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MA | Mais uma na turma

30/05/2019

 

Uma passagem obscura da infância para a vida adulta, mudanças em um corpo em ebulição, a extrema necessidade de ser aceito e se enturmar, entre outras coisas: é possível dizer que a adolescência se assemelha a um filme de terror para muitos dos que já passaram ou estão nesta fase. Talvez, por isso, o gênero se volte tanto para esta faixa etária, não apenas como seu público-alvo, mas também como personagens de sua narrativa, seja para fazer metáforas sobre os seus temores ou para construir alegorias acerca da repressão dos adultos ao seu período de descobertas e hedonismo. Ma (2019) é o mais novo exemplar do tipo, que hoje se caracteriza por tramas mais genéricas do que as dos clássicos Carrie, a Estranha (1976) e Halloween – A Noite do Terror (1978), por exemplo, mas o novo filme de Tate Taylor, surpreendentemente, traz uma sensação diferente ao fazer mais do mesmo.

 

Isso já acontece no início, na apresentação da jovem Maggie, interpretada pela novata Diana Silvers que, depois de estrear em outra produção da Blumhouse, em um dos telefilmes / episódios de Into the Dark (2018-), e participar de Vidro (2019) e Fora de Série (2019), demonstra ser alguém para o público ficar de olho na forma como conduz sua protagonista, mais cética e desconfiada do que é comum com adolescentes no gênero. A chegada da garota a uma nova cidade e, consequentemente, uma nova escola, daria margem à conhecida história de perseguição e bullying aos recém-chegados, porém, diferentemente do que a plateia espera, a menina é bem recebida por um grupo dos alunos mais populares de lá: a cheia de iniciativa, Haley (McKaley Miller), seu crush imediato, Andy (Corey Fogelmanis), Chaz (Gianni Paolo) e Darrell (Dante Brown). Logo, ela descobre que não há muito que fazer na terra-natal de sua mãe Erica (Juliette Lewis, quem é sempre bom rever), um lugar bem esquecido no meio de Ohio, onde falta diversão e propósito para os jovens – depois, fica claro que não houve muita saída para a geração anterior, tanto para quem ficou quanto para quem foi embora e hoje retorna.

 

Sendo assim, Maggie acompanha seus novos amigos em um dos poucos prazeres locais, que é sair para beber nas “pedras”, mas antes eles precisam que algum adulto compre as bebidas para eles. É então que entra Octavia Spencer como Sue Ann, uma assistente de veterinária – Allison Janney faz uma ponta como a dona da clínica, assim como Luke Evans e Missi Pyle completam o elenco adulto – que aceita a proposta, mas deseja protege-los, depois, oferecendo seu próprio porão como um local para se divertirem em segurança, desde que não subam para a “bagunça” que está a sua casa. Não é preciso o título, onde o nome Ma pelo qual ela é chamada carinhosamente pelos meninos ganha um sentido maior em português, nem os flashbacks do passado da personagem no mesmo colégio, para já perceber que essa proteção é duvidosa na lógica dela – o que fica mais claro quando se revela uma relação posterior, que recorda o caso real de Dee Dee e Gypsy Rose Blanchard, tratado na recente minissérie The Act (2019).

 

Trata-se de um thriller que ganha ares de terror psicológico no meio do caminho, até chegar ao slasher no final, no qual se entrega de vez ao gore. O suspense da narrativa aqui se torna intrigante não pelas surpresas, já que está repleta de clichês, mas, talvez, justamente pela obviedade da trama trilhada e certa diversão que supera as baixas expectativas para a sessão. Ma é um filme B e aceita não se levar a sério, sendo quase uma paródia de si mesmo em alguns momentos no roteiro de Scotty Landes, que depois de escrever séries de variedades e humor como Workaholics (2014-17), faz o seu primeiro longa colocando a figura vilanesca fazendo piada com a Madea dos filmes de Tyler Perry ou botando September do Earth, Wind & Fire para tocar logo depois de um “acidente”.

 

Alguns podem até pensar que para uma atriz do nível de Spencer, aceitar um papel numa produção dessas só pode ser por alguma dívida moral com Tate Taylor, por ter levado seu Oscar de Melhor Atriz Coadjuvante justamente em um filme dele, Histórias Cruzadas (2011). No entanto, não só os dois são muito amigos, como o diretor lhe oferece um protagonismo que, mesmo com tanto reconhecimento nas premiações desta década, ela não ganha de Hollywood. Octavia retribui, não apenas demonstrando que está aproveitando e curtindo esse momento, mas dando nuances à personagem, além das camadas que os flashbacks dão pistas: sua interpretação é capaz de conferir, ao mesmo tempo, a loucura psicopata de Ma e as dores e marcas não cicatrizadas de Sue Ann, além de um carisma que faz esses adolescentes e os espectadores se aproximarem e gostarem dela.

 

Taylor, que também atua aqui como o policial, trabalhou com o suspense de forma mais densa e série na adaptação A Garota no Trem (2016), mas agora mergulha com tudo no universo do terror em suas referências e homenagens a clássicos do gênero, especialmente os já citados e outros dos anos 1980 e início dos 90. Algo anunciado até pela trilha sonora com a funk music setentista e o pop oitentista, uma seleção que é uma piada à parte, a exemplo da brincadeira de colocar Safety Dance, em uma situação que não é segura quanto indica o hit do Men Without Hats. A constante que segue até hoje nos filmes do tipo, dos adolescentes atraídos para o perigo é o fio condutor, mas há algo de stalker a exemplo de A Morte Convida Para Dançar (1980), obsessivo a la Louca Obsessão (1990) e vingativo como Carrie na alegoria sobre as consequências do bullying, que aqui tem um cunho sexual – por sua vez, uma temática cara à motivação castradora de Michael Myers em Halloween –, reforçado antes em diversas menções visuais ou verbais que preparam para uma das revelações do roteiro.

 

A necessidade de não ser excluído e se enturmar que permeia as atitudes de todos os personagens, até os mais coadjuvantes como Ashley (Heather Marie Pate), é a questão mais urgente dessa leitura sobre a adolescência da obra, mas existem elementos adicionais que poderiam render mais por serem tão interessantes.  Um exemplo é a violência simbólica em vez de física que Sue Ann faz a outro personagem negro, como vislumbre da problemática racial dormente durante todo o longa. Entretanto, para o que Ma se propõe, o filme rende mais do que o esperado.

Ma (Ma, 2019)

Duração: 99 min | Classificação: 16 anos

Direção: Tate Taylor

Roteiro: Scotty Landes

Elenco: Octavia Spencer, Diana Silvers, Juliette Lewis, McKaley Miller, Corey Fogelmanis, Gianni Paolo, Dante Brown, Tanyell Waivers, Dominic Burgess, Heather Marie Pate, Tate Taylor, Luke Evans, Margaret Fegan, Missi Pyle e Allison Janney (veja + no IMDb)

Distribuição: Universal Pictures

 

 

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