© 2019 por Nayara Reynaud. Criado a partir da plataforma Wix.

SE A RUA BEALE FALASSE | Se só o amor pudesse falar

08/02/2019

 

Como explica a citação do escritor James Baldwin logo no início da adaptação cinematográfica de seu importante romance Se a Rua Beale Falasse (1974), o tal endereço do título, cujo nome foi inspirado em uma rua de Memphis que é fundamental na história do blues, funciona de representação a tantas “ruas barulhentas” de outras cidades e metrópoles que abrigam a comunidade negra local, tal qual o Harlem, bairro nova-iorquino que serve de cenário para a trama, além da West Village onde um casal de apaixonados pretende começar sua vida juntos. A tristeza silenciosa escondida neste barulho, portanto, é o material perfeito para o olhar melancólico de Barry Jenkins em Se a Rua Beale Falasse (2018). O cineasta que acompanhou um casal de São Francisco no seu début Remédio Para Melancolia (2008) e o crescimento de um menino envolto pela criminalidade e o preconceito, seja racial ou sexual, em uma região pobre de Miami no filme vencedor do Oscar Moonlight: Sob a Luz do Luar (2016), mais uma vez, oferece a oportunidade de uma “Rua Beale” dos Estados Unidos falar sobre suas dores e amores em uma sociedade que poucos lhes dá voz.

 

Ambientada no início dos anos 1970, a história dos amigos de infância que se tornam depois namorados, Tish Rivers (KiKi Layne) e Alonzo 'Fonny' Hunt (Stephan James), é interrompida e transformada pela abordagem policial diferenciada aos negros, uma realidade comum naquela época, mas que ecoa atualmente – vide o lançamento recente de O Ódio que Você Semeia (2018), também adaptação, porém, de um livro contemporâneo. Sob o ponto de vista da garota de 19 anos que está grávida do namorado, o roteiro passeia pelo tempo, intercalando o romance deles, a busca dela e dos familiares pela liberdade do rapaz de 22 anos e o que o levou até a prisão.

 

O jovem escultor de madeira é acusado erroneamente de ser o autor de um estupro, mas nem a família dele e de Tish duvidam da sua inocência nem o filme permite que o público duvide de Fonny em algum momento, ao mesmo tempo em que olha com empatia para a primeira vítima do caso, a porto-riquenha Sra. Victoria Rogers (Emily Rios). Na verdade, Jenkins coloca os personagens latinos, nas participações especiais de Diego Luna e Pedro Pascal, e o locatário judeu vivido por Dave Franco como figuras que vivem realidades diferentes, mas semelhantes na maneira com que seus povos foram/são afetados por um racismo sistêmico. Isso justamente em um país formado essencialmente por imigrantes, tal qual o Brasil.

 

Se a sociedade atrapalha o amor dos dois, desde a dificuldade de ambos em achar um imóvel para alugar, a obra torce declaradamente pelo casal na maneira com que Jenkins evoca até o cinema de Wong Kar-Wai, diretor de Hong Kong que admira, ao filmar com lirismo a relação deles em detalhes como um guarda-chuva ou a fumaça de um cigarro, quase em ritmo de jazz. Compartilhando essa visão encantada de Tish e também do cineasta, é difícil o público não se apaixonar por Fonny, mas a narrativa só ganha força de fato com os personagens que orbitam ao seu redor. Isso se torna uma faca de dois gumes para o longa, que tem como pontos altos a discussão inicial entre as famílias dos futuros noivos, o quase monólogo de Brian Tyree Henry como um ex-presidiário e amigo do rapaz e Regina King que é um capítulo à parte na pele de uma mãe que faz de tudo pela filha e por quem a garota ama, ganhando por isso vários prêmios nesta temporada e sendo favorita para o Oscar de Melhor Atriz Coadjuvante, mas que se ressente justamente por esses coadjuvantes se tornarem mais interessantes em suas nuances do que os protagonistas idealizados.

 

Esse contraste surge também na paleta de cores, em que o azul antes marcante em Moonlight dá lugar ao tom esverdeado de esperança que permeia a fotografia de James Laxton frente à sobriedade dos tons de marrom predominante nos cenários, enquanto outras cores vivas pontuam cada personagem através de seus figurinos. Aliado a um bom elenco, esse cuidado nos aspectos técnicos enriquecem o filme e fazem o espectador ficar pensando em cada detalhe, como a primorosa trilha sonora indicada ao Oscar de Nicholas Britell. Sem ser invasiva, as músicas pontuam bem o drama inerente, a tensão evidente nos momentos-chave e, especialmente, o romance, desde o belo tema principal Eden ao nortear o “paraíso” do casal às composições Agape, Eros, Storge e Philia, cujos títulos remetem aos diversos tipos de amor descritos pelos gregos e que são o único porto seguro de quem vive na Rua Beale.

Se a Rua Beale Falasse (If Beale Street Could Talk, 2018)

Duração: 119 min | Classificação: 14 anos

Direção: Barry Jenkins

Roteiro: Barry Jenkins, baseado no livro “Se a Rua Beale Falasse” de James Baldwin

Elenco: KiKi Layne, Stephan James, Regina King, Colman Domingo, Teyonah Parris, Michael Beach, Aunjanue Ellis, Ebony Obsidian, Dominique Thorne, Diego Luna, Finn Wittrock, Ed Skrein, Emily Rios, Pedro Pascal, Brian Tyree Henry e Dave Franco (veja + no IMDb)

Distribuição: Sony Pictures

 

 

Compartilhar
Tweetar
Please reload

 Textos relacionados: 
Please reload

 últimas: 
Please reload

 siga o NERVOS: 
 @nervossite 
  • Twitter - Black Circle
  • Facebook - Black Circle
  • Instagram - Black Circle
  • Pinterest - Black Circle
  • Google+ - Black Circle
  • SoundCloud - Black Circle
  • Deezer - Black Circle
  • Spotify - Black Circle
  • Branco RSS Icon
  • Twitter B&W
  • Facebook B&W
  • Instagram B&W