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GLORIA BELL | Dancing Queen, jovem e doce, apenas com cinquenta anos

28/03/2019

 

Em certo momento de Gloria Bell (2018), um personagem reclama de como os filhos são incapazes de enxergar seus pais como pessoas além dessa quase “instituição” que representam da maternidade e paternidade. De certo modo, Hollywood também tem dificuldade em ver personagens de meia-idade além desses papéis, especialmente as mulheres. Além de mãe ainda preocupada com os seus rebentos já adultos, divorciada há uma década e funcionária de uma seguradora, a protagonista que dá título ao filme tem a oportunidade de mostrar algo mais difícil de se assistir nas telas: a de que existe vida amorosa e sexual, com todos os seus percalços, para as jovens de 50 anos.

 

Esta história, no entanto, chegou antes aos cinemas no Chile, com Gloria (2013), produção local dirigida por Sebastián Lelio, que agora tem a chance de fazer o remake hollywoodiano do seu próprio sucesso latino. Como nos Estados Unidos parece haver uma rejeição do público geral em ver filmes estrangeiros legendados ou, quiçá, dublados, existe esse costume de fazerem a sua versão em inglês e com atores que a plateia possa reconhecer. Assim, Paulina García dá lugar a Julianne Moore na pele daquele típico personagem que serve de veículo perfeito para performances dignas de premiação, somente se o intérprete em questão consegue sustentar o peso do papel para a narrativa, o que é o caso aqui com a atriz ganhadora do Oscar pela atuação em Para Sempre Alice (2014) – e que poderia ter levado por outros tantos trabalhos.

 

Moore entrega todas as nuances desta mulher tentando se encontrar no meio de uma encruzilhada que é alcançar esta idade ansiando por juventude enquanto, não só o corpo, mas a sociedade começa a cobrar pelo tempo de vida. No entanto, este coming of age da maturidade encontra base na filmografia do cineasta chileno, que reafirma o seu interesse em adentrar com franqueza no mundo feminino, neste que é segundo trabalho em língua inglesa. Lelio estreou internacionalmente com o ótimo romance dramático Desobediência (2017), mas encontrou o ápice de sua carreira, até então, com o Oscar de Melhor Filme Estrangeiro de seu drama Uma Mulher Fantástica (2017).

 

Depois de tratar sobre a perspectiva LGBT em ambos, o diretor retorna ao seu estudo de personagem sobre o medo de envelhecer, tendo o auxílio de Alice Johnson Boher para adaptar o roteiro original da produção de 2013, escrito por ele e Gonzalo Maza. A atriz e roteirista do média-metragem A Portrait of Female Desperation (2012) traz a história de Gloria para um cenário californiano e, obviamente, transforma Viña del Mar em Las Vegas. Contudo, existem mudanças mais sutis neste filme que faz uma tradução quase literal do longa chileno, desde o fato da protagonista realmente parecer gostar de dançar mais do que ir para as festas de flashback dos anos 1970 e 1980 apenas para encontrar um par.

 

Ela continua cantarolando em seu carro, nos mesmos planos de anterior, mantendo a trilha sonora diegética, que sublinha, quase como um marca-texto, cada momento de Gloria. A diferença está na seleção musical: saíram diversas canções latinas, incluindo as brasileiras Águas de Março e Lança Perfume, presentes no primeiro, para dar lugar a uma playlist de hits da disco music e de baladas românticas setentistas e oitentistas, que soa de uma maneira mais marcante na narrativa. Lelio utiliza a dicotomia de várias dessas músicas, cujo ritmo alegre é usado para espantar a tristeza contida em parte de suas letras, como um adendo na construção da personagem, incluindo a própria versão mais famosa de Gloria, com Laura Branigan, e intensificando uma cena com Total Eclipse of the Heart.

 

Assim, a nova versão perde o panorama político-social sobre a insatisfação popular no Chile que mantinha em segundo plano, embora mantenha um comentário nacional sobre os Estados Unidos em um momento pontual, mas ganha mais nuances emocionais, tornando sua narrativa potencialmente mais efetiva com o público. Se o filme chileno era mais seco, este é mais intenso nas alegrias e tristezas de sua protagonista. Não só o romance, com um John Turturro tornando seu interesse romântico apaixonante e escondendo mais sua dubiedade até para a plateia, como o seu tom mantido pela montagem de Soledad Salfate, que trabalhou em Gloria, e a fotografia solar e com os neons noturnos de Natasha Braier – que fez justamente Demônio de Neon (2016) – são mais amáveis, fazendo com que os golpes aplicados à protagonista sejam mais duros nesta obra mais agridoce – aliás, a personagem tem como lema praticamente um verso da música do duo brasileiro Agridoce, “o mundo acaba hoje e eu estarei dançando”.

 

O questionamento sobre a busca dela por um amor para se sentir completa neste momento de sua vida permanece, mas as dificuldades do processo de envelhecimento são acentuadas em Gloria Bell. A mulher norte-americana fica igualmente impressionada pela dança do esqueleto, mas sua conversa sobre rejuvenescimento das células e a inclusão da figura da amiga (Barbara Sukowa) com medo de nunca poder se aposentar mostra a atenção maior para o tema. No entanto, nenhuma adição seja melhor para entender este meio do caminho no qual ela se encontra do que a de sua figura materna, interpretada por Holland Taylor: sempre se colocando à disposição de seus filhos, Gloria precisa se socorrer com a própria mãe no seu momento de maior fragilidade, relembrando o espectador que mães também precisam de colo e de uma existência além da maternidade.

Gloria Bell (Gloria Bell, 2018)

Duração: 112 min | Classificação: 16 anos

Direção: Sebastián Lelio

Roteiro: Alice Johnson Boher, baseado no filme “Gloria”, escrito por Sebastián Lelio e Gonzalo Maza

Elenco: Julianne Moore, John Turturro, Caren Pistorius, Michael Cera, Brad Garrett, Holland Taylor, Barbara Sukowa, Rita Wilson, Jeanne Tripplehorn, Chris Mulkey e Sean Austin (veja + no IMDb)

Distribuição: Sony Pictures

 

 

 

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