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PARA SEMPRE CHAPE | Dores e glórias

09/08/2018

 

Em um país que não sofre de maneira tão drástica com as intempéries naturais quanto outros, a exemplo do vizinho Chile e seus terremotos, os acidentes aéreos acabam marcando grande parte das tragédias coletivas no Brasil. Um caso recente que continha elementos capazes de provocar uma comoção nacional ainda maior do que o comum, na terra de Santos Dumont, foi o da queda do avião da Chapecoense, na madrugada de 29 de novembro de 2016, perto de Medellín, na Colômbia, onde o time de futebol catarinense disputaria a sua primeira final internacional, a da Copa Sulamericana. A nação que tem este esporte como sua maior paixão sentia, pela primeira vez, uma perda desse tamanho, justamente com um clube pelo qual torcedores até de outras equipes criaram simpatia na sua jornada meteórica de ascensão no cenário brasileiro e sul-americano.

 

Menos de dois anos após o ocorrido, o documentário Para Sempre Chape (2018), do uruguaio Luis Ara, vem para remontar esta história de vitórias e dores do jovem clube, mas com as feridas ainda abertas. Um exemplo é como a produção provocou polêmica antes do lançamento, com a exibição de seu trailer nos cinemas, sem a ciência da associação de parentes das vítimas e o consentimento da Chapecoense, fazendo que a última rescindisse o contrato com a produtora e o caso fosse para a Justiça, adiando o lançamento do longa – mais detalhes na matéria do GloboEsporte.com. Se você está se perguntando como os familiares não sabiam da existência do filme, assistir ao filme e ver que apenas Sirli Freitas, a esposa do assessor de imprensa do time Cléberson Silva, uma das 71 vítimas do acidente, é a única a preencher esta função dentre os depoimentos coletados.

 

Apesar de entrevistar todos os sobreviventes brasileiros, o jornalista Rafael Henzel e os jogadores Alan Ruschel, Jackson Follmann e Neto, e vários dirigentes do clube, a escolha pontual de outros depoentes e/ou personagens em outras funções acaba restringindo a obra, pois Ara não consegue transformar esse olhar individual em uma visão do todo. Intercalando belas imagens em steady cams ou drones sobre a Arena Condá com entrevistas convencionais in loco ou em frente a um fundo preto, o filme apresenta falhas pontuais que não prejudicam o seu conjunto tanto quanto essa superficialidade. Alguns exemplos desses deslizes estão na montagem que, apesar de ter cartelas redundantes, repetindo o que já foi dito na fala dos entrevistados ou nos recortes de jornal destacados pelo grafismo, traz um GC identificando só alguns dos jogadores vitimados que aparecem no material de arquivo e esquecendo tantos outros; ou no momento em que se fala da defesa histórica do goleiro Danilo, também vitimado no acidente, na semifinal daquela Sulamericana, mas não se tem imagens da transmissão da partida para ilustrar a jogada – seria uma questão de direitos de imagem, apesar do longa contar com material essencialmente da Chape TV e um pouco da Globo, SporTV e emissoras colombianas?

 

Contudo, naquilo que está ao alcance da produção, ela pouco se esforça para ir além do que já foi visto nas matérias jornalísticas na televisão. Retratando com certo formalismo a trajetória surpreendente do clube fundado em 1973, que, dentro de apenas cinco anos, conseguiu subir da Série D para a Série A do Campeonato Brasileiro, que passou a disputar desde 2014, e, em tão pouco tempo, já disputar um título internacional, Ara constrói uma discreta dramatização da cabine do avião da companhia boliviana Lamia e da torre de controle em Medellín acompanhando o relato da controladora de voo, dando um novo fôlego ao filme à medida que o próprio conteúdo se intensifica. O diretor acerta na significativa tomada da cidade de Chapecó sob intensa chuva como tradução do sentimento geral e conta com imagens já conhecidas que são emocionantes por si só, a exemplo das magníficas demonstrações de solidariedade da mãe do Danilo, Dona Ilaídes, com o repórter Guido Nunes que a entrevistava no SporTV, e do povo colombiano com o brasileiro na homenagem realizada no estádio do antes adversário no campo, Atlético Nacional, enquanto finaliza com a superação dos sobreviventes.

 

No entanto, o uruguaio perde a oportunidade de transmitir narrativa e visualmente o envolvimento da pequena cidade catarinense com o time da Chapecoense, por conta do distanciamento de sua abordagem, que escolhe apenas um torcedor como representante e traz um breve “povo fala” perto do final em vez de acompanhar os torcedores e entender este sentimento quase familiar. De certo que Para Sempre Chape mexe com as feridas abertas também no público que o assistir, mas dentre tanto que já se viu na TV, retirando todo o sensacionalismo, o espectador encontra reportagens mais humanas sobre o tema. Ao final, fica igualmente a frustração ao não encontrar no documentário algo de novo que ajude a cicatrizar esta chaga coletiva, porém a sua lembrança de um caso que não pode ser esquecido enquanto os culpados não sejam responsabilizados.

Para Sempre Chape (2018)

Duração: 74 min | Classificação: Livre

Direção: Luis Ara

Roteiro: Luis Ara

Produção: Trailer Films

Distribuição: Arcoplex Cinemas / Espaço Filmes

 

 

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