadas: Castanho, responsável pela maior bilheteria nacional do ano, até então, o live action Turma da Mônica: Laços; Rezende, que já arrecadou 8 milhões de ingressos ao longo de sua jovem carreira, iniciada no cinema com o sucesso Meu Passado Me Condena (2013) e seguiu até o recente De Pernas Pro Ar 3 (2019); e Garcia, que atraiu 5,3 milhões de espectadores já no seu primeiro longa. As mediadoras adotaram como dinâmica as rodadas de perguntas gerais para o trio de convidadas, com cada uma falando sobre a questão até o próximo tópico.

 

Respondendo através de vídeos enviados de Los Angeles, onde ela está rodando Minha Mãe É uma Peça 3 (2019), Susana iniciou comentando que a sua entrada no mundo do cinema se deu através do teatro e depois foi para o audiovisual, que é “um quebra-cabeça infinito”, já que você precisa sair do zero, diferente da experiência prévia dela com medicina. Julia, no entanto, cresceu no set, tendo um pai diretor – Sérgio Rezende – e mãe produtora – Mariza Leão –, e começou a realizar seus curtas coletivos com 16, 17 anos, e seguiu fazendo o curso de roteiro na Escola de Cinema Darcy Ribeiro, no Rio de Janeiro. Dirigiu algumas séries no Multishow, como Meu Passado me Condena (2012-14), gravada na casa da família em Itaipava, que deu origem ao filme homônimo de 2013, em que arrecadou 3,2 milhões em seu longa de estreia.

 

Karen teve uma trajetória bem diferente ao vir do mercado financeiro, onde trabalhou por 15 anos. Já cansada da frieza do setor e em contato com os fundos de cinema como o Funcine, a profissional dos números quis exercer seu lado criativo e fundou a produtora Biônica, ao lado de Bianca Villar e Fernando Fraiha, em 2012. “A capacidade de se conectar com as pessoas”, é o que a encanta em um projeto, valendo muito a maneira como a história é contada. “Tem o entretenimento, mas o que importa é o quanto ele mudou em mim, ecoou em mim por dias”, explicou Castanho.

 

Para Garcia, é a história que a move e, já que ela vai abrir mão de sua vida, do tempo com a família e tudo mais, sua pergunta é se “vale a pena?”. "Às vezes, o roteiro nem está tão bom, mas tem um potencial ali”, disse a diretora, detalhando seu método de escolha, enquanto Rezende se pauta por projetos que conversem com questões dentro dela, que “precisava dividir com as pessoas”. A cineasta também afirmou que se envolve, mesmo com as produções que não nasceram de um roteiro dela, e que o fato dela fazer tantas comédias não significa que ela sempre fará algo do gênero.

 

Quanto às dificuldades enfrentadas por ser mulher, Susana confessou que, antes, “achava que tinha que ter uma resposta para tudo”, mas não sendo o tipo de pessoa que chega com o “pé na porta”, ela entendeu que não precisa se cobrar assim. A diretora acredita que a relação humana que transparece no filme começa no set e passou a adotar a mesmo relacionamento de respeito que observava em uma clínica que trabalhou. Ainda sim, a realizadora se sente mais respeitada do que no início de sua carreira.

 

Julia afirmou que não sente nenhuma dificuldade com a liderança no set, por trabalhar quase com a mesma equipe sempre, tanto que a considera como uma “companhia de cinema”, aos moldes teatrais. Mesmo assim, ela se sentiu incomodada com a posição apontada pelo título da mesa, por esta resistência tão arraigada em ver uma mulher tendo sucesso. A cineasta confessou que chegou a mentir que não tinha participação na bilheteria de seus bem-sucedidos filmes, algo que não passaria pela cabeça dos homens. Para a diretora, parafraseando Anna Muylaert quando impressionada pelo fenômeno de Que Horas Ela Volta? (2015), há quase uma espécie de vergonha por estar aonde tantas ainda não chegaram, algo que tem muito a ver com as estâncias de poder e suas necessárias mudanças.

 

Já Karen declarou que o período dela no mercado financeiro foi muito difícil, por liderar uma equipe de cerca de 30 homens mais velhos que se sentiam incomodados por isso. A princípio, ela adotou uma postura mais rígida, quase masculina, como proteção contra assédio, até entender que a empresa precisa de seu olhar feminino para solucionar os problemas de relacionamento entre os funcionários. Segundo a produtora, ela foi bem acolhida ao entrar no cinema, tendo como maior dificuldade mesmo o fato de ter vindo de outra área.

 

A diversidade perpassa toda a equipe e resulta na tela, acreditam as três. “Não dá para ter uma sala de roteiristas brancos da Zona Sul”, brincou Garcia, para quem uma equipe diversa é fundamental, e que ressaltou a grande presença feminina na técnica da quarta temporada de Os Homens São de Marte e É pra lá que Eu Vou (2015-). Segundo Rezende, o set já é muito acolhedor, sendo necessária a mudança nas estâncias de poder como distribuidoras, curadorias e roteiro, além de sair da própria bolha, já que a discussão era com “cinco mulheres brancas provavelmente da mesma classe e origem”. “Quanto mais o outro puder nos provocar, melhor”, pensa Castanho que contou o caso de uma filmagem em um barco da Marinha do Brasil, às vésperas da última eleição, que foi uma grande experiência de vida e empatia que mudou a percepção e os medos que eles tinham dos militares e vice-versa sobre os profissionais de cinema.

 

De qualquer modo, um avanço foi observado desde já por Barbara Sturm que agradeceu por ver, pela primeira vez, uma plateia mista, com homens interessados em ouvir sobre o tema também.

Expocine19

Datas: 01 a 04 de outubro de 2019

Endereço: Centro de Convenções Frei Caneca (São Paulo-SP)

Vagas restantes de credenciamento disponíveis no local

 

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