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A SOCIEDADE LITERÁRIA E A TORTA DE CASCA DE BATATA | Armados de Brontë, Austen & Cia

16/09/2018

  

Naqueles fragmentos de conhecimento que vamos acumulando na avalanche de informações do mundo atual, não sei se foi em algum filme ou pesquisando para escrever sobre um que vi algo acerca de um daqueles vários casos específicos que torna a II Guerra Mundial tão rica historicamente e tão trágica humanamente: a separação de várias crianças de ilhas britânicas no Canal da Mancha, como a de Guernsey, de seus pais em uma retirada preventiva que ocorreu às vésperas da ocupação alemã nestes territórios insulares. Mais atenção, porém, a norte-americana Mary Ann Shaffer dedicou ao conhecer o tema, quando presa no aeroporto local por conta de uma forte neblina, descobriu na livraria de lá este drama e resolver escrever um livro sobre isso. O resultado viria vinte anos depois, no seu romance histórico de estreia e único A Sociedade Literária e a Torta de Casca de Batata (2008), que tem como coautora a sua sobrinha Annie Barrows, responsável por editar e reescrever o trabalho da tia que faleceu meses antes da publicação.

 

Anos depois, a sua história e a de Guernsey chegam ao conhecimento de mais pessoas ao ser transposta para a tela por Mike Newell, diretor do marcante Quatro Casamentos e um Funeral (1994) e que tem se dedicado a adaptações literárias em seus últimos trabalhos, do blockbuster de J.K Rowling, Harry Potter e o Cálice de Fogo (2005), aos clássicos de García Marquez e Dickens, O Amor nos Tempos do Cólera (2007) e Grandes Esperanças (2012). Agora, o cineasta tem em mãos uma obra de menor destaque, mas que tem na sua exaltação da importância da literatura o seu trunfo. Assim, como A Menina que Roubava Livros (2013), o seu A Sociedade Literária e a Torta de Casca de Batata (2018) defende o escapismo que a imaginação provocada pelas páginas de um livro pode ser o colete à prova de balas para sobreviver e arma necessária para resistir entre os horrores da guerra.

 

Tendo o desafio de adaptar um romance epistolar em uma narrativa composta de interações reais entre os personagens, Don Roos, Kevin Hood e Thomas Bezucha deixam como estopim da trama a troca de cartas entre o novo dono de um exemplar de Charles Lamb, o fazendeiro de porcos Dawsey Adams (Michiel Huisman), e a antiga dona Juliet Ashton (Lily James). Conhecer a curiosa origem da Sociedade Literária e a Torta de Casca de Batata de Guernsey, da qual ele participou e é apresentada logo na abertura, leva a jovem escritora de Londres para a ilha em busca de uma história que volte a instigar, mas encontra uma receptividade ao mesmo tempo atenciosa e receosa sobre um passado que não querem lembrar sobre a criadora de tudo isso, Elizabeth McKenna (Jessica Brown Findlay), não mais presente no lugar. O público acompanha com interesse a protagonista na sua busca para entender o que aconteceu com ela e seus amigos durante a ocupação nazista, relembrada nos flashbacks datados de 1943, enquanto todos, em 1946, ainda possuem as suas cicatrizes da guerra.

 

É através delas, inclusive, que Juliet encontra a familiaridade que ela perdeu na Londres bombardeada e Lily James, se especializando na escola Keira Knightley de filmes de época, a conduz com um talento e carisma genuínos que, cada vez mais, demonstra seu potencial para o estrelato. Longe de um roteiro ou direção revolucionários, mas que deixa brechas para pequenas subversões de clichês que tentam conferir mais força e independência a sua protagonista feminina – e exalando isso também na escolha de Anne Brontë para dar destaque entre tantos autores citados – e que encontra sustentação em um elenco coeso. A produção que, na realidade, tem a participação da Amazon junto com a franco-britânica Studiocanal, foi distribuída pela Netflix em alguns territórios, como os EUA e o Brasil, e traz para o seu catálogo aquele romance histórico com certa leveza, apesar do tema, que poderia passar batido entre tantos lançamentos no cinema, mas que ganham seu destaque através do serviço de streaming.

 

O romantismo escapista que o filme inspira é semelhante ao que Isola (Katherine Parkinson), uma das criadoras da tal Sociedade Literária e que se torna amiga de Juliet, busca nos romances clássicos. Mas é inevitável não pensar, depois de uma ótima cena em que ela expõe isso, o quanto falta ao gênero apostar no protagonismo destas personagens que representam uma parcela do seu público, a quem o amor só está destinado à imaginação.

A Sociedade Literária e a Torta de Casca de Batata (The Guernsey Literary and Potato Peel Pie Society, 2018)

Duração: 123 min | Classificação: 12 anos

Direção: Mike Newell

Roteiro: Don Roos, Kevin Hood e Thomas Bezucha, baseado no livro “A Sociedade Literária e a Torta de Casca de Batata” de Mary Ann Shaffer e Annie Barrows

Elenco: Lily James, Michiel Huisman, Jessica Brown Findlay, Katherine Parkinson, Penelope Wilton, Tom Courtenay, Glen Powell, Matthew Goode, Kit Connor e Florence Keen (veja + no IMDb)

Plataforma: Netflix (streaming)

 

 

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