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MOSTRA SP 2018 | Entrevista com Maria Belén Poncio, diretora de “Metro Veinte: Cita Ciega”

03/11/2018

“Não é ver o filme, é vive-lo”. Esta é a definição da realidade virtual, conhecida também pela sua sigla em inglês, VR, que o produtor argentino Ezequiel Lenardon deu, ao lado da diretora compatriota Maria Belén Poncio, enquanto esteve na 42ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo, apresentando o curta Metro Veinte: Cita Ciega (2018), que faz da tecnologia um meio para contar a história de uma adolescente cadeirante descobrindo sua sexualidade. Em entrevista exclusiva para o NERVOS, os dois realizadores conversam sobre as descobertas e desafios de descobrir fazendo a realidade virtual, seu uso em função da narrativa, a questão da acessibilidade na Argentina e no Brasil e muito mais, como você lê na conversa a seguir.

A princípio, o que surgiu primeiro? A ideia de fazer um filme em realidade virtual ou contar uma história de uma adolescente em cadeira de rodas descobrindo sua sexualidade?

 

Maria Belén Poncio: Na realidade, o que surgiu primeiro foi a história. Quando Rosario Perazolo, que é a roteirista principal, é cadeirante, tem 21 anos, é militante pela causa da deficiência e faça publicamente a respeito...

 

Ezequiel Lenardon: Ela faz TED’s [palestras promovidas pela empresa do mesmo nome que promovem disseminação de ideias de variadas áreas e são divulgadas na internet].

 

M.B.P.: Vi uma a respeito sobre deficiência e a necessidade de naturalizar, deixar de vê-los como lástima. Então, ela toma muito o humor como ferramenta. E me pareceu que era uma história muito poderosa para compartilhar com os outros.

 

E.L.: E assim a gente começou a indagar qual poderia ser a experiência que nos aproximaria da realidade dela e achamos na realidade virtual uma ferramenta de ir mais além das imagens.

 

M.B.P.: Não é uma perspectiva subjetiva, porque você está ao lado dela. Mas você pode experimentar o mundo a sua altura.

 

A um metro e vinte...

 

M.B.P.: Exato. E há parte do filme que se move quase rolando. Então, essa experiência das pessoas que te olham por cima, parecia mais poderoso vive-la e experimentá-la.

 

E.L.: Não é ver o filme, é vive-lo. Isso é a oportunidade que a realidade virtual oferece

 

 

E como foi a experiência de filmar em realidade virtual? Sei que vocês contaram com o apoio da Bienal de Veneza [responsável pelo famoso festival de cinema]...

 

Maria Belén Poncio: Sim, nos selecionaram na Biennale College Cinema VR, que é uma espécie de residência artística que seleciona alguns projetos e há tutores, mentores...

 

É um laboratório?

 

M.B.P.: Exato. Eles vão te guiando sobre roteiro, storytelling, outro sobre tecnologia, outro sobre distribuição, de todas as áreas de um projeto para poder desenvolver, melhorar, questionar coisas que não estão boas. Então, isso nos serviu muito para planejar um projeto realizável em realidade virtual, porque havia muitas coisas que nós não sabíamos como fazer. E também nos ajudou muito dois coprodutores que tivemos na Argentina, que tinham o conhecimento técnico da realidade virtual.

 

Ezequiel Lenardon: A Realidad 360 Argentina é uma companhia que é pioneira na tecnologia na Argentina. E a Maldito Maus é uma pós-produtora de VFX e animação. Eles foram parceiros do projeto. Inclusive, se você ver, muito do filme foi feito por VFX, porque há câmeras, há luzes...

 

M.B.P.: E em todas as cenas tem que apagar tudo.

 

E.L.: Porque, como é 360°, se filma tudo. Se há um painel de luzes em cima, tem que apagar tudo. Com todo mundo envolvido desde o desenvolvimento do projeto.

 

M.B.P.: E teve muitas coisas que fomos aprendendo, o que poderíamos fazer, que coisas não com essa tecnologia. Porque uma coisa que se imagina do que vemos tradicionalmente no cinema, quando se deseja fazer na realidade virtual não é o mesmo: não pode ou há que se buscar outra maneira. Então, é ir aprendendo também e experimentando a tecnologia, porque ninguém tem a receita, hoje em dia, de como é a melhor maneira de contá-la. Estamos todos criando uma nova linguagem.

 

 

Aproveitando isso, vocês têm ideia para os próximos projetos? Pensam em continuar investindo na realidade virtual como linguagem?

 

Maria Belén Poncio: Este projeto Metro Viente foi pensado como uma série. Então, a ideia é que tenha um primeiro capítulo, que pode seguir de maneira solo ou ser visto de forma seriada. Agora estamos desenvolvendo a série. Mas fora deste projeto, pelo menos, eu creio que, dependendo de cada projeto, achar qual a melhor maneira de conta-lo. Não voltaria à realidade virtual apenas pela mídia, mas sim se o projeto necessita ou possui algo que se aponta desta maneira, usaria de novo. Mas sim, tenho outro projeto que, talvez, é melhor conta-lo de forma tradicional.

 

Ezequiel Lenardon: Acho muito importante isso, porque também se debate muito o meio por qual a gente filma e acho que a prioridade são as histórias. Qual o meio que melhor funciona a história. Como produtor, eu trabalho com muitas tecnologias e, como falou Belén, não é que a gente fica só na realidade virtual, ou no formato tradicional, ou na televisão, ou no que for. Acho que sempre tem que se procurar a história e os meios, porque não há um. Agora, na realidade em que a gente vive, você tem que pensar em multiformato. Nenhuma história se completa somente em um filme. Hoje se fala de todas as interações sociais no Instagram ou Facebook... Todos esses elementos que fazem parte de uma história maior e que fazem ponte com o público, porque também não se pode esquecer que isso tem que chegar em alguém. Então, para o projeto futuro, a série de Metro Veinte, estamos pensando em multiformatos. Mas vai conservar a experiência, pois para isso se escolheu a realidade virtual.

 

M.B.P.: E depois os outros episódios em formato tradicional para as pessoas que não têm acesso à realidade virtual, para que, de todas as maneiras, possam conhecer a história igual.

 

Para o próximo ano?

 

M.B.P.: Sim, estamos pensando entre este ano e o que vem.

 

E.L.: Estamos em um desenvolvimento avançado. A gente já tem financiamento do Inca, Instituto Nacional de Cinema da Argentina, e o Polo Audiovisual da Província de Córdoba. São dois fundos importantes, mas com toda a situação econômica da Argentina agora, não são suficientes mais, porque a tecnologia também demanda muitos processos. O filme que a gente apresentou foi rodado em três dias, mas teve mais de três meses de pós-produção, com uma equipe de 25 pessoas. O esforço de fazer coisas muito pequenas é muito grande e é necessário também um know-how de uma qualidade dos técnicos que não pode ser qualquer um, tem que ser especialista. Ainda que a gente tenha contado com profissionais de animação e efeitos especiais, os caras não tinham resposta para todas as coisas que estavam acontecendo no filme. Então, como falei antes, estamos aprendendo e fazendo o caminho andar.

 

 

E qual foi o cuidado de vocês na pesquisa do cotidiano de uma pessoa em cadeira de rodas? E como é a questão da acessibilidade na Argentina? É muito diferente do que vocês puderam ver aqui em São Paulo?

 

Maria Belén Poncio: A respeito do processo de pesquisa, Rosario, que era a roteirista principal, era sempre o nosso termômetro sobre o que podíamos dizer ou o que não, porque ela já vive e é a sua experiência. Ela sempre filtrava o que estamos dizendo sobre a deficiência, porque às vezes vinham umas ideias loucas e outras coisas e aí ela dizia “não quero dizer isso da deficiência”. Então, esse foi nosso suporte para que seja uma história verídica, digamos, e real.

 

Ezequiel Lenardon: E que tenha coração e que isso tenha legitimação. E dar oportunidade para que novas vozes entrem no mundo do cinema, e vozes com experiência. E, a respeito da outra pergunta que você faz, fomos surpreendidos pela acessibilidade de São Paulo. Extraordinário como está de todos os lados, como está tudo muito presente, ao menos, na região em que estamos vendo [região da Avenida Paulista].

 

Sim, na periferia é diferente.

 

M.B.P.: Sim, pelo menos todos os metrôs têm.

 

E.L.: Buenos Aires não tem metrô acessível. Tem em algumas estações, mas o sistema de metrô é um pesadelo.

 

Tem elevador?

 

E.L.: Sim, mas não em todas as estações. Então, você não sabe se pode chegar a uma estação ou não, se pode sair.

 

M.B.P.: Mas em Córdoba, que é onde nós vivemos, é muito inacessível. Há algumas rampas, mas não em tudo. Os ônibus têm rampas, alguns, mas não todos. É complicado.

 

E.L.: Acho que há muito trabalho da sociedade inteira e não somente da questão governamental de naturalizar a deficiência e oferecer alternativas que fiquem boas para todo mundo.

 

M.B.P.: E que não seja para fazer um favor e sim que é um direito, porque todos podemos entrar, todos podemos nos locomover. Mas, nós cremos, além das possibilidades físicas, que são importantes, é a concepção humana de como tratamos, como vemos, como falamos e isso é, sobretudo, o objetivo do projeto.

Conexões Nervosas

Se você curtiu Metro Viente: Cita Ciega, pode gostar também de...

 

> Notes on Blindness: Into Darkness (2016), filme em realidade virtual lançado junto com o longa-metragem de Peter Middleton e James Spinney, documentário britânico que acompanha o escritor e teólogo John M. Hull, que ficou totalmente cego depois de décadas de constante deterioração da visão

 

Ezequiel Lenardon: É um trabalho feito na França...

 

Maria Belén Poncio: Muito lindo, em realidade virtual também.

 

E.L.: ... E trabalha a questão de uma pessoa que está se tornando cega. Então, faz um trabalho com o som impressionante e com cores. Você não está vendo imagens, você está ficando cega. Foi uma peça que foi inspiração para a gente, enquanto a ver outras maneiras de contar e falar sobre.

 

 

> Yes, We Fuck! (2015), documentário espanhol de Antonio Centeno e Raúl de la Morena que explora a sexualidade entre as pessoas com deficiência

 

Maria Belén Poncio: E também um documentário que esteve, no ano passado, rodando por todo o mundo. Não é ficção, é distinto, mas transmite um pouco a mensagem de poder entender as diversidades na hora de viver a sexualidade, viver essas experiências, sensações. Creio que foi também um ponto de referência.

 

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