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DAFNE | Apenas um detalhe

19/09/2019

 

Uma filha (Carolina Raspanti) e seu pai (Antonio Piovanelli) tentam lidar, cada um a sua maneira, com a morte repentina de sua mãe / esposa (Stefania Casini). Esta é a história de Dafne (2019) e o fato da personagem-título ter Síndrome de Down é apenas uma condição dela que não determina a sua trajetória no segundo longa ficcional de Federico Bondi. Trata-se, portanto, de uma rica camada que o filme italiano explora sutilmente, sem torna-la o centro do seu drama ou de seus momentos cômicos.

 

A obra que estreou na Mostra Panorama do último Festival de Berlim, ganhando o prêmio Fipresci, dado pela crítica internacional, é mais sobre o luto do que sobre a luta por direitos e espaço às pessoas com a síndrome gerada pelo cromossomo 21 a mais. Em vez de uma produção panfletária, que poderia cair igualmente na indulgência ou na estigmatização, Bondi escolhe sabiamente o caminho da naturalização do cotidiano da protagonista, seja mostrando sua inteligência e gana pelo trabalho ou seus sentimentos conflituosos após a partida materna e a fragilização de sua figura paterna, capaz de gerar empatia pelos sentimentos e problemas comuns, a fim de conscientizar seu público. Somente lá na frente, uma conversa confessional revela as dúvidas e o preconceito inicial de Luigi quando a filha nasceu, bem como a sua mudança de pensamento dias depois, mas, ainda assim, a temática não sobrepõe a dramaturgia proposta.

 

A interpretação da estreante Carolina Raspanti é fundamental, neste sentido, para o espectador reconhecer uma personagem multifacetada em Dafne. Em seus trinta anos, esta mulher extremamente comprometida com seu trabalho em um supermercado exala sinceridade em suas colocações e desinibição, por exemplo, ao flertar com os guardas. No entanto, também sofre de maneira resoluta pelas transformações no seu ambiente familiar que a colocam em cheque entre sua independência pessoal e a necessidade de cuidar do pai.

 

Acompanhando como o luto pode decorrer em tempos e formas diversas para cada um, o filme põe, de um lado, o sofrimento e choro instantâneos de Dafne, enquanto sente a necessidade em seguir com a vida para ultrapassar esse momento; e do outro, a resignação de Luigi, indo do espanto à apatia que transformam a sua dor em depressão. Aliás, por mais que evite mostrar ou falar como Maria morreu no final do feriado em família, a fala da filha de que os remédios para a “fazer parar de chorar” deveriam ter sido dados à sua mãe levantam a dúvida se aquela mulher não estaria também passando por um quadro depressivo e tomado medidas drásticas no fim da viagem. No entanto, o longa não se prende a essas suposições sobre as causas de sua morte, pois seu interesse é único nas suas consequências para aqueles que ficaram.

 

Assim, pai e filha se lançam, depois, em uma longa caminhada para a casa onde Maria cresceu e foi sepultada, à medida que a obra parte para esse caminho alegórico da jornada de autoconhecimento de um road movie, na busca de ambos por reestruturar essa relação partida. O diretor de Mar Nero (2008) mantém o naturalismo estético emulado pela câmera na mão, mas imprime uma passividade maior ao ritmo de sua narrativa e uma abordagem bem mais hermética a partir daí, em contraste com uma protagonista tão efusiva quanto o vermelho em seus cabelos. É uma escolha ousada, que nem sempre se traduz eficientemente ao público nessa transição entre essas duas partes bem distintas, no entanto, muito condizente ao filme presente na 8 ½ Festa do Cinema Italiano 2019, como representação desses compassos diferentes de uma mesma história, seja na reação desigual dos dois familiares em relação à perda ou no conflito desses personagens entre a rotina do mundo externo e a peregrinação sentimental interna como formas de processar a dor.

Dafne (Dafne, 2019)

Duração: 94 min | Classificação: 10 anos

Direção: Federico Bondi

Roteiro: Federico Bondi

Elenco: Carolina Raspanti, Antonio Piovanelli e Stefania Casini (veja + no IMDb)

Distribuição: Pagu Pictures

 

 

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