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BY THE WAY, I FORGIVE YOU | Aliás, me desculpe, Brandi Carlile

10/02/2019

 

Em uma edição do GRAMMY Awards com maior participação de mulheres entre os indicados, como resposta às devidas reclamações nos anos anteriores, a artista feminina com maior número de indicações em 2019 é Brandi Carlile, concorrendo em seis categorias, incluindo Álbum do Ano e Melhor Álbum de Americana para seu sexto e último disco, By the Way, I Forgive You (2018). O trabalho em um gênero que é a fusão das raízes da música norte-americana, mesclando folk, country, blues, R&B, rock, gospel e outras variantes, é justamente a síntese da carreira da cantora e compositora que nasceu e cresceu na pequena cidade de Ravensdale, no estado de Washington. Desde o início, a sua música passeia por diversos ritmos, mas nunca abandona suas origens.

 

Se a sua estreia com o autointitulado Brandi Carlile (2005) abraçava uma vertente mais pop rock da época ao country e americana, foi com o segundo álbum The Story (2007), produzido por T-Bone Burnett, que a artista embarcou no folk rock pelo qual ficaria mais conhecida. A canção-título foi utilizada em um episódio da série Grey’s Anatomy (2005-) e ajudou a alavancar a divulgação, vendas e downloads, assim como seu uso em vários comerciais pelo mundo fez de The Story a música mais famosa dela até então. O caminho do rock alternativo, entre o pop e o folk, foi seguido no terceiro Give Up the Ghost (2009), que conta com produção de Rick Rubin e colaboração de ninguém menos do que Elton John na faixa Caroline.

 

Aliás, a cantora sempre conta com boas companhias, como a produtora Trina Shoemaker que a levou totalmente de volta às raízes com o folk, country e americana mais acústicos do quarto trabalho de estúdio Bear Creek (2012). E depois do quinto The Firewatcher's Daughter (2015), pelo qual ganhou sua primeira indicação ao Grammy, como Melhor Álbum de Americana, lançou Cover Stories (2017), uma compilação de suas gravações originais e de covers das canções de The Story feitas por artistas como Pearl Jam, Dolly Parton, Kris Kristofferson e sua grande fã Adele. E é possível ouvir um pouco desses citados em seu novo disco, lançado há quase um ano, em 16 de fevereiro de 2018.

 

Mais uma vez ao lado dos gêmeos Tim e Phil Hanseroth, seus parceiros de palco e criação desde o início de sua carreira nos clubes de Seattle, Brandi Carlile faz By the Way, I Forgive You soar como se Carole King fosse para o Oeste norte-americano, tocar Tapestry (1971) com Joni Mitchell e Dolly Parton cantando; se Kris Kristofferson estivesse se apresentando em uma igreja; ou Elton John e Mumford & Sons se juntassem em um grande concerto comemorativo. Produzido por Dave Cobb, que trabalhou com nomes do country como Chris Stapleton, e o cantor de Southern rock Shooter Jennings, o disco recorda, à primeira vista, o trabalho confessional da própria Adele, de Sam Smith – com quem, recentemente, gravou um remix da última faixa, Party of One – e o lendário Rumors (1977) do Fleetwood Mac. No entanto, a ideia que paira de uma relação difícil, que lhe faz mal e à outra pessoa também vai além da esfera amorosa: a artista que vive bem com sua esposa e duas filhas afastada da agitação das grandes cidades deseja falar de perdão e gratidão de uma maneira mais ampla e complexa em seu sexto álbum.

 

É difícil perceber isso quando o título da obra aparece nos versos de Every Time I Hear That Song, que abre falando da memória de um relacionamento passado e de como ela já perdoou quem a magoou, ou ao falar do mesmo tema em Whatever You Do, balada que ganha um crescente de cordas e vocalização, numa orquestração que marca parte das faixas. Esses elementos líricos e musicais estão presentes em Party of One – cujo videoclipe conta com a atuação de Elisabeth Moss –, mas, segundo a própria Carlile em entrevista à Variety, a canção aborda como a vida familiar para os homossexuais precisa ser batalhada, em um nível individual, mesmo quando já está ganha socialmente. Mas é a ideia de que os rumos da política estejam influenciando e instabilizando intimamente as pessoas que inspirou a compositora, especialmente em The Joke, single inspiracional lançado ainda em novembro de 2017, no qual canta para aqueles que se sentem não-representados pelos modelos de masculinidade ou feminilidade, abordando o bullying assim como o drama das mães refugiadas.

 

Essa questão de gênero, tão cara para a artista que se empenha em diversas lutas sociais, surge igualmente na discreta subversão de Most of All, em que falando sobre os ensinamentos amorosos de seus pais, encarrega ao pai a lição de perdoar e, à mãe, a de lutar. Seguindo a vocação do folk de contar histórias, especialmente as que são facilmente esquecidas, como Bob Dylan fez com o drama de Hurricane, ela homenageia uma mulher assassinada e cuja a identidade nunca foi descoberta em Fulton County Jane Doe – nos Estados Unidos, “Jane Doe” é a alcunha dada aos mortos indigentes do sexo feminino, enquanto “John Doe” é o nome masculino. Da mesma forma, trata com clemência um amigo de longa data que morreu de overdose em Sugartooth.

 

Enquanto o bluegrass e o rock de arena bem ao estilo Mumford & Sons vêm de forma grandiosa em Hold Out Your Hand e Harder To Forgive – esta, com direito à marcha no final, piano, guitarra, cordas, bateria e um último grito de alívio ao entoar que “às vezes, é mais difícil perdoar do que esquecer” –, é na singela The Mother que o álbum esconde a sua joia rara. Recordando Parton e Mitchell, a balada dedicada a sua filha Evangeline fala com sinceridade da maternidade, dizendo que a criança tirou “seu egoísmo e seu sono”, nessa ambiguidade de dissabores e belezas da vida que ela canta como expiação e agradecimento em By the Way, I Forgive You. E se é muito penoso perdoar, ao menos fica a sensação que Brandi Carlile perdoa o grande público por somente conhece-la agora.

By the Way, I Forgive You (2018)

Artista: Brandi Carlile

Duração: 43:25 (10 faixas)

Gravadora: Low Country Sound / Elektra Records

 

 

 

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