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LEMBRO MAIS DOS CORVOS + TEA FOR TWO | Entrevista com a atriz e diretora Julia Katharine

23/02/2019

“É muito importante que a gente aproveite todos os momentos, inclusive esses de premiações, pré-estreias, enfim, para falar sobre as nossas questões”, afirma a atriz Julia Katharine que é, duplamente, uma bandeira para a visibilidade das pessoas transsexuais e travestis. Estrela do primeiro longa do amigo Gustavo Vinagre, o híbrido entre documentário e ficção Lembro Mais dos Corvos (2018), a artista expõe a sua vida na tela, assim como também a sua arte na sua estreia como cineasta, em Tea for Two (2018), curta-metragem estrelado por Gilda Nomacce. As duas produções foram lançadas nesta quinta (21), em conjunto na última edição da Sessão Vitrine Petrobras – por causa das novas medidas governamentais, a empresa estatal retirou o patrocínio do projeto que apresenta títulos independentes para vários cinemas do país e está suspenso a partir de então –, com o filme de Julia conquistando o marco de ser o primeiro filme dirigido por uma mulher trans que estreia em circuito comercial no Brasil.

 

Em entrevista ao NERVOS, a atriz e diretora conta sobre sua amizade com Gustavo, o processo de filmagem de Lembro Mais dos Corvos e de criação de Tea for Two, além da questão da visibilidade trans e seu próximo projeto.

Quando e como foi que você e o Gustavo se conheceram?

 

Julia Katharine: Eu conheci o Gustavo Vinagre no começo dos anos 2000, a gente trabalhou juntos no [Festival] Mix Brasil. Eu era secretária e ele era estagiário. E nós falávamos muito sobre cinema, ele tinha esse sonho de fazer cinema. Na época, ele ainda não tinha ido para Cuba estudar Cinema. E eu... Bom, enfim, nessa época nós nos afastamos, porque ele foi pra Cuba e eu fui para o Japão. Tivemos um período de afastamento que nós retomamos: a gente se reencontrou através do Facebook e aí a gente fez [o curta] Os Cuidados que se tem com o Cuidado que os Outros Devem ter Consigo Mesmos (2016). De lá pra cá, tem sido uma parceria incrível, muito feliz.

 

 

E quando ele veio com a ideia de fazer um longa contando a sua história, como você recebeu o convite de expor a sua vida em um filme?

 

Eu fiquei bem feliz, porque era o primeiro longa-metragem do Gustavo e isso, para mim, foi uma honra. Foi bem divertido e eu não tive muitos problemas em contar a história da minha vida, não. Até porque eram histórias que o Gustavo já conhecia. Talvez, eu só tenha tido alguma timidez em relação às pessoas da equipe que não conheciam muitas dessas histórias.

 

 

Como foi esse processo conjunto de elaboração do filme, já que você participa do roteiro?

 

Acho que foi uma conversa assim que tivemos, assim, que a gente decidiu fazer o filme, que o Gustavo me convidou. Nós tínhamos uma espécie de escaleta com os assuntos que ele gostaria que eu desenvolvesse no filme e foi isso... Todo o resto, a minha participação como corroteirista eu acho que se dá não de uma forma escrita, mas na improvisação, porque a câmera ficou ligada e tudo que eu digo ali não era roteirizado, era improviso de momento. Foram 12 horas de terapia.

 

 

E se o Yasujiro Ozu, seu cineasta japonês favorito, dirigisse Lembro Mais dos Corvos, qual fato da sua vida cotidiana você desejaria que ele retratasse no filme?

 

Os meses que eu morei na rua, no Japão, com certeza.

 

 

Como foi para você, que é uma maníaca por premiações, ter sido premiada no Festival de Tiradentes e ter a oportunidade de fazer um discurso tão importante em favor de todas as mulheres, especialmente as mulheres trans e da sua visibilidade no mundo do cinema?

 

Fiquei muito feliz com o prêmio em Tiradentes, no ano passado. Era uma coisa que eu não esperava. E acho que toda a oportunidade que eu puder ter uma fala e eu puder falar a respeito da população TT, travestis e transsexuais, eu vou fazê-lo. Porque acho que nós temos ainda muito pouca visibilidade e é muito importante que a gente aproveite todos os momentos, inclusive esses de premiações, pré-estreias, enfim, para falar sobre as nossas questões. É uma forma de... É o nosso manifesto, né. A nossa forma de resistência nesse momento político tão complicado.

 

 

E falando sobre o seu curta, no final de Lembro Mais dos Corvos, você comenta que a história seria protagonizada por um homem cis que vivia uma vida de hétero, mas tinha um caso com uma mulher trans. Porém, ao assistir Tea for Two, logo nos deparamos com a Gilda Nomacce interpretando uma mulher cis homossexual. O que a levou a essa sua mudança no roteiro e como foi dirigir seu primeiro filme?

 

Bom, a mudança ocorreu porque, na pré-produção do filme, eu tinha contratado um ator brilhante, incrível, e uma outra atriz. Enfim, era um elenco diferente. E no processo, nós entendemos que eu não poderia trabalhar com eles, por ene questões. E eu estava tão apaixonada por esse ator, que eu decidi que não o trairia; não daria esse papel para nenhum outro ator. E tiveram vários interessados, inclusive, alguns até bem famosos. Mas eu optei por transformar o personagem em uma mulher e dar o papel para a Gilda Nomacce, que é uma parceira incrível e uma amiga maravilhosa e super generosa: ela topou fazer o filme com uma semana antes de filmar. Acho que o filme cresceu muito. Foi uma coisa muito bacana; acho que o universo conspirou para que isso acontecesse, porque, no fim, acabei me aproximando de um universo que não conhecia tão bem, que é esse universo de mulheres lésbicas e, achei muito massa. A Gilda trouxe coisas para o filme. Não só ela, a Amanda Lira também, que é a atriz que faz a Isabel, que é uma atriz brilhante. E as duas trouxeram coisas para o filme que me deixaram bem felizes.

 

 

E quais são as próximas histórias de amor (ou não) que você pretende filmar?

 

Agora eu vou fazer um filme chamado Família Valente, com a Gilda Nomacce. [O longa] é uma história sobre uma família de atrizes. Tenho outras histórias que eu quero filmar – histórias de amor, comédias românticas –, mas ainda acho que eu não tô pronta, ainda não está dentro dos planos astrais, assim, para que aconteça tão cedo. Mas eu quero sim contar histórias de amor e eu acho que esse vai ser sempre meu maior interesse no cinema.

Conexões Nervosas

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> Grey Gardens (1975), documentário de Albert e David Maysles

 

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