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O CLUBE DOS CANIBAIS | Canibalismo selvagem

03/10/2019

 

Otávio, um homem de negócios da elite cearense, avisa ao humilde caseiro que viajará a trabalho. Diz que o “funcionário” ficará sozinho com sua esposa, por tanto deve cuidar dela e proteger a luxuosa casa do rico casal. O “...só eu e ela?” hesitante do caseiro nos insinua o que acontecerá em seguida, e logo estamos vendo o trabalhador na cama com Gilda, esposa de Otávio. No meio do explícito ato carnal, é revelado que alguém os observa por uma fresta e se masturba. É Otávio. Quando o caseiro está prestes à atingir o clímax, enquanto ainda digerimos o fetiche de seu chefe, um machado acerta sua cabeça. O caseiro cai no chão, Gilda se delicia com o sangue do qual é banhada e as gotas vermelhas no chão se misturam com o esbranquiçado do gozo de Otávio, que também atingiu o orgasmo. Marido e mulher descem ensanguentados – em nus frontais – pelas escadas e queimam os restos do caseiro, mas antes retiram os pedaços essenciais para a janta, extraídos diretamente de sua presa.

 

Em O Clube dos Canibais (2018), filme do diretor e também experiente montador Guto Parente, de Estrada para Ythaca (2010) e Inferninho (2018), os ricos literalmente comem os pobres e o casal principal, vivido por Tavinho Teixeira e Ana Luiza Rios, faz parte dessa seita de seletos membros. Na verdade, apenas Otávio faz parte do tal grupo composto inteiramente por homens, porque as hierarquias vistas aqui não se restringem apenas às sociais. E o descontentamento de Gilda por ficar de fora desse “Clube do Bolinha” são devidamente expressadas durante a janta, comicamente natural após o terrível ato que ambos cometeram.

 

Exibido no Festival de Roterdã do ano passado, O Clube dos Canibais certamente despertará desapontamento naqueles que procuram, erroneamente, um aprofundamento nas questões políticas e sociais da superfície que o filme toca. Provavelmente esboçarão, também, um descontentamento com as curtas uma hora e vinte de duração, como se o mesmo não aproveitasse as possibilidades do enredo, talvez ressaltando uma unidimensionalidade de seus personagens e as situações contidas aqui. Seria, no entanto, um desserviço à obra. Mais do que um eficaz longa de horror, o que temos aqui é realmente uma afiada comédia satírica composta por arquétipos e caricaturas que só se beneficiam das situações absurdas vistas no filme. E se pretendesse se levar à serio, a alegoria – que não poderia ser mais clara – dos ricos que devoram os pobres seria um tanto quanto aborrecida; do raso, atinge-se a autenticidade, não muito diferente do mundo real do qual a história inclusive se inspira levemente com um casal brasileiro que, como Otávio e Gilda, escolhiam a dedo suas presas e as devoravam, entre 1864 e 1865 em Porto Alegre, no que ficou conhecido como Crimes da Rua do Arvoredo.

 

O que temos, então, é um texto cômico, proferido de forma igualmente consciente por seu elenco, operando sempre um tom acima, caricatural. Clichés entram e saem de cena, como na festa onde os integrantes soltam clássicos como “na Europa não é assim”. As relações de poder são claramente definidas. Pobre ou não, Gilda ainda é mulher, portanto tratada como uma criança que deve ser controlada. Otávio é apenas o costumeiro puxa-saco do chefe, Borges, líder do clube do título. Interpretado por Pedro Domingues, Borges é uma das melhores figuras do longa, agindo como o estereotípico pai de família que preza pelos valores e bons costumes da família brasileira – e o afetado discurso que dá em momento-chave é praticamente um “melhores momentos” dos discursos de nosso atual presidente. Parente diverte-se com seu roteiro, envolvendo Borges em uma virada de trama especifica que utiliza a homossexualidade reprimida do mesmo numa situação absurda e apenas mais cômica em seu sentido literal e figurado.

 

As experiências prévias do diretor com edição apenas beneficiam o filme, que desta vez é montado pelos colegas Luiz e Ricardo Pretti, nunca se estendendo desnecessariamente. Aliados a uma direção de fotografia de planos criativos de Lucas Barbi, o diretor se diverte na forma como constrói suas cenas, como o plano aberto que revela que a mesa na qual o casal jantava – até então ocultada por planos mais fechados – é enorme, ressaltando a enorme distância dos dois no quadro.

 

O que sela as influências e eficácia do filme, que parecia caminhar para um final menos tresloucado, são suas resoluções irônicas – simplistas, até – que recaem sobre erros estúpidos, improváveis e convenientes de seus personagens e se encaixam perfeitamente na narrativa farsesca vista aqui, funcionando quase como uma comédia de erros. Exala uma “sem vergonhice” que traz à mente a revista Chiclete com Banana, praticamente um patrimônio cultural brasileiro ao revelar grandes quadrinistas do país com o seu humor anárquico nos anos 80. À parte do refinamento estético mais apurado, a produção facilmente seria vista como um “filmeco” exibido em plena Boca do Lixo, naquela mesma década. De duração exata, O Clube dos Canibais é curto, ácido e sacana, sendo um filme sujo e barato, mas nunca pobre.

O Clube dos Canibais (2018)

Duração: 81 min | Classificação: 18 anos

Direção: Guto Parente

Roteiro: Guto Parente

Elenco: Tavinho Teixeira, Ana Luiza Rios, Pedro Domingues, Zé Maria, Bruno Prata, Galba Nogueira, LC Galetto e Fátima Muniz (veja + no IMDb)

Distribuição: Olhar Distribuição

 

 

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