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DERRY GIRLS | Alienação como forma de protesto

05/03/2019

 

Dentre as produções britânicas, sejam no cinema ou na televisão, dificilmente chegam por aqui aquelas que não sejam inglesas; que dirá as norte-irlandesas. A atração da divisão local da Channel 4, Derry Girls (2018-), estreou em janeiro do ano passado, estabelecendo o recorde de série mais assistida no país desde a mudança de parâmetros em 2002, algo suficiente para meses depois, já em dezembro, a Netflix passar a distribuí-la internacionalmente. No meio da plataforma de streaming, uma história adolescente ambientada na Irlanda do Norte dos anos 90, palco de um dos maiores conflitos daquela década – e que vinha de muito tempo atrás, diga-se de passagem –, surge como um atrativo por si só.

 

Falando de sua terra natal, a cidade de Derry, a criadora Lisa McGee relembra como era crescer no meio da disputa entre ingleses protestantes que desejavam permanecer no Reino Unido e irlandeses católicos em defesa de uma Irlanda unida. Ao começar a maratonar a série dirigida por Michael Lennox e focada na minoria católica no lugar, é possível que se ressinta, a princípio, pela comédia não abordar com profundidade este confronto que gerou diversos ataques terroristas, repressão das forças oficiais e mortes de civis – e que, em tempos de Brexit, volta à tona se a fronteira na ilha irlandesa se tornar suscetível novamente a instabilidades sociopolíticas. Aos poucos, porém, o tema fica implícito e depois explícito no decorrer dos apenas seis episódios de vinte e poucos minutos nesta primeira temporada, até culminar em um final muito incisivo.

 

Antes, o público conhece a garota de 16 anos, Erin (Saoirse-Monica Jackson), uma protagonista um tanto chata e afetada que faz o espectador se afeiçoar, primeiro, pelos coadjuvantes. Entre eles, estão os seus amigos também outsiders de um colégio católico: a sua prima aérea Orla (Louisa Harland), a inseparável e medrosa Clare (Nicola Coughlan), a atrevida Michelle (Jamie-Lee O'Donnell) e seu primo inglês James (Dylan Llewellyn), que para não ser agredido por conta de sua origem, precisa ficar na instituição de ensino destinada só para meninas. Os dois últimos personagens são ótimos, mas a freira e diretora cínica Irmã Michael, interpretada por Siobhan McSweeney, é um achado, sendo dona das melhores frases, olhares e silêncios desta comédia.

 

Seguindo, nos primeiros episódios, a lógica de que o grupo de adolescentes apronta suas tramas pueris e sempre se dá mal, é somente no terceiro capítulo que a série começa a engatar em seu humor, às vezes, ingênuo, outras vezes, absurdo e escrachado. No entanto, os três seguintes passam, aos poucos, a abandonar essa fórmula e movimentar não apenas o arco dos personagens como a contar com o contexto em que estão inseridos ao seu favor. E, mais do que tudo, a dramaturga – cuja peça foi adaptada no filme homônimo Jump (2012) – e roteirista da série Ser Humano (2008-13) e da minissérie The White Queen (2013) quer exaltar a amizade em condições adversas, seja da puberdade e do ambiente escolar ou da guerra nas ruas.

 

Em um momento de egocentrismo como a adolescência, nos quais os jovens pensam que seus problemas são os maiores do mundo, mas os adultos levianamente desprezam seus dramas, McGee reforça que, se todos os adolescentes precisam passar por esses momentos bobos e decisivos para o decorrer de sua vida, porque os seus personagens deveriam ser privados disso, apesar do entorno. Assim, o seu maior protesto ao abordar a história recente da Irlanda do Norte é usar a trama aparentemente boba de produções para o público teen como uma alienação necessária para enfrentar a conjuntura complicada em que eles viviam. Aliás, no final carinhoso e agridoce ao som da bela e certeira Dreams do The Cranberries, fica a questão de como eles vão seguir com suas vidas agora em sua segunda temporada, que estreia nesta terça, 5 de março, lá no Reino Unido, mas ainda não tem previsão para chegar por aqui.

Derry Girls (Derry Girls, 2018-)

Série | 1ª temporada: 6 episódios, a partir de 21 de dezembro de 2018 (no Brasil)

Plataforma: Netflix (streaming)

Direção: Michael Lennox

Criação: Lisa McGee

Elenco: Saoirse-Monica Jackson, Louisa Harland, Nicola Coughlan, Jamie-Lee O'Donnell, Dylan Llewellyn, Tara Lynne O'Neill, Kathy Kiera Clarke, Tommy Tiernan, Ian McElhinney, Siobhan McSweeney e Leah O'Rourke (veja + no IMDb)

 

 

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