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BACURAU | Antropofagia cinematográfica

29/08/2019

 

De tempos em tempos, surgem aqueles filmes cuja categorização em três gêneros, que seja, ainda é impossível. Bacurau (2019), o novo longa de Kleber Mendonça Filho, agora dividindo a direção com Juliano Dornelles, tem tanto a fantasia, o terror e o gore com que eles já trabalharam em algum momento de suas filmografias, como também muito do faroeste, da ficção científica, de ação e do thriller na história sobre um fictício – ou simplesmente a representação de tantos outros reais no Brasil profundo – povoado em Pernambuco de mesmo nome, que some do mapa, enquanto mortes misteriosas começam a acontecer no local. Embora essa, no mínimo, curiosa fusão da obra que recebeu o Prêmio do Júri no último Festival de Cannes – dividido com o francês Les Misérables (2019), de Ladj Ly – esteja impregnada de cinemas de gênero comumente associados à produção norte-americana de Hollywood e alguns títulos europeus, o sertão permanece aqui em destaque, não somente como um cenário, mas tema e parte inerente da cinematografia brasileira.

 

Se o primeiro longa ficcional de Kleber, O Som ao Redor (2012), surge como expoente de um movimento do novo cinema pernambucano que exterioriza suas preocupações com as transformações e dinâmicas físicas e sociais no espaço urbano, uma angústia igualmente vista em diversos filmes de outras regiões do país durante esta década, este recente trabalho dele e de seu parceiro Juliano volta o seu olhar para a tradição anterior da produção regional e, por extensão, nacional. O sertão foi um dos principais caminhos na busca por uma linguagem própria na Sétima Arte durante o Cinema Novo nos anos 1960 e 70, bem como, desde meados da década de 1990, se tornou uma saída bem recebida tanto pelo público quanto pela crítica para a Retomada da indústria audiovisual brasileira, composta de vários ciclos intermitentes. E justamente neste momento de crise em que ela encontra simultaneamente a sua fase mais prolífica e a ameaça de uma nova interrupção, Bacurau surge, por acaso – já que o projeto vem sendo desenvolvido há 10 anos –, para relembrar as suas raízes.

 

Mais do que elencar referências literais de títulos nacionais e internacionais presentes no longa, convém observar os elementos que estabelecem uma conversa com outras obras, especialmente por este viés hereditário, a exemplo da memória do cangaço no Museu de Bacurau, que leva o público a rememorar a sua representação nas telas no clássico de Glauber Rocha, Deus e o Diabo na Terra do Sol (1963), ou em Baile Perfumado (1997), de Lírio Ferreira e Paulo Caldas, por exemplo. E se mesmo nas visões romantizadas e cômicas do sertão por Guel Arraes, como a de O Auto da Compadecida (2000), a violência se estabelece como um elemento intrínseco desta terra seca, essa herança de sangue na região surge desde o princípio aqui, com os caixões na estrada ao lado do caminhão-pipa que carrega o ouro deste Velho Oeste a Nordeste do Brasil, que é a água. Assim, neste caminho antes percorrido pelo cinema brasileiro por ali, há tanto este histórico de assassinatos visto em Abril Despedaçado (2001), do mesmo Walter Salles que usa a paisagem como cenário do emblemático Central do Brasil (1998), quanto a escassez que leva à miséria humana de Vidas Secas (1963), de Nelson Pereira dos Santos, e os sonhos dos migrantes em O Caminho das Nuvens (2003), de Vicente Amorim.

 

No entanto, o filme de Dornelles e Mendonça é “filho” mais direto dos Áridos Movies de meados dos anos 2000, um subgênero cunhado pelo cineasta Amin Steplle, no qual se encontram Cinema, Aspirinas e Urubus (2005), de Marcelo Gomes; Deserto Feliz (2007), de Paulo Caldas; Viajo Porque Preciso, Volto Porque te Amo (2009), de Gomes e Karim Aïnouz; e o próprio Árido Movie (2006), de Ferreira. Há neles uma atualização do olhar neste encontro do Brasil sertanejo arcaico com as novidades do mundo de fora, intensificadas agora pela dupla no uso marcante de uma tecnologia que, no senso comum, está associada apenas ao ambiente urbano. Ela surge nos regionalismos como o do paredão, carro de som aparelhado típico do Norte e Nordeste, no cotidiano com o tablet e no extraordinário com os drones assinalando também o uso da ficção científica.

 

Os diretores e roteiristas estão dispostos aqui a ampliar este encontro para além do Brasil e de um contexto social, debatendo os conflitos do próprio cinema no país, entre essa herança relegada por muitos e a inescapável referência de excelência e/ou sucesso que vem do exterior. Tal qual à imagem de resistência apregoada ao filme depois de suas primeiras exibições no território nacional, abrindo o Festival de Gramado e nas pré-estreias das últimas semanas, este debate que não é novo nas telas, mas, na comicidade de Lisbela e o Prisioneiro (2003), de Arraes, e Cine Holliúdy (2013), de Halder Gomes, ele não ganhou a mesma relevância que a antropofagia cinematográfica proposta por Bacurau, seja pela reverência ao trabalho de Kleber ou pelo clima atual que exacerba suas leituras. Tentar defini-la como a “primeira de sua espécie”, é negar todo o esforço da obra e de seus realizadores em resgatar essa memória de lutas pré-existentes, de diversas maneiras, em todos os títulos citados e muitos outros esquecidos por este texto, através de uma história que fala precisamente do apagamento físico e real para alertar sobre o desaparecimento identitário, histórico e cultural.

 

A dupla vem em uma busca pela identidade brasileira semelhante ao dos modernistas paulistas da década de 1920, na antropofagia do poeta Oswald de Andrade e da pintora Tarsila do Amaral: ou seja, não se trata de uma negação da influência externa, inerente a partir do momento que a arte internacional é aquela a qual, geralmente, mais se consome no país, mas a sua ressignificação para o nosso contexto que gera um discurso não aversivo, mas reativo ao imperialismo cultural. Ao beber diretamente da fonte dos faroestes spaghettis italianos, reside esta forma de apropriação de um gênero tipicamente norte-americano, subvertendo-o ainda mais com o enfrentamento das vítimas aos invasores, mas defendendo que este cinema de gênero pode e está sendo feito no Brasil. Por isso, quando o germano-americano Michael, interpretado por Udo Kier, recomenda a um compatriota a “não irritar alguém com clichês baratos”, enquanto o próprio filme se utiliza exatamente de estereótipos dos “personagens yankees”, a escolha funciona muito mais nesta leitura cinematográfica de inversão realizada por aqueles que são constantemente estereotipados em Hollywood, do que na alegoria social que se mostra simplificadora neste e em outros momentos.

 

Por isso, a trilha sonora, que sempre foi um elemento essencial no trabalho audiovisual de Mendonça, congrega tanto a referência a John Carpenter quanto a deglutição do pop internacional e efervescência cultural sessentista realizada com tempero brasileiro pelo tropicalismo de Gal Costa e Caetano Veloso, respectivamente na interpretação e composição de Não Identificado, que abre este longa e encerrava o de Walter Lima Jr., Brasil Ano 2000 (1969). Na seleção, também há duas escolhas significativas, sendo uma a de Sérgio Ricardo, músico cuja obra está ligada a Deus e o Diabo na Terra do Sol, com Bicho da Noite, que cita o pássaro Bacurau e carrega todo o misticismo sertanejo. A outra é de Geraldo Vandré que, com a execução de Réquiem para Matraga em duas ocasiões, resgata não só a força das canções de protesto do artista, mas o protagonista do conto mais famoso de Guimarães Rosa em Sagarana (1946), Augusto Matraga em seu constante conflito interno entre o bem e o mal, pelo qual também passam os personagens do povoado, como Pacote (Thomás Aquino) e Lunga (Silvero Pereira).

 

Na coletiva de imprensa da produção em São Paulo, na terça retrasada (20), Kleber afirmou que o seu interesse reside justamente nestes conflitos, algo perceptível para qualquer um que tenha assistido, ao menos, seu longa anterior Aquarius (2016), com o seu embate entre o velho e o novo, centralizado em Clara, protagonista vivida por Sonia Braga, que agora volta a trabalhar com a dupla em um tipo bem diferente no papel da médica Domingas. Esses enfrentamentos sempre fizeram parte da sua investigação sobre as classes sociais e seus medos no cinema de temor do diretor, que relembra no trabalho precedente que este tipo de narrativa está presente desde os contos de fadas. No entanto, a parceria com o diretor de arte e produtor de seus projetos pregressos, faz o cineasta sair desse flerte para mergulhar de vez no cinema de gênero, um traço autoral de Juliano evidente já no seu único curta Mens Sana in Corpore Sano (2011) e que transparece nesta ideia original dele.

 

Assumindo sua cara de filme B, os realizadores se resguardam nestas características para tornar tudo mais explícito, seja a violência, as transições e os zooms mais escancarados ou na urgência de seu discurso, como uma distopia que cristaliza as proximidades entre passado, presente e futuro no cenário brasileiro. É este último quesito que conquista boa parte da plateia, apesar do estranhamento causado pela obra, cuja ânsia em abarcar tantas coisas sobrepõe às questões narrativas, com alguns elementos não funcionando como desejado, a exemplo dos psicotrópicos ou da personagem de Teresa (Bárbara Colen), que introduz o espectador àquele local, mas depois perde importância, mesmo neste roteiro sem protagonismos que torna o povo de Bacurau um protagonista coletivo. Por isso, se amálgama é imperfeita, Bacurau se engrandece como parte integrante e reverente a todo um cinema brasileiro a ser valorizado.

 

 

=> Ouça o NERVOS Entrevista #27, que destaca o filme Bacurau na conversa com parte da equipe do longa: a produtora Emilie Lesclaux, a atriz Alli Willow e os atores Antonio Saboia e Wilson Rabelo

Bacurau (2019)

Duração: 131 min | Classificação: 16 anos

Direção: Juliano Dornelles e Kleber Mendonça Filho

Roteiro: Juliano Dornelles e Kleber Mendonça Filho

Elenco: Sonia Braga, Udo Kier, Bárbara Colen, Thomás Aquino, Silvero Pereira, Wilson Rabelo, Carlos Francisco, Karine Teles, Antonio Saboia, Rubens Santos, Luciana Souza, Eduarda Samara, Lia de Itamaracá, Jonny Mars, Alli Willow, James Turpin, Julia Marie Peterson, Charles Hodges, Chris Doubek, Brian Townes, Rodger Rogério, Jr. Black, Zoraide Coleto, Jamila Facury, Ingrid Trigueiro, Edilson Silva, Thardelly Lima, Buda Lira, Fabiola Liper, Marcio Fecher, Val Junior, Uirá dos Reis, Valmir do Coco, Suzy Lopes, Clebia Sousa e Danny Barbosa (veja + no IMDb)

Distribuição: Vitrine Filmes

 

 

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