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GUAXUMA E OUTRAS HISTÓRIAS | Memórias de infância

30/01/2019

 

Desde a estreia no prestigiado Festival de Annecy, na França, Guaxuma (2018) vem fazendo uma carreira louvável pelos festivais não só do gênero de animação. Detentor do Prêmio Canal Brasil de Curtas no Anima Mundi, a coprodução franco-brasileira, mais exatamente pernambucana, acumulou o Kikito de Melhor Curta-Metragem em Gramado e os troféus Candangos de Melhor Direção, Direção de Arte e Trilha Sonora em Brasília, além de ser agraciado também no norte-americano Hamptons International Film Festival, no baiano Panorama Internacional Coisa de Cinema, na potiguar Mostra de Cinema de Gostoso. Recentemente, ainda foi escolhido como o Melhor Curta de 2018 pela Associação Brasileira de Críticos de Cinema, a Abraccine.

 

As premiações, porém, deram ao filme a oportunidade de um feito ainda maior: ser lançado no circuito comercial nacional, algo raríssimo para um curta-metragem, junto com os trabalhos anteriores da curtametragista alagoana, hoje radicada em Pernambuco, Nara Normande. Exibido em conjunto com Dia Estrelado (2011) e Sem Coração (2014) no programa “Guaxuma e Outras Histórias” que estreia nesta quinta (31), nos cinemas do Espaço Itaú, o trio demonstra um traço em comum na obra da jovem cineasta. Pela ótica da infância e também adolescência, sem necessariamente fazer um produto infanto-juvenil, suas histórias exploram sentimentos universais e primários ao ser humano, da fome ao luto, do amor à amizade, por exemplo.

 

O primeiro curta de animação dirigido por Normande é nada menos do que um stop motion, técnica clássica, mas difícil em sua feitura artesanal aqui realizada com bonecos em massinha. Mas não é só por isso que Dia Estrelado foi premiado no Janela Internacional de Cinema do Recife, o Cine Ceará e Festival Internacional de Curtas de São Paulo, entre outros eventos. Inspirada na famosa pintura de Vincent van Gogh, A Noite Estrelada (1889), a diretora leva as pinceladas impressionistas do icônico céu vangoghiano para o sertão, em tons de amarelo e laranja para iluminar a vida de um menino e sua família em plena seca. Neste cenário, ao mesmo tempo, belo e árido, a dor se transforma em lágrima que vem regar a esperança e solidariedade, mas a fome também leva o homem a se tornar bicho e buscar saciar sua necessidade.

 

Partindo, aparentemente, para um lado totalmente oposto em seu segundo curta, ao ir para o litoral e trabalhar com o live action, a cineasta mantém o ponto de vista pueril ao levar para a tela uma história que ouvia na infância, de uma menina com marca-passo que era conhecida como justamente como Sem Coração. A ficção codirigida por ela e Tião, venceu nada menos do que o Prêmio Illy de Melhor Curta-Metragem na Quinzena dos Realizadores do Festival de Cannes de 2014, além de se sagrar nos festivais de Havana, Brasília e outras premiações nacionais e internacionais. Acompanhando um menino que vem da cidade para passar uma temporada na praia onde fica direto com o primo, a história apresenta a dinâmica do lugar e a tal garota. Aliando o que seria um romance ingênuo às descobertas nada tolas da entrada na pré-adolescência, a dupla aborda as divisões desiguais de gênero internalizadas desde a mais tenra idade, com os garotos que enxergam a amiga como uma espécie de objeto sem ligarem para os seus sentimentos, enquanto o protagonista vê nela o seu coração.

 

O seu terceiro e mais recente curta permanece no cenário litorâneo, no que, à primeira vista, é apenas uma ode nostálgica à sua própria infância na comunidade hippie em que cresceu, na praia de Guaxuma em Maceió, Alagoas. A paisagem e o tema idílicos poderiam ser os únicos responsáveis pelo uso de areia em animação 2D e esculturas em relevo junto com bonequinhos de massinha e lã neste stop motion, mas a utilização destas diversas técnicas em conjunto com origamis, fotos e até breves filmagens representam os sentimentos mistos que Nara carrega acerca desta época e daquela com quem dividiu boas partes das memórias que conta em narração. Assim, a narrativa deste documentário em animação se revela como uma bela homenagem da realizadora à sua melhor amiga, Tayra, que faleceu em um acidente de moto em 2010, com direito a ela cantando/declamando os versos de Do You Realize?, canção da banda norte-americana Flaming Lips que se encaixa perfeitamente aos sentimentos difusos que esta partida deixou nela. “Aprendi a ter o mar dentro de mim”, declara, em certo momento de Guaxuma, a cineasta que também aprendeu a deixar o seu mar inundar a tela em um trabalho cada vez mais maduro.

Programa "Guaxuma e Outras Histórias"

Dia Estrelado (2011)

Duração: 17 min

Direção: Nara Normande

Roteiro: Nara Normande

Sem Coração (2014)

Duração: 26 min

Direção: Nara Normande e Tião

Roteiro: Nara Normande e Tião

Elenco: Eduarda Samara, Rafael Nicácio, Ricardo Lavenère

Guaxuma (2018)

Duração: 14 min

Direção: Nara Normande

Roteiro: Nara Normande

Classificação: 14 anos

Distribuição: Arteplex Filmes

 

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