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CHERNOBYL | O mal invisível

10/05/2019

 

Há 33 anos, no dia 26 de abril de 1986, uma explosão iluminou o céu de Pripyat, na Ucrânia, onde muitos habitantes saíram de suas casas naquela madrugada de sábado para observar aquele evento extraordinário sem saber que se tratava do brilho da morte. Esta inocência, tal qual a prepotência, o orgulho e a negligência pontuam a história do acidente nuclear de Chernobyl, ocorrido na então república da União Soviética, como destaca a dramatização dos acontecimentos na minissérie Chernobyl (2019). Essa é a impressão deixada por “1:23:45”, o primeiro dos cinco episódios da coprodução entre a norte-americana HBO e a britânica Sky, que traz no título a hora local em que o reator explodiu e foi exibido para a imprensa antes da estreia nesta sexta (10), às 21h na HBO Brasil.

 

Tendo, até então, O Caçador e a Rainha do Gelo (2016) como sua única exceção em uma carreira dedicada a comédias, a exemplo das partes II e III de Se Beber, Não Case! e Todo Mundo em Pânico 3 e 4, o roteirista Craig Mazin surpreende com um texto dramático, denso e político, embora seja risível, em alguns momentos, a insistência de certos personagens no discurso de que nada de grave ocorreu. Grande parte da tensão, porém, é construída pela direção de Johan Renck, em conjunto com os trabalhos da fotografia tenebrosa e a trilha sonora pontuando constantemente a sua urgência. O diretor sueco de videoclipes, que já fez de Madonna a David Bowie, também foi responsável por alguns episódios de Vikings (2013-) e The Walking Dead (2010-), entre outras séries, mas aqui assume a obra por completo evidenciando a história de terror existente na realidade que serve de material.

 

Se, pelo fato da radiação não ser visível, o Mal que sempre está presente no gênero não é percebido de imediato, ele não se torna menos assustador para o público, antes mesmo dos personagens se darem conta do que está acontecendo. Outro Mal invisível, que piora os efeitos radioativos nesta situação, é o poder, dizem os realizadores nas entrelinhas. Está ali a representação da burocracia soviética e dessa veneração pelo Estado e seu controle acima de tudo, mas o retrato local ressoa universalmente, já que a negligência estatal, coletiva e individual apresentada não é exclusividade deles, como os brasileiros bem conhecem.

 

Um prólogo demonstra essa vigilância e controle governamental assim como o peso da culpa, na confissão escondida e destino de um dos envolvidos no caso, dois anos após o desastre. Logo depois, o piloto volta ao exato momento do acidente, acompanhando os acontecimentos da madrugada até a manhã, em clima de tempo real, e a descrença dos funcionários, do mais alto ao baixo escalão, de que o núcleo daquele tipo de reator teria explodido. Linguagem técnica à parte, fica claro ao espectador, que observa com agonia, a falta de preparo e irresponsabilidade de não haver um plano de emergência.

 

Se os funcionários mal têm um uniforme especial para isolar a radioatividade, que dirá os bombeiros chamados para conter um "incêndio no telhado". Não há estoque de iodo no hospital. E, antes de tudo, o engenheiro-chefe daquele turno da noite resiste às informações preocupantes de seus subordinados e expõe todos ao perigo, transformando Anatoly Dyatlov (Paul Ritter) na figura mais vilanesca da narrativa até este ponto. O maniqueísmo está contido neste primeiro episódio, em que a figura do cientista e químico Valery Legasov (Jared Harris) já é introduzida, mas sem o protagonismo. Porém, é algo a se observar como tais personagens serão trabalhados nos próximos capítulos, nos quais entram Stellan Skarsgård como uma das figuras de autoridade, Boris Shcherbina, e Emily Watson como uma física bielorussa, Ulana Khomyuk.

 

Por enquanto, o impacto maior vem das cenas em que Renck cria esta atmosfera de terror imperceptível aos olhos da população e gritante para os espectadores, seja na cena em que as partículas radioativas presentes na fuligem do incêndio voam sobre as famílias, especialmente as crianças, da cidade que abrigava os funcionários da usina nuclear ou no ótimo gancho para o próximo episódio, apontando consequências diretas do mal que se espalhava pelos céus da região e, depois, da Europa.

 

O público brasileiro, no entanto, não fica nem um pouco mais relaxado. Uma memória do passado traz o acidente radiológico do Césio 137, ocorrido um ano depois de Chernobyl, em Goiânia (GO) – particularmente, veio à mente a cena de uma das vítimas levando o equipamento que emitiu tal radiação em pleno ônibus, representada tanto em um dos episódios mais assustadores do Linha Direta Justiça (2003-07) quanto no filme Césio 137 – O Pesadelo de Goiânia (1990), de Roberto Pires –, enquanto a recente relembra os rompimentos das barragens de Mariana e Brumadinho, os maiores desastres ambientais do país. A irresponsabilidade público-privada antes e depois de ambos os ocorridos encontra semelhanças no caso soviético e nos faz questionar o quanto estamos seguros ou não, tendo as usinas nucleares em Angra dos Reis, ali do lado de duas grandes metrópoles como Rio de Janeiro e São Paulo.

Chernobyl (2019)

Minissérie ficcional (estreia) | 1ª temporada: 5 episódios, a partir de 10 de maio de 2019

Canal: HBO | Exibição: sextas, às 21h

Horário alternativo: sábados, às 9h55 na HBO Plus; na faixa das 13h às 15h na HBO 2; e na faixa das 22h às 23h na HBO Signature | terças, na faixa da 1h na HBO; e na faixa das 12h na HBO 2 | quartas, na faixa das 17h na HBO | quintas, na faixa das 2h na HBO Plus e às 21h na HBO 2 (veja os horários exatos no site)

Direção: Johan Renck

Criação: Craig Mazin

Elenco: Jared Harris, Stellan Skarsgård, Emily Watson, Paul Ritter, Jessie Buckley, Adam Nagaitis, Con O'Neill, Adrian Rawlins, Sam Troughton, Robert Emms, Barry Keoghan, Karl Davies, Joshua Leese, Sam Strike e David Dencik (veja + no IMDb)

 

 

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