© 2019 por Nayara Reynaud. Criado a partir da plataforma Wix.

SUCCESSION | Sombra paterna

11/08/2019

 

É curioso que a estreia mundial da segunda temporada de Succession (2018-) caia bem no Dia dos Pais aqui no Brasil. Isso porque é justamente a figura paterna, tanto pública quanto íntima, do magnata da mídia Logan Roy (Brian Cox) que intimida e corrói seus filhos mimados e despreparados na produção da HBO, criada por Jesse Armstrong. A primeira temporada deste drama cômico sobre esta família disfuncional foi indicada ganhou cinco indicações ao Emmy 2019 – Melhor Série Dramática, Direção, Roteiro, Casting (Produção de Elenco) e Tema Musical Original de Abertura –, o que talvez a ajude a ganhar mais atenção do público neste novo ano, como outras atrações mais badaladas do canal.

 

No primeiro episódio do seriado, Celebration, Logan completa 80 anos e o filho Kendall (Jeremy Strong), aquele que tem se mantido sóbrio – o seu passado adicto se torna presente no decorrer da temporada – e trabalhado na diretoria da Waystar Royco, pensa que será anunciado o sucessor do pai na companhia norte-americana de alcance global, porém, o seu pai adia a decisão e, apesar da saúde que o debilita, resiste no comando. É como se o Rei Lear da mídia adiasse a sua partilha, mas seus joguetes manipulativos com os filhos iniciassem, de qualquer maneira, a tragicomédia dos Roys. Isso porque, durante a comemoração e anúncio de sua decisão, também estão presentes seus outros herdeiros: o falastrão Roman (Kieran Culkin), que depois retorna à empresa; a “queridinha do papai” Siobhan, ou simplesmente Shiv (Sarah Snook), que aposta em uma carreira como estrategista política para se afastar – mas nem tanto assim – dos negócios da família; e o meio-irmão mais velho deles Connor (Alan Ruck), que vive em sua fazenda no Novo México, porém, sempre participando como um elemento não tão neutro da disputa familiar; além das figuras secundárias, à primeira vista, do noivo de Shiv e futuro genro Tom (Matthew Macfadyen) ansiando por um lugar entre eles, do atrapalhado sobrinho/primo Greg (Nicholas Braun) querendo apenas garantir seu emprego entre parentes poderosos que está conhecendo e a terceira esposa do empresário, a misteriosa Marcia (Hiam Abbass).

 

Se o patriarca é construído como alguém questionado e odiado por uma parcela da opinião pública, tal qual Rupert Murdoch, não há salvação no resto desta árvore genealógica. No entanto, apesar de trazer um bando de figuras detestáveis, a série desafia a lógica ao estimular a empatia do público por elas através de um desenvolvimento complexo dos personagens igualmente carismáticos e asquerosos, e também do humor na inadequação deles ou na troca de farpas e maquinações entre eles – o segundo episódio da primeira leva, Shit Show at the Fuck Factory, é impagável neste sentido com tudo que acontece naquele hospital. A sátira a que se propõe do mundo empresarial e das relações familiares nas mais altas classes permanece, embora tanto o arco principal da temporada quanto os de cada episódios caminhem sempre da comédia para o drama, já que a sucessão a que o título se refere não diz somente sobre o “quinto maior conglomerado de mídia do mundo”, mas também dos pecados e maus hábitos familiares.

 

Roteirista indicado ao Oscar por Conversa Truncada (2009), o inglês Jesse Armstrong acerta esse tom intermediário de sua criação, embora a produção funcione melhor nessa tradicional frequência semanal do que no ritmo de maratona, com seus diálogos rápidos, que oferecem um material bem rico para os atores. Com Adam McKay como produtor e diretor do piloto que foi indicado ao Emmy, os outros nomes que se seguiram depois no comando dos episódios, como Mark Mylod, sucedem o cineasta em seu estilo de direção, ao estilo A Grande Aposta (2015), só que do mundo corporativo midiático. Mais do que remeter a um documentário – quase mockumentary – de observação deste ambiente, o uso do zoom torna a câmera um complemento desses personagens que, assim como no constante movimento entre o zoom in e o zoom out, tentam se ajustar a situações as quais não estão preparados.

 

 

E se desde a excelente abertura da produção, com a música assinada por Nicholas Britell, há o indício da jornada de Kendall na primeira temporada, falhando ao seguir os passos paternos e também ao tentar fugir da sombra dele, as consequências de seu ato no episódio final repercutem neste início da segunda temporada em The Summer Palace. Se o cheiro podre do animal morto que empesteia a casa é o lembrete dos segredos pessoais e empresariais guardados pelos Roys, o passado recente obriga o filho a se reaproximar e seguir a cartilha do patriarca, enquanto os irmãos questionam a “volta do traidor”. Em mais uma reunião familiar em que Logan brinca de Lear, falando a todos de união para se tornarem os maiores do ramo, mas provocando cada um de seus herdeiros com a promessa de uma “carreira solo” à frente da companhia, a série instiga mais o público para este novo ano, mantendo as reações e sentimentos dúbios pelos personagens, a exemplo de quando Shiv pergunta diversas vezes se o pai está falando sério sobre isso: o riso vem, mas também uma triste compaixão por pessoas criadas em meio a tanta manipulação que se tornam incapazes de reconhecer ou dizer a verdade.

Succession (Succession, 2018-)

Série | 1ª temporada: 10 episódios, de 3 de junho a 5 de agosto de 2018 | Estreia da 2ª temporada: 8 episódios, a partir de 11 de agosto de 2019

Canal: HBO | Exibição: 1ª temporada, disponível na HBO GO; 2ª temporada, domingos, às 22h

Horário alternativo: segunda, às 0h05 (só nesta estreia) e 23h50 na HBO | terças, na faixa das 16h na HBO e às 21h na HBO 2 (veja os horários exatos no site)

Direção: Mark Mylod, Andrij Parekh, Adam Arkin, Miguel Arteta, S.J. Clarkson, Adam McKay, Shari Springer Berman, Becky Martin e Robert Pulcini

Criação: Jesse Armstrong

Elenco: Brian Cox, Hiam Abbass, Alan Ruck, Sarah Snook, Jeremy Strong, Nicholas Braun, Kieran Culkin, Matthew Macfadyen, Natalie Gold, Justine Lupe, Peter Friedman, J. Smith-Cameron, Arian Moayed, David Rasche e Rob Yang (veja + no IMDb)

 

 

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