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YESTERDAY | Carregando esse peso

02/09/2019

 

Quando John Lennon nos convidou a imaginar um novo mundo, com certeza, não era um sem a existência dos Beatles. Mas é exatamente esta a proposta de Yesterday (2019), o aguardado projeto do diretor Danny Boyle e do roteirista Richard Curtis que imagina uma realidade onde ninguém mais conhece as canções do quarteto de Liverpool a não ser o protagonista, porque a banda nem teria sido formada. A premissa é ótima e o filme é cativante, embora reste certa dose de frustração pelo potencial não aproveitado por nomes deste quilate.

 

O início é bem promissor ao acompanhar as transformações na vida de Jack Malik (Himesh Patel, vindo da novela britânica EastEnders e estreando bem em longas), um rapaz da litorânea Lowestoft, em Suffolk, que trabalha em um supermercado de dia e tenta emplacar sua carreira musical à noite e nas folgas, com a ajuda da inseparável amiga e empresária Ellie (Lily James). No entanto, ele chega ao limite, se cansando do status de “cantor de churrascaria”, ao se apresentar para plateias mínimas e desatentas em pubs e outros eventos. O compositor está prestes a largar o seu sonho e focar apenas na carreira de professor até que se acidenta bem no momento de um apagão mundial, em que o roteiro recapitula o medo do fim da década de 1990 com a possibilidade de um bug do milênio durante a virada para os anos 2000 como justificativa para esse apagamento histórico de The Beatles e outras coisas mais. Depois da confusão inicial, o fato de ser, aparentemente, o único a se lembrar da banda, faz o músico se lançar na tarefa de recordar ao máximo o repertório de Paul, John, George e Ringo para buscar o reconhecimento artístico que sempre desejou.

 

Sem necessidade de alcançar este patamar que já ocupam, a dupla criativa do longa toca abaixo do rendimento costumeiro. Embora a montagem frenética permaneça, Boyle está mais acanhado do que o habitual em sua decupagem, com alguns vislumbres espaçados de autoralidade mais marcante, como nas tentativas de relembrar a intricada letra de Eleanor Rigby. Mas estes pontos, a exemplo do plano holandês na chegada do protagonista ao festival, soam como notas destoantes em relação à direção contida durante toda a produção.

 

Curtis tem ótimas sacadas, seja na piada sobre o Oasis ou nos diversos comentários irônicos acerca da indústria fonográfica atual – neste sentido, há de se louvar a atitude do cantor Ed Sheeran, que interpreta a si mesmo e se presta a estar exposto ao humor autodepreciativo do texto, mesmo que o filme o coloque em um pedestal que ele ainda não alcançou dentro do showbusiness como compositor, e sim como um superstar do momento. Contudo, este olhar imaginativo e analítico de como seria a recepção no século XXI a essas composições essenciais para a história da música, que torna a primeira metade de Yesterday tão interessante e divertida, se dilui quando o roteirista deixa de investir no exercício e prioriza a comédia romântica, sem empregar a potência de seus melhores trabalhos dentro do gênero, os sucessos Quatro Casamentos e Um Funeral (1994), Um Lugar Chamado Notting Hill (1999) e Simplesmente Amor (2003) ou o recente Questão de Tempo (2013). Graças ao talento e potencial de estrela de Lily James, que sustenta uma personagem que não se desenvolve além do protagonista, é possível se envolver com o casal, assim como Kate McKinnon é certeira no pouco que lhe é dado para construir a ávida empresária Debra.

 

Por isso, o musical Across the Universe (2007) vem logo à mente, por fazer mais jus à obra dos Beatles, mesmo sem citá-los, ao utilizar todo o potencial das canções deles em uma leitura sociopolítica da década de 1960. Aqui, Curtis deixa escapar diversas oportunidades no aproveitamento desse vasto repertório: se Help cabe perfeitamente ao momento de exasperação de Jack, músicas como You're Going To Lose That Girl, por exemplo, se encaixariam perfeitamente no transcorrer da trama romântica, mas nada é usado neste sentido. Da mesma maneira, Boyle acerta no ápice da sua estilização com a sequência da boa versão de I Want To Hold Your Hand, porém, desperdiça o momento importante em que Carry the Weight é introduzida na narrativa, com uma montagem impessoal acerca do sucesso fenomenal do rapaz, que acaba esfriando a construção da história de ascensão repentina dele e evitando explorar esta seara que, o beatlemaníaco por associação, The Wonders – O Sonho Não Acabou (1996) se dedica com mais atenção.

 

Há uma homenagem perto do final que deve sensibilizar os fãs, entretanto, o que toca mais profundamente é o prazer de ouvir canções como se fosse a primeira vez pelos ouvidos dos personagens que as esqueceram, a exemplo da própria Yesterday. Portanto, é interessante o fato de que Malik não é apresentado necessariamente como um grande fã de Beatles no início: ele cita The Long and Winding Road antes do apagão e faz menções a não tão conhecida When I'm Sixty-Four enquanto ainda não entende o que aconteceu. Contudo, afastando os questionamentos éticos, há um entendimento comum dele, como um músico, ou simplesmente um amante desta arte, e do filme de quão horrível seria o mundo perder uma obra tão importante e significativa na vida das pessoas, em um eco bem tímido à comunidade de “homens-livros” de Fahrenheit 451 (1953), clássica distopia de Ray Bradbury, sobre a necessidade de se resguardar na memória coletiva a nossa cultura, especialmente em tempos que a tornam descartável ou demonizada.

 

P.S.: pontos ao filme por ressaltar que Common People do Pulp é realmente um clássico subestimado

Yesterday (Yesterday, 2019)

Duração: 116 min | Classificação: 12 anos

Direção: Danny Boyle

Roteiro: Richard Curtis, com argumento de Richard Curtis e Jack Barth

Elenco: Himesh Patel, Lily James, Kate McKinnon, Ed Sheeran, Joel Fry, Alexander Arnold, Meera Syal, Sanjeev Bhaskar, Sophia Di Martino, Ellise Chappell, Harry Michell, Vincent Franklin, James Corden, Michael Kiwanuka e Karma Sood (veja + no IMDb)

Distribuição: Universal Pictures

 

 

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