© 2019 por Nayara Reynaud. Criado a partir da plataforma Wix.

RASGA CORAÇÃO | Não se fala mais de amor em Gotham City

16/12/2018

 

Na trilha sonora de escolhas não óbvias dentro cancioneiro popular brasileiro, indo de Iara (Rasga Coração) a Gotham City, do novo filme de Jorge Furtado, não caberia a clássica, mas já muito utilizada Como Nossos Pais. Não fosse o clichê, a canção de Belchior eternizada por Elis Regina resumiria o tema central de Rasga Coração (2018): o choque de gerações e a maneira cíclica como filhos repetem os passos dos pais, sejam quando jovens ou ao assumirem tal posição, já mais velhos. Só que a atualização do contexto, mais do que do texto, na adaptação para os dias de hoje da peça de Oduvaldo Vianna Filho, cuja primeira montagem foi realizada em 1979 – depois de cinco anos sob censura –, revela que a atemporalidade da obra original acerca da questão geracional também reverbera no cenário sócio-político, neste país em que história e presente sempre são conturbados.

 

Assim, o protagonista Custódio, que nos palcos batia de frente com pai nos anos 1930 e depois brigava com o filho hippie nos 1970, foi jovem no final da mesma década. João Pedro Zappa vive o personagem como um estudante engajado às vésperas da Anistia e em pleno furor das greves sindicalistas, enquanto Marco Ricca é o “Manguari Pistolão” dos tempos atuais, sofrendo com a artrite e as dores no bolso também – ele e a esposa (cuja caracterização é ainda acima do tom, mesmo com o talento de Drica Moraes) checam direto as contas do mês, enquanto ela deseja reformar o piso de seu amado apartamento –, e que prefere a estabilidade de “aliar-se ao sistema” que tanto criticava ao se tornar funcionário público.

 

É um corpo estendido no chão – não, De Frente Pro Crime de João Bosco não chega a tocar no filme –, na calçada de frente para sua janela, que o faz pensar constantemente em seu amigo Bundinha (George Sauma), morto ainda bem jovem. O personagem serve como um elo entre passado e presente, mas este recurso narrativo é até redundante quando a própria montagem faz questão de frisar esse paralelo que Manguari está observando dentro de casa. Isso porque o seu filho Luca (Chay Suede) está passando, de modo diferente, pelas vivências que um dia ele mesmo experimentou, seja da revolta juvenil e dos protestos ou das drogas e da paixão, só que carregado do sentimento de proteção paterna e tentando entender o novo modus operandi da juventude de hoje.

 

Na figura de seu rebento, sai o jovem hippie e entra o vegano, que não se limita por questões de gênero e é pautado por uma agenda ambiental. Apesar da aparente preocupação com problemas globais, as (motiv)ações mais individualistas dessa juventude classe média fica evidente em fraturas que o cineasta explora, como na discussão entre os alunos revoltados com a ação do colégio particular em que estudam proibir a entrada de Luca pelo sua vestimenta, em que a opinião de Talita (Cinândrea Guterres), jovem negra de escola pública cuja opinião é suprimida pelo furor mais inconsequente, ainda que não sem razão, de Mil (Luisa Arraes), namorada do rapaz. Furtado avança na questão, seja na cena da prisão ou em uma fala da primeira estudante, expondo como a luta ou até mesmo o direito de escolha são privilégios de alguns, que não serão taxados por sua cor, origem ou classe social em razão disso.

 

O diretor que assume uma câmera mais solta, com o uso de drones, steadycams e planos-sequências dentro daquele lar, não consegue ser tão livre em seu roteiro, escrito ao lado da parceira de longa data Ana Luiza Azevedo e Vicente Moreno, amarrado em certo didatismo nos diálogos expositivos. Contudo, isso não prejudica e até serve ao maior trunfo do longa: a capacidade de fazer você compreender todos os personagens e perceber que cada um tem um pouco de razão em algum aspecto. Se "não se fala mais de amor” nesta Gotham City polarizada de hoje, Rasga Coração não se limita a ser uma filme sobre choques, mas também desse amor que, às vezes, os provoca e, em outros momentos, os contém para manter-se vivo entre esses diferentes iguais.

 

 

Novos tempos, velhos problemas

 

Os atores Marco Ricca e Drica Moraes, o cineasta Jorge Furtado, o ator Chay Suede e a produtora Nora Goulart na coletiva de imprensa do filme Rasga Coração (2018), em São Paulo | Foto: Nayara Reynaud

 

Já há dez anos, Jorge Furtado vem alimentando a ideia de levar a obra de Oduvaldo Vianna Filho para o cinema, mas foi há cinco que ele pensou: “Rasga Coração tá ficando atual de novo”. Se a peça se passava em três épocas, mostrando também a juventude do pai de Manguari, o filme foca-se em duas: a de 1979, com Pistolão também sendo um militante de esquerda, e a de 2013, que troca o filho de cabelo comprido por um estudante que usa saias e pinta as unhas. Nesta adaptação, das 112 cenas, só uma foi inventada – a que Nena fica frente a frente com a namorada do filho na sala – e outras tem equivalentes no texto original. Fora as drogas que o então dândi Bundinha usava nos anos 50 e suas gírias, o cineasta afirmou, durante a coletiva de imprensa do longa, em São Paulo na semana passada, que “adaptou menos do que parece”.

 

Para Furtado, “Manguari Pistolão é um dos maiores personagens da dramaturgia moderna” e seu intérprete, Marco Ricca, declarou que, apesar do pano de fundo político, a tentativa dele de reconstruir a relação com o filho é a demonstração de amor maior da obra. Fazendo as vezes da esposa do ex-militante, Drica Moraes vê nela “uma mulher que foi se perdendo durante o tempo e vai envelhecendo mal”, sem ter vida fora daquele apartamento. Ainda assim, o diretor acredita que a atriz deu mais vivacidade ao papel ao elogiar o seu trabalho.

 

De maneira mais contundente foi a mudança de Luca, que na caracterização original de comunista Oduvaldo, era um adolescente hippie despreocupado, enquanto agora ele é mais consciente. Um reflexo da atualidade, na opinião do ator que o interpreta, Chay Suede, que observa uma juventude menos alienada e preocupada com questões de comportamento não só de gênero, como no longa, além de que “o jovem de hoje precisa ter contato com a política”. Jorge lembrou o maior acesso que se tem à informação atualmente, mas frisou que “cada geração tem que aprender de novo, por si só”.

 

Para retratar esses jovens, especialmente na problemática apresentada no filme, o cineasta e a equipe foram em algumas ocupações, onde puderam ver que as mulheres estavam à frente da maioria dos movimentos, por isso o retrato mais combatente de Mil, a namorada do Luca vivida por Luisa Arraes. Se Ricca ressaltou aos jornalistas a necessidade de cultura, especialmente neste momento do país, Furtado defendeu que pagar melhor os professores seria a primeira ação para melhorar a situação. No entanto, segundo ele, “o racismo é a questão mais urgente”, já que apesar de findada a escravidão, o escravismo, como sistema, torna uma maioria em minoria, aproveitando para listar os protagonistas negros dentre seus 12 filmes, que revelam sua preocupação com o tema há muito tempo.

 

Aliás, ao comentar sobre o elenco, o diretor declarou que o seu método é convidar bons atores para os papéis e amigos, sendo o Chay a novidade da vez. Em resposta, Drica relembrou a parceria antiga, com ele ligando para propor fazer um programa junto, no caso, a série Doce de Mãe (2014), da qual Marco também fez parte. O ator contou que o cineasta sempre traz alguma música, notícia ou outra coisa que contaminava o set para as cenas em questão, enquanto Chay pensava que “não pode ser tão divertido assim” ao recordar o clima descontraído e familiar das filmagens, apesar da seriedade do drama.

 

O elenco elogiou o churrasco e o sagu que eram o chamariz das refeições lá em terras gaúchas e o realizador explicou que foi justamente essa vontade de fazer TV e cinema lá que os motivaram a criar a Casa de Cinema de Porto Alegre, há 30 anos, e sempre formando gente nova na equipe ou oriundos de dois cursos da área que abriram na capital do Rio Grande do Sul nos últimos tempos, como destacou a produtora Nora Goulart. “Acho ridículo e eu nunca coloco no cartaz ‘Um filme de Jorge Furtado’”, declarou o diretor ao afirmar que o cinema é a arte mais coletiva de todas e enumerar colaborações, como a do ator João Pedro Zappa que trouxe a gaita para o jovem Manguari ou de Suede ao sugerir uma canção da banda peruana Los Saicos, precursora do que seria o punk rock. No entanto, a influência de grandes cineastas também contribui de alguma forma, com ele destacando Ettore Scola, Billy Wilder e Federico Fellini como nomes que fazem o seu “tipo de cinema preferido, que são as comédias tristes”, capazes de unir as duas coisas que fazem da vida o que ela é.

Rasga Coração (2018)

Duração: 113 min | Classificação: 16 anos

Direção: Jorge Furtado

Roteiro: Ana Luiza Azevedo, Jorge Furtado e Vicente Moreno, baseado na peça “Rasga Coração” de Oduvaldo Vianna Filho

Elenco: Marco Ricca, Drica Moraes, Chay Suede, George Sauma, João Pedro Zappa, Luisa Arraes, Anderson Vieira, Nelson Diniz, Duda Meneghetti, Kiko Mascarenhas, Fábio Enriquez e Cinândrea Guterres (veja + no IMDb)

Distribuição: Sony Pictures

 

 

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