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TOLKIEN | Primeiros capítulos

23/05/2019

 

Se a admiração por sua obra, ampliada com as adaptações cinematográficas de sua trilogia O Senhor dos Anéis (1954-55) e O Hobbit (1937), abriu as portas para este culto à fantasia medieval que se vê na cultura pop hoje em dia, J.R.R. Tolkien não teve a mesma facilidade de seus fãs e algumas vezes encontrou a estranheza até de seus amigos de juventude por causa de seu fascínio pelo tema. O interesse obscuro e inusitado para aquele início do século XX, no entanto, foi semeado pela influência materna, com a leitura de lendas medievais que ela fazia aos seus dois filhos, trazendo magia à realidade difícil que enfrentavam. Pelo menos é isso o que dá a entender Tolkien (2019), cinebiografia do reconhecido escritor, apaixonado filólogo e professor universitário, cujo recorte se detém nos seus primeiros anos de vida.

 

Sem o apoio da fundação familiar que detém os direitos da obra dele – mas também não foi rechaçada pelo filho do autor que é presidente da organização –, a produção prefere essa visão elucidativa do jovem John Ronald Reuel Tolkien para jogar luz sobre como ele chegaria a se tornar tudo isso que consta em suas biografias completas. O olhar vem do diretor Dome Karukoski, vindo diretamente do cinema finlandês e que já tem experiência nesses retratos biográficos históricos, com o do artista homossexual Touko Laaksonen em Tom of Finland (2017). Junto com a montagem e o roteiro de David Gleeson e Stephen Beresford – respectivamente, o responsável por Caubóis e Anjos (2003) e o roteirista de Orgulho e Esperança (2014) –, ele toma como ponto de partida a experiência dolorosa do, até então, apenas estudante de Oxford na I Guerra Mundial, intercalando a narrativa entre seu calvário na Batalha de Somme, na França, em 1916, com suas lembranças de adolescência e juventude.

 

Há aí uma simbologia no caminho que o praticamente moribundo Tolkien, vivido por Nicholas Hoult, faz dentro da trincheira, com a proteção do soldado Sam Hodges (Craig Roberts), em direção ao sangrento front: a jornada tanto se assemelha à dos heróis de sua mitologia da Terra Média quanto às batalhas enfrentadas em sua vida até ali. Sendo mais um romance dramático do que uma aventura fantástica do qual os admiradores dele estão acostumados, o longa é pautado pela perda, desde uma das primeiras que viriam a acompanhar John. Sem citar o destino de seu pai, falecido enquanto era ainda menor, a trama começa na mudança do garoto, então interpretado por Harry Gilby, com a mãe Mabel (Laura Donnelly) e o irmão caçula Hilary (Guillermo Bedward), da África do Sul à Birmingham, onde chegaria e logo se tornaria órfão.

 

Sob a tutela do padre Francis (Colm Meaney), os dois meninos demoram um tempo até serem acolhidos na casa da Sra. Faulkner (Pam Farris), mas o primogênito ainda precisa enfrentar a nova e prestigiada escola no qual consegue bolsa. O bullying que o novato sofre, a princípio, logo se transforma em uma grande amizade que se estabelece entre Tolkien, Geoffrey Smith (Anthony Boyle / Adam Bregman, quando adolescente), Robert Gilson (Patrick Gibson / Albie Marber) e Christopher Wiseman (Tom Glynn-Carney / Ty Tennant), quando estes três revelam suas paixões, respectivamente, pela poesia, pintura e música. O quarteto passa a se reunir em uma casa de chá local e forma uma irmandade, que apesar do nome pueril de Clube de Chá e Sociedade Barroviana (T.C.B.S. na sigla em inglês que homenageia o tal estabelecimento) e da aspiração juvenil de mudar o mundo através das artes, enfrentando a resistência dos pais ou da sociedade, se revela muito verdadeira e o principal trunfo do filme na camaradagem que os intérpretes empregam nestes quatro amigos – e que, em revisão, é concluída com uma bela cena do protagonista com a mãe de Geoffrey (Genevieve O'Reilly).

 

Se a relação fraterna com os amigos é exaltada, o próprio irmão fica esquecido nesta história, que destaca outra moradora de seu lar adotivo: seu grande amor Edith, interpretada primeiro por Mimi Keene. Na pele da jovem órfã depois, Lily Collins imprime a imagem de uma elfa dos sonhos do autor e seus leitores, mas também certa ousadia na tentativa da personagem em ser mais do que uma dama de companhia, seja da Sra. Faulkner ou de Tolkien. O filme sugere não só que ela serviu de inspiração para as figuras femininas criadas depois pelo escritor, como indica a referência do Anel na mitologia germânica que inspirou a ópera de Richard Wagner, a qual a moça tanto gostava e desejava assistir.

 

Aliás, não faltam citações visuais aos seres que habitam suas narrativas neste retrato, desde a presença constante das árvores às imagens de anjos, cavaleiros da morte, dragões e gigantes de CGI que adentram nesta representação da I Guerra Mundial para John, com a fantasia medieval de que tanto gostava vindo como um delírio de sua febre das trincheiras e uma forma de abstrair e igualmente compreender os horrores do conflito. Os aficcionados por O Senhor dos Anéis, porém, podem sair frustrados da sessão, já que, em vez de mostrar o protagonista criando sua emblemática obra ou os detalhes de sua vida como professor em Oxford, as novas amizades que viriam – a exemplo de sua relação com o também escritor C.S. Lewis – e moldariam o seu trabalho literário, o filme se restringe a apresentar as sementes do que eles já conhecem. Entretanto, pensando na paixão dele pela filologia e que foi levada tanto em seu estudo acadêmico sobre idiomas e mitos antigos quanto nas páginas ficcionais com as línguas que criou, Karukoski faz de Tolkien uma “palavra de beleza sonora”, que pode não atingir todos os significados da intensa vida de seu biografado, mas entrega o suficiente para o público geral associá-la a uma obra sobre irmandade e amor.

Tolkien (Tolkien, 2019)

Duração: 112 min | Classificação: 14 anos

Direção: Dome Karukoski

Roteiro: David Gleeson e Stephen Beresford

Elenco: Nicholas Hoult, Lily Collins, Anthony Boyle, Patrick Gibson, Tom Glynn-Carney, Colm Meaney, Derek Jacobi, Pam Ferris, Harry Gilby, Adam Bregman, Albie Marber, Ty Tennant, Laura Donnelly, Mimi Keene, Guillermo Bedward, Craig Roberts e Genevieve O'Reilly (veja + no IMDb)

Distribuição: 20th Century Fox (Fox Film do Brasil)

 

 

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