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NASCE UMA ESTRELA | Crepúsculo das estrelas

11/10/2018

  

Há quem diga que Nasce Uma Estrela (2018) é surpreendente, mas este adjetivo não se aplica necessariamente a sua já conhecida trama, não apenas por ser a mais recente refilmagem de uma narrativa levada para as telas com este título outras três vezes, mas porque o público reconhece tanto os clichês deste roteiro quanto os dos noticiários do mundo das celebridades. No entanto, como diz um personagem em certo momento do novo remake, é sempre a mesma história, mas tudo depende de como o artista vê o mundo entre as 12 notas e uma oitava que se repetem continuamente – e, trocando a música pela ficção, como o autor descreve o mundo entre os 12 estágios da Jornada do Herói descrita por Joseph Campbell e que rege as narrativas mitológicas clássicas e modernizadas que se vê nos filmes, séries, livros, etc. Por isso, não há novidades e sim frescor no longa que chega aos cinemas, após causar burburinho nos festivais de Veneza e Toronto, surpreendendo quem não esperava nada ou um desastre do début de Bradley Cooper na direção ou da estreia de Lady Gaga como atriz, estrelando a produção ao lado do ator e agora cineasta iniciante.

 

Na realidade, o caminho deste romance dramático com toques de tragédia e musical começou em Hollywood (1932), filme de George Cukor que apresentava a trama de uma aspirante à atriz que recebia a ajuda de um astro em decadência e alcoólatra, e seria trilhado logo depois em Nasce Uma Estrela (1937), longa em Technicolor de William A. Wellman no qual Janet Gaynor é a Esther Blodgett a ser levada para Hollywood com o auxílio de Norman Maine, interpretado por Fredric March, e moldada pela indústria do estrelato que estava a todo vapor naquela época. O mesmo Cukor volta à trama estando a frente da grande produção em CinemaScope, Nasce Uma Estrela (1954), transformando-a em um musical estrelado por Judy Garland – lembrada em 2018, indiretamente, com a interpretação rápida de Somewhere Over the Rainbow, canção clássica de O Mágico de Oz (1939) – e James Mason. Essa se tornou a versão mais conhecida junto com o Nasce Uma Estrela de 1976, no trabalho assinado por Frank Pierson que mergulha de vez no mundo da música, fazendo de Kris Kristofferson um rockstar autodestrutivo que se apaixona pela cantora vivida por Barbra Streisand e trocando o cenário do Oscar pelo Grammy.

 

O roteiro escrito pelo próprio Cooper com Eric Roth, ganhador do prêmio da Academia com o script de Forrest Gump: O Contador de Histórias (1994), e Will Fetters, que já adaptou alguns romances do Nicholas Sparks para as telas, muda os nomes dos protagonistas para Ally e Jackson Maine, mas continua a tradição de cada filme em se adaptar ao seu tempo, incluindo aqui a música pop, a pressão da mídia com as novas tecnologias presentes, as selfies e o Youtube. Este contexto atual, totalmente diferente dos anteriores, confere um olhar renovado e beneficia o longa, cujo projeto esteve em desenvolvimento por cerca de 15 anos, tendo seu nome atrelado a uma variedade de cineastas e atores: de Joel Schumacher a Clint Eastwood na cadeira de diretor, a produção cogitava, de início, Will Smith como a estrela a nascer em uma versão que trocaria o gênero dos protagonistas, mas teve Beyoncé mais tempo ligada a ela, até ficar grávida pela primeira vez. Contudo, a entrada de Bradley atualiza a obra para 2018 em mais um sentido, ao utilizar a própria experiência de dependência de álcool e drogas para imprimir mais profundidade ao personagem, dando-lhe, através do texto, direção e interpretação, uma origem, uma família representada diretamente no meio-irmão Bobby (Sam Elliott) e um problema de audição, além do alcoolismo.

 

Com uma voz grave que, à primeira audição recorda Eddie Vedder do Pearl Jam, o seu Jackson tem também um pouco de Bruce Springsteen e Chris Stapleton na forma que passeia pelo country rock e o blues, de Chris Cornell – é claro – e uma vulnerabilidade que lembra Amy Winehouse, apesar da figura masculina aparentemente forte. Filmando inclusive no tradicional festival de Glastonbury, a direção crua de Cooper nos shows se destaca e influencia o naturalismo buscado igualmente nas partes não-musicais do longa, que conta com a produção associada da Live Nation Productions, empresa promotora de eventos que produz turnês musicais e agencia artistas. Aliás, tanto Bradley quanto Lady Gaga compõem as canções originais do filme ao lado de nomes como Lukas Nelson, Jason Isbell, Mark Ronson, Lori McKenna, Julia Michaels e Diane Warren – com quem a cantora foi indicada ao Oscar por Til It Happens To You em 2016 –, indo das belas baladas ou rocks pulsantes com letras que se encaixam perfeitamente à trama, com destaque para as marcantes Shallow e Maybe It’s Time, a um pop mais genérico, com sintetizadores, estalar de dedos pré-programados, bateria eletrônica em Heal Me, por exemplo – há talvez, só um exagero em Why Did You Do That?, que não precisaria ter ass (“bunda”) nos seus versos para escancarar como a música de Ally mudou.

 

Por isso, é até mais seguro apostar em uma possível estatueta para Gaga por Melhor Canção do que como Melhor Atriz no prêmio da Academia, pois, apesar de fazer um ótimo trabalho em sua estreia, a categoria tem trazido candidatas muito fortes nos últimos anos, mas na disputa por atriz em musical e comédia no Globo de Ouro, com certeza, ela sai na frente. Mesmo sendo aquilo que a cantora domina e tem facilidade, arrepiando até quando, a capella, ecoa a sua voz inconfundível em um estacionamento, a artista se despe de sua persona até vocalmente, arriscando falsetes que, em I'll Never Love Again, recordam Mariah Carey. O mesmo ocorre visualmente, com Ally nas versões “morena natural” e “ruiva fabricada” quando ela passa a ser moldada pelo e para o showbusiness.

 

Assim, a personagem vai ficando mais apagada no decorrer do terceiro ato, até o clímax, com o protagonismo ficando concentrado com Jackson, mas é preciso destacar que muito do desenvolvimento de Ally está nas entrelinhas. Numa conversa com o pai (Andrew Dice Clay), fica subentendido um problema prévio dele com álcool, seu trabalho anterior e amizade com as drag queens do bar em que se apresentava, o pôster de Tapestry de Carole King no quarto da aspirante a cantora e compositora que se sentia mais confiante com o piano são alguns dos detalhes que se somam para entendê-la além dos problemas com sua imagem, por não ter o padrão de beleza desejado por produtores para a lançarem no mercado. É nesta questão que este Nasce Uma Estrela se aproxima mais das primeiras versões ao expor o entretenimento como uma indústria que produz estrelas em série, mas cuja volatilidade do sucesso torna tudo fugaz para que o ocaso de uma faça uma nova brilhar, como já apresentado no clássico Crepúsculo dos Deuses (1950), e é justamente com uma sutileza final que a protagonista rejeita isso para mostrar seu verdadeiro brilho.

Nasce Uma Estrela (A Star Is Born, 2018)

Duração: 136 min | Classificação: 16 anos

Direção: Bradley Cooper

Roteiro: Eric Roth, Bradley Cooper e Will Fetters, baseado no argumento de 1937 de William A. Wellman e Robert Carson; no roteiro de 1954 de Moss Hart; e no roteiro de 1976 de John Gregory Dunne, Joan Didion e Frank Pierson

Elenco: Lady Gaga, Bradley Cooper, Sam Elliott, Andrew Dice Clay, Rafi Gavron, Anthony Ramos, Dave Chappelle, Alec Baldwin e Ron Rifkin (veja + no IMDb)

Distribuição: Warner Bros. Pictures

 

 

 

 

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