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O VERDE ESTÁ DO OUTRO LADO | Vidas secas

23/08/2019

 

Nesta semana em que a questão ambiental no Brasil ganha repercussão mundial pelos piores motivos possíveis, coincidentemente é lançado nos cinemas nacionais um documentário que amplifica o debate sobre a preservação do meio ambiente para além do drama amazônico. O Verde Está do Outro Lado (2018) é uma coprodução entre Brasil e Chile que trata justamente da crise hídrica em dois pontos específicos de ambos os países. Em comum nos dois casos apresentados no longa de Daniel A. Rubio, realizador que há tempos se dedica a projetos de cunho social e ecológico, está a exploração privada desenfreada da água alterando muito mais do que a paisagem desses lugares, mas toda a vida em seu entorno.

 

O diretor traça claramente o seu paralelo bilateral. No Chile, os prejudicados são a população de Petorca, província a 200 quilômetros de Santiago, conhecida pelo cultivo de abacate, mas cuja construção de poços e desvios pelos grandes produtores secou o rio local e a produção dos médios e pequenos agricultores. No Brasil, o foco está em Correntina, município que fica no oeste da Bahia e que guarda uma grande reserva aquífera que vem sendo drenada pela excessiva produção de soja na região.

 

O lado verde do título é exatamente dessas grandes corporações que podem usufruir livremente deste bem comum no território chileno, onde a legislação permite o seu uso privado, e que esperam o mesmo no cenário brasileiro, onde tentativas de aprovação de projetos de privatização da água são acompanhadas pelo cineasta na Câmara dos Deputados. Contudo, é o lado seco que ganha voz no documentário, preocupado em mostrar igualmente os efeitos ambientais desta intervenção no ecossistema e as consequências sociais para as pequenas comunidades ribeirinhas, cujo abastecimento para suas necessidades mais básicas depende de escassos serviços de carros-pipa – este, um elemento, bem como o próprio tema, também trabalhado em outro filme nacional, mas ficcional, o aguardado Bacurau (2019), de Juliano Dornelles e Kleber Mendonça Filho.

 

Os relatos dos habitantes, cujas falas servem de munição perfeita para o discurso da obra, conferem o dinamismo que falta ao longa, com uma direção carente de mais apuro narrativo e estético. A estrutura e, particularmente, a forma como o grafismo é inserido recordam as de uma videoaula dos anos 1980 e 90. Entretanto, apesar do didatismo que confere à produção um caráter mais jornalístico do que cinematográfico, há lacunas informativas, especialmente sobre o aspecto geográfico e econômico de Correntina, ou na escolha de não dar nomes às empresas que estariam envolvidas nesta utilização indevida da água desses rios e riachos.

 

É perceptível a crítica que se deseja fazer ao neoliberalismo, mas a relação dos “Chicago Boys” com o tema principal fica solta para grande parte do público que desconhece a influência do grupo de economistas que foram responsáveis pela política econômica implantada no Chile durante a ditadura de Augusto Pinochet e que se espalhou para outros países. A breve explicação na introdução é insuficiente e tão desconexa do todo quanto a outra menção aos Estados Unidos no encerramento, que deixam o discurso ensimesmado, como se os norte-americanos fossem os únicos vilões de um sistema econômico adotado globalmente. Em um documentário que se apoia apenas no seu tema tão urgente para justificar sua existência, este tipo de simplificação acaba diluindo o debate complexo que ele exige.  

O Verde Está do Outro Lado (2018)

Duração: 76 min | Classificação: 10 anos

Direção: Daniel A. Rubio

Roteiro: Daniel A. Rubio

Elenco: depoimentos de moradores da comunidade da Prainha, Dona Ana, Sr. Paulino, Sra Maria, Seu Antônio, Timóteo MAB, Marcos – Ativista, Andreia - MAB, Deputado Glauber Braga, Deputado Alfonso Florence e Deputado Bohn Gass no Brasil; e Rodrigo Mundaca, Senadora Adraina Muños, Deputado Luis Lemus, Dona Avelinda Madariaga, Seu Pedro Madariaga, Verónica Vilches, Claudio Vilches, Ricardo Sangüesa,Alejandra Sepulveda, Ministro de Obras Publicas do Chile, Alberto Undurraga Vicuña, SeuCarlos Gilberto Tapia e Ondina Figueroa no Chile

Distribuição: Lira Filmes

 

 

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