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A VIDA DE DIANE | Sem desculpas

13/05/2019

 

Quando na primeira cena, a prima observa Diane (Mary Kay Place) cochilando na poltrona de um quarto de hospital, tem-se o convite para o espectador observar, junto com Donna (Deirdre O'Connell), aquela mulher que está sempre se prestando a ajudar os outros, se dedicando tanto a ponto de não pensar mais em si mesmo. Por isso, A Vida de Diane (2018) se propõe ao inverso: olhar para sua abnegada protagonista que incessantemente olha por aqueles ao seu redor. Para fazer esse retrato, Kent Jones se inspira em suas próprias tias-avós, neste que é seu primeiro longa-metragem de ficção.

 

O crítico de cinema, curador do Festival de Nova York e diretor dos documentários Hitchcock/Truffaut (2015) e Uma Carta para Elia (2010) contou com nada menos do que a chancela de Martin Scorsese como produtor executivo em seu début. Em troca, recebeu a aprovação pelos prêmios de Melhor Filme, Roteiro e Fotografia no Festival de Tribeca e de uma Menção Especial do Júri Ecumênico em Locarno. Um reconhecimento à produção independente norte-americana que tem como trunfo aqui a atuação de Mary Kay Place, conhecida por suas coadjuvantes em Quero ser John Malkovich (1999) e na série Amor Imenso / Big Love (2006-11), por exemplo.

 

A atriz finalmente tem a chance de um papel à altura de seu talento e entrega a interpretação contida que a direção de Jones pede. Com exceção de uma estética e narrativa etérea que infunde a tela em duas ocasiões, por diferentes razões, ambos tratam A Vida de Diane com naturalismo. E, mesmo com os acontecimentos apontando a iminência de uma tragédia a qualquer momento, é o silencioso drama cotidiano que corrói a protagonista e faz o público se identificar com, pelo menos, algum aspecto da sua história.

 

Já no início, ela está fazendo companhia à Donna, sua prima e uma de suas melhores amigas, que está com câncer. Depois, entre outras coisas, leva uma travessa de comida para um casal de amigos; visita e dá carona aos familiares; dá comida aos mais necessitados de sua comunidade; e tenta salvar o filho Brian (Jake Lacy) do vício – primeiro, das drogas, em uma jornada que recorda os dramas recentes O Retorno de Ben (2018) e Querido Menino (2018), posteriormente, de outra compulsão em uma subtrama religiosa. Se Bobbie (Andrea Martin) é a única amiga com quem ela se sente mais confortável para desabafar um pouco, não quer dizer que ela não receba também apoio de tantos outros dos quais ela está sempre disposta a ajudar.

 

Contudo, se a personagem precisa lidar com o fato de que não é capaz de curar a dependência do filho sem o desejo do próprio, igualmente se dá conta de sua impotência frente ao tempo, assinalada pela direção e roteiro. Incontáveis planos de um carro percorrendo as ruas de sua cidade interiorana e de estradas surgem como representação tanto desse estado transitório permanente da vida e do correr cada vez mais acelerado, quando o envelhecimento bate à porta. Sendo uma “filha tardia”, Diane cresceu junto de tias e primas mais velhas, mas agora se vê cada vez mais sozinha, como Jones bem pontua com as elipses temporais sendo pautadas pelos funerais que medem este estágio de sua existência.

 

São recursos e uma trama singela que geram um efeito reflexivo crescente no espectador. Sem entrar em mais detalhes, existe, porém, um caminho tomado pelo cineasta que gera um resultado ambíguo. Ao mesmo tempo em que a revelação de seu passado enriquece a personagem, dando-lhe uma nova camada para compreendê-la no presente, empobrece a leitura sobre tantas mulheres extremamente dedicadas e desculposas sem necessariamente terem um fardo de fato para carregarem, além daquela constante e imposta culpa feminina e/ou materna que as fazem ter sempre a palavra “desculpa” como uma das mais usadas em seus vocabulários.

A Vida de Diane (Diane, 2018)

Duração: 96 min | Classificação: 16 anos

Direção: Kent Jones

Roteiro: Kent Jones

Elenco: Mary Kay Place, Jake Lacy, Estelle Parsons, Andrea Martin, Deirdre O'Connell, Glynnis O'Connor, Joyce Van Patten, Kerry Flanagan, Phyllis Somerville, Celia Keenan-Bolger, Ray Iannicelli, David Tuttle e Marcia Haufrecht (veja + no IMDb)

Distribuição: Supo Mungam Films

 

 

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