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CLIMAX | ... e o anticlímax

03/02/2019

 

Autor de uma filmografia que divide opiniões, o franco-argentino Gaspar Noé é caracterizado por um cinema pulsado pelo sexo e pela violência, o que lhe conferiu a alcunha de “polêmico” quase como um segundo sobrenome. No entanto, se existe certo sensacionalismo nisso só pela abordagem direta destes temas, o que mais pesa para surgirem detratores de sua obra são os personagens desprezíveis que a povoam desde o primeiro longa, Sozinho Contra Todos (1998). Este é, novamente, o gostinho ruim ao final que serve como ponto de partida para questionar a viagem proporcionada pelo cineasta de Irreversível (2002) e Love (2015) em seu novo filme, o quase musical de terror Climax (2018).

 

Logo de início, as referências do cinema que interessa ao diretor e que dão o tom do que virá depois na trama estão nas fitas VHS de Suspiria (1977), Possessão (1981) e muitos outros títulos do gênero dispostas na estante, enquanto a TV exibe as entrevistas com os bailarinos de um grupo de dança francês que fará uma turnê nos Estados Unidos. O ano é 1996 e a trama livremente inspirada em um evento verídico acompanha a véspera da viagem, na mistura de último ensaio e festa de encerramento realizada pelo grupo. Fora o prólogo que, na verdade, é um epílogo que mostra até os créditos finais, Noé até segue uma narrativa cronológica que também guiou os 15 dias de filmagem, mas a sua predileção por trabalhar com o tempo em seus filmes permanece latente aqui.

 

A câmera de Benoît Debie, diretor de fotografia que é seu parceiro desde Irreversível, baila junto com os dançarinos ao som de Daft Punk, Patrick Hernandez e outros nomes importantes da eurodance, mas a fluidez ao seguir esses movimentos e a dinâmica entre eles fora da coreografia em longos planos-sequências se contrapõe logo aos cortes intercalando algumas conversas que revelam mais sobre alguns dos mais de 20 personagens ou indicando elipses temporais nesta noite. Mas são os marcantes créditos em neon pulsante que limitam a divisão de um filme partido em dois, como o próprio cineasta afirma. Se “viver é uma impossibilidade coletiva”, como declara a frase colocada na tela, Gaspar põe de cabeça para baixo a aparente harmonia do “céu” que é a primeira parte, com sua costumeira “descida ao inferno”, estampada nos tons de vermelho da paleta de cores, quando os presentes parecem perder o compasso e tudo fica fora de controle – em teoria, até o cinema de Noé com seus roteiros escassos e abertos para a improvisação dos atores é assim.

 

A culpa é dada à sangria, provavelmente batizada com LSD, que faz a excitação dar lugar à paranoia e outros sentimentos escusos escondidos por esses indivíduos, em uma representação sensorial – já trabalhada por ele em Viagem Alucinante (2009) –, apesar de não usar a câmera subjetiva, de uma bad trip que rende uma série de alegorias. Se o próprio Noé questiona a existência da droga, as pessoas no recinto podem ter usado a substância como desculpa assim como o cineasta faz para falar dessa psicose coletiva, que, segundo afirmação dele para os jornalistas em coletiva de imprensa em São Paulo, na última terça (29), podem ocorrer mesmo com o álcool e em aglomerações motivadas pelo futebol ou manifestações políticas, por exemplo. O grupo também representa um microcosmo de uma França diversa, cujo patriotismo da bandeira contrasta com a tensão racial que surge em certas atitudes, assim como vive em estado paranoico desde os atentados terroristas que atingiram o país nos últimos anos.

 

É desta maneira que, mais uma vez, o diretor declara que o inferno são os próprios seres humanos, em uma misantropia que se repete tal qual seus maneirismos: ele novamente põe alguém agredindo uma grávida, por exemplo, e ainda coloca uma criança em situação de risco físico e psicológico. Por isso, a dicotomia que Noé explora em Climax também ocorre na recepção de seu longa, como em todas as suas obras. Ao mesmo tempo em que o espectador se empolga pelo virtuosismo técnico e artístico, que não se trata aqui de mero exibicionismo, já que sentimentos, sensações e até certo mal estar podem ser despertados em um longa que literalmente joga ácido nos olhos do público, não se cria envolvimento pelos personagens: os únicos com os quais você se importa são os mais maltratados, por vezes de forma exagerada e inverossímil, trazendo questionamentos sobre as escolhas morais desses indivíduos e de seu criador, em uma viagem igualmente excitante, desgastante, revoltante e conflitante.

Climax (Climax, 2018)

Duração: 95 min | Classificação: 18 anos

Direção: Gaspar Noé

Roteiro: Gaspar Noé

Elenco: Sofia Boutella, Romain Guillermic, Souheila Yacoub, Kiddy Smile, Claude-Emmanuelle Gajan-Maull, Giselle Palmer, Taylor Kastle, Thea Carla Schøtt, Sharleen Temple, Lea Vlamos, Alaia Alsafir, Kendall Mugler, Lakdhar Dridi, Adrien Sissoko, Mamadou Bathily, Alou Sidibé, Ashley Biscette, Mounia Nassangar, Tiphanie Au, Sarah Belala, Alexandre Moreau, Naab Naab, Strauss Serpent e Vince Galliot Cumant (veja + no IMDb)

Distribuição: Imovision

 

 

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