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MOSTRA SP 2018 | Dia 9 – Sob o fogo e a água

26/10/2018

 

A tensão cresce como fogo no premiado thriller Em Chamas, candidato sul-coreano a uma vaga no Oscar, e no longa nacional O Olho e a Faca, novo filme de Paulo Sacramento, enquanto Mercedes Morán se encontra em Família Submersa, argentino que se soma a outros destaques desta sexta, nono dia da 42ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo.

Em Chamas

(Boening, 2018)

 

 

O título do novo filme de Lee Chang-Dong pode sugerir algo explosivo, mas a verdade é que Em Chamas (2018) só chega a este ponto depois de uma paciente fervura em uma narrativa cuja ebulição vem gradualmente. A maneira como o cineasta sul-coreano conduz isso ao adaptar o conto Queimar Celeiros (1993), do escritor japonês Haruki Murakami, chamou a atenção dos críticos internacionais no Festival de Cannes, que lhe deram o prêmio FIPRESCI. Por tabela, lhe garantiu sua escolha como o candidato da Coreia do Sul na disputa por uma vaga no Oscar de Melhor Filme Estrangeiro.

 

O thriller começa com o reencontro do entregador e aspirante a escritor Jongsu (Yoo Ah-In) e com a promotora de promoções de outra loja Haemi (Jun Jong-Seo). Os dois cresceram na mesma região e passam a se encontrar outras vezes, até que ela faz a sua tão sonhada viagem para a África e, na volta, traz na bagagem o bem-sucedido Ben (Steven Yeun). A tensão sexual e os ciúmes vão crescendo entre o trio, com um desaparecimento elevando isso ainda mais na segunda metade de suas duas horas e meia de duração.

 

Este crescente é pontuado pela trilha sonora de Mowg que inclui através de instrumentos típicos uma sonoridade oriental no suspense de suas composições. Vários elementos instigam leituras no decorrer da trama, a exemplo do gato imaginário, mas o que ganha mais destaque é o uso do sol para graduar esse “aquecimento narrativo” assim como a leitura das diferenças de classe na sociedade sul-coreana. Para coroar, o clímax arrebatador ainda entra no hall daqueles finais que se pode duvidar se ocorreu na realidade ou é fruto da imaginação do protagonista.

 

Veja a ficha técnica e trailer no site da Mostra

 

> Cine Caixa Belas Artes – Sala 1 Villa Lobos – 26/10/2018 às 20h30

> Cinesala – 27/10/2018 às 16h00

> Espaço Itaú Frei Caneca 1 – 28/10/2018 às 17h20

> Espaço Itaú Pompeia 1 – 29/10/2018 às 21h00

> Cinearte Petrobras 1 – 31/10/2018 às 14h00

Assunto de Família

(Manbiki Kazoku, 2018)

 

Quando levou a Palma de Ouro em um Festival de Cannes cheio de discussões contundentes fora e dentro das telas, Assunto de Família (2018) pode ter surpreendido a muitos lá presentes. A decisão de dar essa honraria pela primeira vez ao cineasta japonês Hirokazu Kore-eda e por seu novo e agridoce trabalho ser mais abrangente na tarefa de agradar público, crítica e júri podem ser levadas em consideração para justificar essa escolha. No entanto, é bem mais interessante a ideia de premiar um filme que trate de maneira genuína e delicada a complexidade das relações humanas, dos laços familiares e da moral.

 

Essas questões sempre permearam o cinema de Kore-eda, em títulos que passaram pela Mostra como Ninguém Pode Saber (2004), Pais e Filhos (2013) e Depois da Tempestade, e, na produção escolhida para representar o Japão como pré-candidata ao Oscar, ele disserta sobre como os laços familiares se constroem não pelo sangue em comum, mas pelo carinho e atenção trocados. Sofrendo com os maus tratos e agressões da mãe biológica, a pequena Yuri (Miyu Sasaki) é socorrida pelo ladrão Osamu (Lily Franky) que se compadece dela e leva para casa, onde vive com sua família torta, com a mulher Nobuyo (Sakura Andô) e o que parecem ser a avó (Kirin Kiki) e irmã dela (Mayu Matsuoka) e o seu filho Shota (Jyo Kairi), a quem ensina a arte de ser "mão leve". Somente aos poucos o público vai entendendo que a dinâmica existe além de relações parentais verdadeiras e que uma nova vai se construindo com a menina.

 

Se Osamu é amoral ao introduzir não só Shota como até Yuri no caminho do clã da malandragem e criminalidade, foi o mesmo que os resgatou e trata como filhos, revelando a dualidade marcada nesses personagens que agem por sobrevivência ou interesse, mas também demonstram verdadeira compaixão um com os outros. A relação fraternal que surge entre o menino e a garotinha é construída gradativamente para sucumbir a um sacrifício que leva ao clímax e um final que atesta que nem sempre o correto à primeira vista é o melhor a se fazer dependendo da situação. Neste mosaico familiar, o roteiro escrito pelo próprio Kore-eda peca ao deixar a jovem Aki de Mayu Matsuoka muito avulsa: a neta da senhora Hatsue que trabalha como uma espécie de stripper / prostituta para voyeuristas começa a gerar interesse com seu arco que lembra a utilização do sexo para tratar da solidão, como fez em Boneca Inflável (2009), mas é deixada ao relento com seu desfecho após uma confusa descoberta das ações de sua avó e seus pais.

 

Veja a ficha técnica e trailer no site da Mostra

 

> CineSesc – 26/10/2018 às 18h40

> Reserva Cultural – Sala 1 – 27/10/2018 às 16h00

O Olho e a Faca

(O Olho e a Faca, 2018)

 

 

O montador Paulo Sacramento está estabelecendo sua carreira como diretor de longas-metragens apostando em frentes bem diferentes. Seu novo filme O Olho e a Faca (2018) carrega uma estética próxima à documental no registro do dia-a-dia de uma plataforma de petróleo, que remete à sua estreia com o documentário fundamental O Prisioneiro da Grade de Ferro (2003), e o gosto por simbolismos vistos a exaustão no seu primeiro longa ficcional Riocorrente (2013) e que se acentuam mais ao final deste último trabalho, mas o seu cerne é de uma narrativa convencional de ficção. Na trama, Rodrigo Lombardi vive Roberto, que entre idas e vindas da plataforma petrolífera onde trabalha e a família que deveria ser o seu porto seguro, está em crise. 

 

Em alto mar, o ambiente profissional exala tensão após um acidente com o antigo supervisor Zé Carlos (Caco Ciocler) e uma provável promoção para o cargo que ficou vago. Em terra firme, é um pai carinhoso com o caçula, mas não supre a ausência com o mais velho; enquanto também é um filho brigado com o pai, um marido displicente e que trai a esposa (Maria Luísa Mendonça), com quem mora em um grande apartamento de classe média alta em São Paulo. Com essa descrição, o roteiro não é capaz de criar empatia pelo protagonista nem de desenvolver os outros personagens - especialmente, os poucos femininos que existem - que orbitam ao seu redor. 

 

Água e fogo, elementos já presentes na metrópole em ebulição de Riocorrente, retornam para construir visual e simbolicamente a confusão mental de Roberto, algo do qual a direção de Sacramento tem tato para fazer, embora exagere aqui ao frisar o corvo a todo momento para o espectador. No entanto, o diretor se perde justamente no "feijão com arroz" ficcional, naquilo que dá corpo à narrativa. Junto com problemas técnicos que devem ter exigido a dublagem de algumas sequências na plataforma, sua mise-en-scène e direção de atores pecam em cenas de briga, por exemplo, e fazem de O Olho e a Faca, que também é uma coprodução da HBO e deve ir em breve para a programação do canal, um filme abaixo do que o cineasta já entregou. 

 

Veja a ficha técnica e trailer no site da Mostra

 

> Espaço Itaú Frei Caneca 4 – 26/10/2018 às 15h40

> PlayArte Marabá – Sala 4 – 29/10/2018 às 16h40

Poderia Me Perdoar?

(Can You Ever Forgive Me?, 2018)

 

É, no mínimo, curioso que uma autora de biografias ganhe sua própria cinebiografia, como Poderia Me Perdoar? (2018) faz ao recontar a história real da escritora Lee Israel em seu ponto mais crítico: quando, estando na sua pior, encontrou a saída na falsificação de cartaz assinadas por personalidades. Trazendo como destaque a interpretação de Melissa McCarthy na pele da autora, com a atriz de comédias em um drama, ou melhor, uma comédia dramática melancólica, o filme honra uma característica de sua personagem real ao priorizar o feminino desde sua equipe. A produção tem a direção de Marielle Heller, em seu segundo longa depois do début O Diário de uma Adolescente (2015), e o roteiro de Nicole Holofcener, diretora de À Procura do Amor (2013) e Gente de Bem (2018), ao lado do ator Jeff Whitty.

 

O público conhece Lee em 1991, quando, depois de relativo sucesso com suas biografias de importantes nomes femininos das artes, não consegue emplacar um novo livro e ainda perde o emprego. Uma solitária que apenas gosta de seu gato, a narrativa logo a apresenta que como uma pessoa antissocial que não se ajuda e, ao mesmo tempo, alguém que não se rende a jogar o jogo da falsidade para se tornar mais conhecida e assim receber mais atenção de sua agente (Jane Curtin) e dinheiro das editoras. É exatamente em outro tipo de falsidade, a ideológica que é crime, que ela enxerga sua salvação ao se deparar com uma carta assinada por Fanny Brice perdida entre os livros que pesquisava para a sua biografia da comediante.

 

Escrevendo como se fosse essas personalidades, quase como uma ghostwriter sem ser solicitada, o trabalho lhe dá orgulho e a chance de ser lida, mesmo escondendo a sua voz, pela primeira vez em muito tempo, fazendo com que ela evite questionamentos morais. O que Heller não poupa ao próprio mercado de relíquias que muitas vezes faz vista grossa a falsificações pelo mesmo motivo que Israel: dinheiro. Além de versar sobre essas preocupações artísticas, a obra encontra o seu fio condutor na amizade improvável de Lee com o junkie traficante Jack Hock (Richard E. Grant, também ótimo), um escritor inglês que também é homossexual e marginalizado como ela nesta cena literária nova-iorquina que baba por Tom Clancy, como o longa destaca, fazendo da misantropia dos dois personagens e do texto uma forma de encontrar o que há de mais humano dentro do filme.

 

Veja a ficha técnica e trailer no site da Mostra

 

> Cinearte Petrobras 1 – 26/10/2018 às 15h45

> Espaço Itaú Pompeia 1 – 30/10/2018 às 21h00

Família Submersa

(Familia Sumergida, 2018)

 

 

A concepção mais interessante que a atriz argentina María Alche faz em seu primeiro longa como diretora é a sua demarcação bem clara de dois tipos de família: aquela que a pessoa conhece desde o nascimento, com pais, irmãos ou afins, e lhe serve de suporte para a vida; e aquela que o indivíduo forma no decorrer de sua história, cabendo a ele ou ela suportar os seus membros. É quando perde a irmã, que era quem lhe restava de sua família pregressa, que a protagonista vivida por Mercedes Morán entra em crise com o seu papel de esteio de sua outra família, na qual é esposa e mãe de três filhos. Este é o norte de Família Submersa (2018), coprodução entre Argentina, Brasil e Alemanha que ganhou o Prêmio Horizonte no último Festival de San Sebastián.

 

Sem ter um momento direito para sentir o luto pela perda da irmã, Marcela precisa lidar com os problemas de seus filhos, já que o marido está viajando. A mais velha terminou com o namorado, a do meio está pensando em sair de casa e o caçula precisa estudar, pois está de recuperação, obrigando todos a passarem o verão ali mesmo e terem férias reduzidas. Neste ínterim, ela acaba se aproximando de Nacho (Esteban Bigliardi), um amigo de sua filha que acaba lhe servindo de colete salva-vidas neste momento em que procura encontrar sua própria identidade nesta vida que lhe submerge.

 

A cineasta estreante que um dia foi A Menina Santa (2004) de Lucrecia Martel pega emprestado muito do olhar da compatriota reconhecida em seu retrato de relações familiares claustrofóbicas e o tom fantasmagórico que imprime nas visões de parentes mortos que se confundem com a realidade morta da protagonista. Contudo, Alche não consegue seguir em frente em nenhuma das diversas frentes que abre nesta história, passando a sensação de um filme incapaz de emergir dessas pretensões na hora necessária.

 

Veja a ficha técnica e trailer no site da Mostra

 

> Espaço Itaú Frei Caneca 2 – 26/10/2018 às 19h15

> Espaço Itaú Frei Caneca 5 – 27/10/2018 às 16h40

> Cinesala – 28/10/2018 às 14h00

A Rota Selvagem

(Lean on Pete, 2017)

 

Há uma América diferente, aquela que não quer ser vista pelos próprios norte-americanos e que é destacada pelo olhar estrangeiro do britânico Andrew Haigh em A Rota Selvagem (2017). Presente na seleção do Festival de Toronto do ano passado, o longa mais recente do diretor de 45 Anos (2015) aproxima o seu foco dos Charleys que coexistem ao redor deles – e de nós também – e não se dá conta. O garoto do filme é vivido por Charlie Plummer – que não é parente do Christopher Plummer –, cujo tour de force que internaliza com naturalismo no protagonista é a principal qualidade e atrativo da produção.

 

Adaptando o romance Leon on Pete (2010) de Willy Vlautin, Haigh gasta um bom tempo contextualizando a relação de Charley com o pai (Travis Fimmel) e com o cavalo Leon on Pete, que conhece ao começar a trabalhar com Del (Steve Buscemi) que treina cavalos de corrida. Várias desventuras na primeira metade da história farão o adolescente de apenas 15 anos partir de Portland para o estado de Wyoming em busca de sua tia (Alison Elliott), com que estabeleceu algum vínculo materno durante a sua infância. O que não quer dizer que outras não ocorrem na segunda parte, quando o que parece ser um tradicional drama de cavalos se torna também um road movie e a narrativa já sofre com a longa duração do que seria um filme por si só em sua primeira hora.

 

A obra possui igualmente toques de um faroeste desolador, com as paisagens descampadas belamente fotografadas por Magnus Nordenhof Jønck, e especialmente um coming of age. A transformação para uma vida adulta aqui vem de maneira precoce e através do sofrimento, que vão aos poucos recrudescendo o garoto, enquanto ele luta pela sobrevivência e daqueles que ama em quase um conto de amadurecimento. No entanto, sem sempre conseguir salvá-los ou a si próprio de um mundo egoísta e mau, acumula perdas que fazem alguns espectadores se questionarem se o cineasta apenas chega perto ou ultrapassa o limite da exploração da miséria.

 

 

Veja a ficha técnica e trailer no site da Mostra

 

> Cine Caixa Belas Artes – Sala 1 Villa Lobos – 26/10/2018 às 18h00

> Sesc Osasco – Tenda – 26/10/2018 às 20h00

> Espaço Itaú Frei Caneca 2 – 28/10/2018 às 18h50

> Reserva Cultural – Sala 1 – 29/10/2018 às 21h00

> Espaço Itaú Frei Caneca 1 – 31/10/2018 às 19h30

Guerra Fria

(Zimna Wojna, 2018)

 

Após fazer produções internacionais e de língua inglesa, como o romance lésbico Meu Amor de Verão (2004), Pawel Pawlikowski voltou as suas origens polonesas, fazendo seu primeiro filme no país onde viveu até os 14 anos com Ida (2013) e dando à Polônia o seu primeiro Oscar de Melhor Filme Estrangeiro. Não por menos, seu novo trabalho Guerra Fria (2018), que rendeu a ele o prêmio de Melhor Direção no Festival de Cannes, foi escolhido novamente escolhido para representar a nação, mostrando outro fantasma de seu passado recente. Sai o não-dito sobre o nazismo que é tratado no anterior para falar das marcas do regime comunista polonês no roteiro escrito pelo cineasta com Janusz Glowacki.

 

O longa começa no interior da Polônia, em 1949, com flashes da pesquisa de Irena (Agata Kulesza) e Wiktor (Tomasz Kot) entre os camponeses de músicas típicas. O público depois entende que ela serve para a montagem de uma peça musical inspirada na música folclórica polonesa, da qual a esperta Zula (Joanna Kulig) se destaca na audição, chamando a atenção do pianista e arranjador Wiktor. É então que o cerne do filme se apresenta, como um romance que passeia por vários anos, especialmente a década de 1950 e também a de 1960, e locais.

 

Isso porque a turnê do espetáculo viaja por vários países do Leste Europeu, indo de Berlim Oriental a Moscou com toda a exaltação stalinista, e também a antiga Iugoslávia do Marechal Tito, além da Paris onde o pianista se refugia da censura velada do governo que obriga os artistas a cantarem os feitos do socialismo na região mesmo sem contextualização dentro da obra. A direção de Pawlikowski e a fotografia de Łukasz Żal, que volta a trabalhar com ele depois de Ida, traz não só o mesmo o preto e branco, como os planos com os rostos nos cantos inferiores da tela, explorando todo o fundo e representando a impotência dos personagens em um cenário de austeridade. No entanto, quando o casal consegue romper a Cortina de Ferro e se livrar de amarras espaciais e políticas, eles mesmos jogam uma cortina de fumaça sobre erros e coisas que precisam ser discutidas em um relacionamento, colocando barreiras para o próprio amor, que vai pedir contas disso depois como já é uma sina de amores impossíveis.

 

Uma curiosidade final é que Pawel dedica a obra aos seus pais, talvez pelo fato de ter conhecido esse modo de vida nômade quando o pai de origem judia foi obrigado a sair da Polônia por conta de uma política antissemita e emigrou logo depois com a mãe para a Inglaterra.

 

Veja a ficha técnica e trailer no site da Mostra

 

> Espaço Itaú Frei Caneca 1 – 26/10/2018 às 13h30

> Espaço Itaú Frei Caneca 2 – 27/10/2018 às 14h00

Infiltrado na Klan

(BlacKkKlansman, 2018)

 

Em seu novo filme, o cineasta Spike Lee versa sobre o papel do cinema na manutenção ou enfrentamento de uma desigualdade racial tão evidente agora quanto nos anos 1970 em que se passa a história real em que se inspirou. Baseado no livro autobiográfico e homônimo do próprio investigador Ron Stallworth, Infiltrado na Klan (2018) resgata o caso deste que foi o primeiro policial negro da polícia de Colorado Springs e que, com a ajuda de um companheiro de departamento, adentra e se torna membro da Ku Klux Klan, organização norte-americana que prega a supremacia branca, para ter conhecimento de suas ações. Citando o importante em linguagem e técnica, porém, controverso para dizer o mínimo em seus preconceitos, O Nascimento de uma Nação (1915), e contrapondo com os títulos e até utilizando o estilo da Blaxploitation, especialmente na sequência final, o diretor traça um panorama com duras críticas ao racismo nos Estados Unidos, fatores que levaram a produção a receber o Grande Prêmio do Júri no Festival de Cannes deste ano.

 

Sua direção já começa a imprimir uma marca quando John David Washington – sim, ele é filho de Denzel – na pele do protagonista, já aprendendo a arte de se infiltrar, tem contato com os discursos de um ex-Pantera Negra (Corey Hawkins) e a jovem ativista Patrice (Laura Harrier) em um encontro de jovens universitários afro-americanos, cujos rostos de descoberta de sua própria beleza, força e resistência são destacados sob um fundo preto. Mas a assinatura de Lee, deixada lá em seu filme-chave Faça a Coisa Certa / Do the Right Thing (1989), com os planos holandeses, aqueles tortos em diagonal, surgem a partir do segundo ato, quando a situação fica mais tensa e crítica na investigação dele e do judeu Flip Zimmerman (Adam Driver), que encarna o “Ron Stallworth branco”, criado pelo original em ligações ao chefe regional da Ku Klux Klan (Ryan Eggold) e inclusive ao grão-mestre da KKK David Duke (Topher Grace). Tal qual sua obra-prima, utiliza o tom cômico para falar de racismo, seguindo o caminho da ridicularização – sem a redenção presente em Três Anúncios Para um Crime (2017), por exemplo – em vez de uma vilanização melodramática dos membros da organização; uma opção que quebra barreiras para atingir o seu objetivo, mas que em tempos de falta de interpretação e exercício de escuta ao diálogo, gere certa rejeição e falta de identificação do espectador que compartilha das mesmas ideias dos inimigos da tela.

 

O roteiro escrito pelo cineasta ao lado de Charlie Wachtel, David Rabinowitz e Kevin Willmott é inteligente nas menções (in)diretas a Donald Trump, como o uso do slogan “America First” e a fala sobre um plano de colocar alguém da organização na Casa Branca, mas recaí em alguns momentos, junto com a direção, em um didatismo que retira certo impacto desse equilíbrio de denúncia satírica da narrativa, a exemplo da montagem que precisa “desenhar” para o espectador o discurso já claro do longa ao intercalar a cerimônia do grupo supremacista branco e o relato de um senhor sobre racismo na reunião dos estudantes negros. A mão pesada naquele trecho era desnecessária já que Lee endereça o seu recado de maneira mais pungente ao final, jogando na cara da plateia – que na sessão para a imprensa (novidade, só que não!), era quase em sua totalidade branca – a realidade contemporânea com as imagens das manifestações dos supremacistas e ataque aos que se opunham a ela na cidade de Charlottesville, na Virgínia, em agosto do ano passado, mostrando o David Duke da vida real e as falas condescendentes de Trump a eles. O paralelo com o cenário brasileiro atual é inevitável, ainda mais agora com a própria KKK opinando até sobre um dos nossos candidatos à presidência.

 

Veja a ficha técnica e trailer no site da Mostra

 

> Cinesala – 26/10/2018 às 18h40

> Espaço Itaú Augusta 1 – 29/10/2018 às 14h00

 

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