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JORNADA DA VIDA | Os caminhos da diáspora africana

18/07/2019

 

A imagem pública do ídolo com a real e pessoal dele são confrontadas, silenciosamente ou não, por um jovem fã em Jornada da Vida (2018), filme de Philippe Godeau que, por sua vez, também mescla as imagens do protagonista e de seu intérprete. Na trama, o ator franco-senegalês Seydou Tall viaja de Paris a Dacar, no Senegal, para divulgar sua biografia e receber homenagens, motivando um garoto local de 13 anos a percorrer quilômetros, do interior até a capital, para a sessão de autógrafos com o autor do livro que zela com tanto carinho. E quem o interpreta é nada menos do que Omar Sy, astro francês que igualmente volta às raízes neste papel, já que seu pai é senegalês e a mãe veio da Mauritânia, e também possui esse mesmo status de referência ao ser, por exemplo, o primeiro ator negro a ganhar um César, pela sua marcante atuação no sucesso Intocáveis (2011).

 

Não é por menos que, além de estrelar, o artista produz este que é o terceiro longa de Godeau como diretor. O experiente produtor se aventura novamente na direção, depois do drama Um Novo Caminho (2009) e do thriller O Grande Assalto 11.6 (2013), tendo mais uma vez Agnès de Sacy como sua coroteirista, mas agora experimentando novos caminhos em termos de gênero. Seu recente trabalho é um típico road movie que se utiliza da estrutura narrativa para estabelecer uma empática relação paternal entre ídolo e fã, a qual, como é de se esperar, traz mais ensinamentos ao adulto com seus problemas familiares do que ao pré-adolescente Yao, vivido pelo bom estreante Lionel Louis Basse.

 

As incertezas da paisagem desértica servem de cenário ideal para a construção dessa metáfora estampada no título nacional, mas também indicada ostensivamente durante a história, com direito a citações às jornadas clássicas de Júlio Verne. Se, a princípio, parece que a jornada será a do garoto rumo ao encontro com seu herói, é este que logo é levado para a sua própria Odisseia ao decidir levar o menino para casa e descobrir aos poucos o lar de seus ancestrais, que antes desconhecia. Apesar das fugas e mudanças de rota, não há reviravoltas geográficas na dinâmica entre essas figuras que compartilham das mesmas origens, mas vem de mundos tão diferentes: a ideia da obra não é promover o “salvamento” de algum de seus personagens, mas sim torna-los mais conscientes dos caminhos que os levaram até lá.

 

Assim, Godeau flerta, mas nunca se entrega a um olhar turístico barato de um habitante do Primeiro Mundo em visita a um país periférico, mostrando o choque cultural de ambas as partes. Se o francês Seydou leva um tempo para se acostumar com os costumes e valores locais, o pequeno senegalês também custa a entender o fato do ator estar separado da esposa e do filho dele ter tido duas festas de aniversário. No entanto, há um embate interno dentro do próprio desenvolvimento do protagonista nesta situação fora do habitual.

 

Ao comparar o personagem ao chocolate Bounty – Prestígio, na tradução brasileira – por “ser preto por fora e branco por dentro”, o filme destaca, através do diálogo jocoso, o choque racial e cultural na identidade desses filhos da diáspora africana. O movimento populacional forçado pelo comércio escravagista durante a colonização e que se transformou no fluxo de imigrantes e refugiados vindos do continente, a partir da segunda metade do século XX até os conturbados tempos atuais, fica implícito na história, com o roteiro trazendo levemente a problemática à tona, quando da explicação de como a operação e consequente fechamento de uma fábrica da Peugeot, em uma região do Senegal, afetou a população local. No entanto, embora Tall e o próprio Omar Sy sejam a personificação dessa necessidade por referenciais de sucesso para comunidades africanas e de afro-descendentes, Yao é feliz com a sua vida onde está e seus sonhos não são necessariamente europeus ou ocidentais, mas bem mais amplos no desejo de ser um mergulhador ou um astronauta.

 

É claro que a produção contém seus deslizes, a exemplo do pouco desenvolvimento dos personagens ao redor dos dois principais, como a breve companhia de viagem que encontram na musicista vinda do Mali, Gloria (vivida pela também cantora e atriz malinesa Fatoumata Diawara). Contudo, o que salta aos olhos no trabalho do cineasta aqui é como ele adapta a sua narrativa ao tempo africano, o que pode deixar alguns espectadores impacientes, mas que não contradiz a jornada que tanto o protagonista quanto a obra franco-senegalesa adentram. Portanto, ainda que conserve tons agridoces em certos pontos, o filme conserva a leveza de uma sessão vespertina e a ideia de que, como canta Bob Marley e os viajantes em Three Little Birds, não há com que se preocupar, porque tudo vai ficar bem.

Jornada da Vida (Yao, 2018)

Duração: 103 min | Classificação: 10 anos

Direção: Philippe Godeau

Roteiro: Philippe Godeau e Agnès de Sacy

Elenco: Omar Sy, Lionel Louis Basse, Fatoumata Diawara, Germaine Acogny, Alibeta, Gwendolyn Gourvenec, Abdoulaye Diop, Ismaël Charles Amine Saleh, Mame Fatou Ndoye, Aristote Laios e Aboubacar Dramé (veja + no IMDb)

Distribuição: Califórnia Filmes

 

 

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