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CREED II | De pai pra filho

25/01/2019

 

Desde sua origem, no filme de 1976 que surpreendentemente ganhou o Oscar, Rocky é uma história de azarões que navega entre as diretrizes da superação e da redenção, não passando necessariamente pela vitória no ringue em si, mas nas suas batalhas pessoais. Ao captar esse espírito na atualização de uma franquia, por vezes cambaleante em sua qualidade, porém, sempre muito fiel às suas raízes, o spin-off Creed: Nascido para Lutar (2015) foi uma grata surpresa para os fãs e uma atração para um novo público ao se focar em Adonis Creed (Michael B. Jordan), filho do antigo oponente e depois amigo de Rocky Balboa (Sylvester Stallone), o boxeador Apollo Creed, interpretado por Carl Weathers nos primeiros quatro longas-metragens. A renovação trazida pelo realizador Ryan Coogler ganhou sua própria cria, na qual o cineasta apenas assina a produção executiva e deixa a direção para o colega de faculdade Steven Caple Jr., responsável até então pelo drama juvenil indie The Land (2016).

 

Uma sequência que carrega em si o dilema de seguir com sua própria história derivada dentro de um universo já estabelecido, Creed II (2018) tem no título a homenagem à mesma grafia adotada pela sua série cinematográfica “ancestral” e o peso dessa herança para a segunda geração. A icônica escadaria do Museu de Arte da Filadélfia presente desde o início está lá, assim como a estátua de Balboa, sendo admirada pelos turistas, mas é o drama dos descendentes dos coadjuvantes de Rocky IV (1985) que ganha os holofotes no roteiro do estreante Juel Taylor e Sylvester Stallone, com argumento de Sascha Penn e Cheo Hodari Coker, baseado nos personagens criados por Coogler e, antes de tudo, por Stallone. Com Adonis alcançando o título mundial de boxe dos pesos-pesados, ele é desafiado por nada menos do que o filho do lutador soviético que deu os golpes fatais em seu pai, como o filme relembra no texto ou por imagens.

 

Sem o fantasma da Guerra Fria presente na produção oitentista, até porque a rivalidade entre EUA e Rússia se tornou ambígua nestes tempos de Trump e Putin, a disputa entra mais no âmbito pessoal, embora o peso político ainda seja vislumbrado para o ex-pugilista russo Ivan Drago (Dolph Lundgren de volta) e seu filho Viktor (o lutador romeno Florian Munteanu, conhecido pela alcunha “Big Nasty”), que vivem expatriados na Ucrânia. Vingança, orgulho, raiva e culpa permeiam as ações dos envolvidos, inclusive Rocky – um personagem que envelheceu melhor e se tornou interessante mesmo como coadjuvante na fase Creed –, que não deseja ver o seu pupilo seguir o mesmo caminho de seu amigo falecido, do qual se vingou no próprio ringue. Seria fácil cair no maniqueísmo do lado inimigo, como usualmente acontece não só em filmes do gênero, mas ainda que não ganhe tantas camadas, Caple Jr. e os roteiristas conferem gradualmente uma humanidade a Viktor e Ivan, que eclode no clímax.

 

Isso porque, se o primeiro capítulo já tinha a questão paterna em pauta, Creed II constrói sua narrativa a partir de relações entre pais e filhos que precisam ser recuperadas, como no caso de Rocky, ou reformuladas com outros sentimentos, a exemplo dos Dragos e de Adonis. Para o protagonista vivido novamente com competência e carisma por Michael B. Jordan, além de lidar com um legado pesado – que também acompanha seu antigo/novo treinador Little Duck (Wood Harris) –, há a responsabilidade de iniciar o seu próprio, seja profissional ou pessoalmente. Assim, o primeiro e o segundo ato se dedicam a detalhar, quase como um episódio à parte, a relação dele com Bianca (Tessa Thompson, novamente com a independência de sua personagem) na tarefa de iniciar uma nova família em Los Angeles, depois de resgatar suas raízes na Filadélfia.

 

Esse caminho aprofunda o drama dele, igualmente faz o filme perder ritmo, se tornar um pouco longo. E se nem Coogler se superou no próprio Creed em filmar uma luta de modo tão visceral quanto o plano-sequência que faz lá no meio da trama, Caple não consegue extrair algo original ou marcante visualmente nessas sequências. É através da emoção que a obra atinge o público.

 

A primeira chave para acessá-la vem através da trilha sonora novamente assinada pelo sueco Ludwig Göransson – atualmente indicado ao Oscar pelo trabalho em Pantera Negra (2018), motivo pelo qual Coogler se afastou desta sequência –, que, entre os acordes originais de marcante trilha de Bill Conti, traz o hip hop e R&B contemporâneo. O rap de Nas, Jaden Smith, A$AP Rocky se junta ao soul de Charles Bradley, tal qual o rhythm and blues repaginado de Ella Mai e Tessa Thompson, emprestando sua voz à Bianca, cede espaço para o som eletrônico atual do Bon Iver nesta seleção musical que conta com a produção de Mike WiLL Made-It e engrandece a montagem de treinamento deste capítulo. A segunda é justamente o seu interesse pelos laços familiares, especialmente paternos, que deságua em seu último ato.

 

São os golpes precisos com que Creed II ganha o espectador por pontos, depois de uma luta menos assertiva e segura do que o nocaute anterior.

Creed II (Creed II, 2018)

Duração: 130 min | Classificação: 12 anos

Direção: Steven Caple Jr.

Roteiro: Juel Taylor e Sylvester Stallone, com argumento de Sascha Penn e Cheo Hodari Coker, baseado nos personagens criados por Ryan Coogler e Sylvester Stallone

Elenco: Michael B. Jordan, Sylvester Stallone, Tessa Thompson, Phylicia Rashad, Dolph Lundgren, Florian Munteanu, Russell Hornsby, Wood Harris, Milo Ventimiglia e Robbie Johns (veja + no IMDb)

Distribuição: Warner Bros. Pictures

 

 

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