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O BANQUETE | Um cardápio indigesto

13/09/2018

 

O primeiro plano de uma planta carnívora é o cartão de visitas para O Banquete (2018), novo filme de Daniela Thomas que, em seus 100 minutos de duração, põe relações em pratos limpos na mesa de jantar. A ocasião propícia é a comemoração, organizada pela mais que amiga Nora (Drica Moraes, a mais ácida deste cardápio), do aniversário de casamento do editor-chefe de sua revista, Mauro (Rodrigo Bolzan), e sua esposa, a atriz renomada Bia Moraes (Mariana Lima). Mas não bastasse o homenageado estar com a corda no pescoço, aterrorizado pela possibilidade de ser preso a qualquer momento por ter escrito uma carta aberta criticando o Presidente da República – no caso, Fernando Collor de Mello –, querem devorar “sua carne”, assim como a posição um do outro no jogo de poder que se estabelece, especialmente através de relações de gênero e sexuais, entre os convidados deste jantar indigesto, também vividos por Caco Ciocler, Fabiana Gugli, Gustavo Machado, Bruna Linzmeyer e Georgette Fadel, e o garçom interpretado por Chay Suede.

 

No entanto, qualquer semelhança não é mera coincidência e o fato de Otávio Frias Filho ter falecido justamente na véspera da exibição do longa no Festival de Gramado, em agosto passado, obrigou a cineasta a cancelar a sessão no evento – mas não adiar tanto o seu lançamento logo semanas depois, nesta quinta (13) – e evidenciou a sua inspiração no diretor de redação da Folha de S. Paulo, que também publicou uma carta aberta ao presidente Collor, em 1991. Filha do cartunista Ziraldo, Daniela afirmou ter se inspirado em sua própria experiência, ouvindo desde a infância as conversas ébrias e sem pudores de artistas e jornalistas em sua casa. Definido por ela como sua “tragicomédia de costumes”, O Banquete (2018) teve uma primeira versão para o teatro, há vinte anos, mas que não vingou, só conseguindo ser viabilizada pelo produtor Beto Amaral, seu parceiro no também polêmico Vazante (2017), e filmada em 2016.

 

O lançamento agora em 2018, porém enfrentou outro problema, não moral, mas artístico de timing. Sua estreia nem dois meses depois do britânico A Festa (2017), que ainda está em cartaz nos cinemas, gera no público que tenha visto as duas obras uma inevitável comparação com a encenação pontual e a trilha de jazz – no caso brasileiro, assinada pelo compositor e irmão da diretora Antônio Pinto –, ainda mais quando o filme de Sarah Polley consegue ser mais eficiente na transposição de uma história com DNA teatral – embora lá não tivesse origem, tinha o espírito pela proposta – de forma cinematográfica. Se o paralelo pessoal e político traçado através dos (estereó)tipos parece mais óbvio aqui, a sua construção é mais falha, sem extrair a crítica ao desencontro moral entre ações e discursos de figuras liberais – quanto ao comportamento e não à economia – que a tragicomédia inglesa faz tão sagazmente.

 

Uma das causas está na mise-en-scène limitadora de Thomas, em planos-sequências reduzidos à sala de jantar, indo excepcionalmente à cozinha e à porta da casa. Assim como a câmera do diretor de fotografia Inti Briones permanecendo trôpega desde o primeiro instante, antes mesmo de uma gota de álcool ser derramada, não gera mais efeito quando todos já estão completamente bêbados à mesa. Se a verborragia de uma história do tipo é um prato cheio para o elenco, que aqui teve a liberdade para criar nos ensaios e na filmagem, há certos exageros ou uma superficialidade do roteiro que atrapalha as interpretações mais afiadas e não aproxima o principal convidado: o público, que percebe que a junção de ingredientes saborosos não resulta em prazer, culinário ou cinematográfico, se eles não forem bem harmonizados.

O Banquete (2018)

Duração: 104 min | Classificação: 14 anos

Direção: Daniela Thomas

Roteiro: Daniela Thomas

Elenco: Drica Moraes, Rodrigo Bolzan, Mariana Lima, Caco Ciocler, Chay Suede, Fabiana Gugli, Gustavo Machado, Bruna Linzmeyer e Georgette Fadel (veja + no IMDb)

Distribuição: Imovision

 

 

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