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O NOME DA MORTE | Entre a cruz e a bala

03/08/2018

 

Talvez, não haja profissional neste país mais eficiente em sua função do que Júlio Santana, com seus 492 “casos” concluídos, pelo pouco que se sabe de sua área que, ao mesmo tempo, é tão escondida e escancarada na realidade brasileira. O número, na verdade, é de mortes que o pistoleiro mais letal que se tem notícia por aqui, retratado pelo jornalista Klester Cavalcanti em seu livro que tem o mesmo nome de sua adaptação cinematográfica, O Nome da Morte (2017), de Henrique Goldman. O diretor brasileiro radicado no Reino Unido mais uma vez trabalha com uma história pessoal real para traçar um panorama de Brasis esquecidos, como fez com os imigrantes em Londres no filme Jean Charles (2009).

 

No novo longa, Marco Pigossi vive este sujeito que veio ainda rapaz do interior, onde não demonstrava talento para ajudar o pai e os irmãos na borracharia ou para cuidar da terra, junto com o tio Cícero (André Mattos, excelente no pragmatismo e cinismo de seu personagem) com a promessa de um futuro na polícia. No entanto, logo ao chegar à cidade, Júlio percebe que essa não era a intenção do parente policial, que avisa não haver concurso tão cedo, mas oferece ao sobrinho bom de mira um “emprego” em seu “bico” de matador de aluguel. Ele acaba aceitando o serviço e, com várias mortes acumuladas em anos de ofício, só foi preso em uma ocasião, quando ficou apenas uma noite na cadeia.

 

A conivência e corrupção policial estampada na tela, assim como a maneira como Cavalcanti foi colocado em contato com Santana, mostram essa normalização da pistolagem no cotidiano brasileiro. Na coletiva de imprensa de divulgação do filme em São Paulo, no último dia 25, o jornalista contou que, durante uma reportagem investigativa sobre escravidão em fazendas no Maranhão, se interessou em saber mais dos assassinos de aluguel que atuavam na região, ajudando a manter, através da ameaça e morte de parentes, os trabalhadores neste regime. “Um policial federal me ligou, me passou um telefone e falou ‘ligue em tal dia, tal hora, você vai falar com um pistoleiro’. Eu achando que é um telefone de uma delegacia ou de um presídio; não, era um telefone público que, depois fui vir a saber, era na frente de uma padaria em Porto Franco, onde o Júlio vivia no Maranhão. Ou seja, o policial federal não achou estranho dar ao jornalista o telefone de um assassino que tá solto”, relembrou Klester que, por anos, conversou com o matador por telefonemas que fazia, uma vez por mês. O roteiro de Goldman e George Moura, autor que explorou essa corrupção e violência sistêmica e rotineira, recentemente, com a “supersérie” Onde Nascem os Fortes (2018) na TV, não aprofunda esses temas, mas a escolha acaba reforçando essa ideia de normalização que contribui na contextualização deste estudo de personagem.

 

Se Pigossi chega a enxergar, às vezes, seu protagonista como uma vítima, massa de manobra e resultado da falta de educação e cultura na nossa sociedade, Goldman frisou que seu interesse era trabalhar “até onde vai a responsabilidade e onde começa a responsabilidade do indivíduo”. Assim, ambos desenvolvem um Júlio em todas as suas ambiguidades, como um jovem levado pelas circunstâncias até ver tudo degringolar, a ponto de mentir para Maria (Fabiula Nascimento), que viria a ser a sua esposa; tal qual um excelente pai de família, que não tem pudor em matar qualquer um, inclusive mulheres negras e índias, como apontam algumas cenas, entre algumas das elipses que usam a contagem de assassinatos dele para situar as passagens de tempo da narrativa. Em seu primeiro longa, o ator, que não conheceu o pistoleiro da vida real, construiu o papel com o que pegou do livro e o que vinha dele mesmo, embora Marco também afirme que, com o tempo, foi “entendendo que este personagem era mais de desconstrução do que de construção; desconstrução de absolutamente tudo: dos conceitos morais que a gente tem, de culpa, apesar dele carregar muita culpa”.

 

Os dilemas morais do protagonista, aliás, são delineados pela sua dúvida entre dois senhores: o dinheiro, que entra fácil e resolve os problemas cotidianos, ou Deus, a quem estaria indo contra a Sua Vontade. No sincretismo religioso brasileiro retratado no longa, as imagens e procissões católicas simbolizam e relembram a culpa que o atormenta, o tio inescrupuloso usa a guia de religiões afro como proteção ao ir para o “serviço” e o culto neopentecostal surge como a chance de uma família expiar os seus pecados unindo seus desejos materiais e espirituais em “um só Senhor”. Contudo, neste último caso, o filme acaba recorrendo a caracterizações a partir de estereótipos, em um momento em que os saltos temporais passam a prejudicar o desenvolvimento dos personagens.

 

É nesta mesma virada que a figura da esposa começa a ficar mais interessante, já que ela, como diz a própria intérprete Fabiula, é “muito blocada, vai mudando rapidamente, e o Henrique queria que cada uma fosse uma Maria”. Mas quando o público vislumbra quem é esta nova Maria, de visual e moral diferentes de antes, a personagem é sacrificada em seu desenvolvimento por outro plot twist da trama, apesar de Nascimento manter a crescente na intensidade de sua atuação. Os atalhos não prejudicam a narrativa, que é bem conduzida na direção de Goldman que equilibra a tensão de um thriller com os silêncios no drama de seu protagonista; só minam o seu potencial.

 

Com uma trilha sonora assinada por ninguém menos que Brian Eno e a fotografia de Azul Serra, que além de captar as belezas naturais do Jalapão, traça os dilemas morais de Júlio e Maria no jogo de luz e sombra de seu chiaroescuro, o filme não deixa explícito que a sua trama se passa no Tocantins, entre a região e a capital Palmas, tal qual exatamente o período que a história abrange. É claro que alguns cenários já não são tão estranhos do grande público, devido à última novela das nove os tornarem mais conhecidos, mas a escolha também traz à história um ar universal de que ela poderia se passar em qualquer lugar do interior ou sertão no Brasil, onde qualquer problema ou desafeto é resolvido na bala.

 

Porém, engana-se quem acredita que isso é exclusividade desses lugares, como explica Klester: “A gente cai muito no erro de achar que este mundo que vocês viram no filme só acontece no interiorzão bravo. Não, não é. Marielle (Franco, assassinada em março passado) é um caso clássico de pistolagem. Celso Daniel, prefeito de Santo André, cidade da Grande São Paulo, caso clássico de pistolagem. Isso acontece todo dia no Brasil nas grandes cidades. O Júlio Santana, no livro isso fica mais claro, matou gente no Brasil inteiro, inclusive em cidades grandes, como São Paulo e Curitiba, por exemplo. Então, assim, essa questão da pistolagem e da impunidade é muito atual e eu acho que o filme vai cumprir essa missão, vai trazer esse assunto à tona, essa discussão”.

 

O jornalista Klester Cavalcanti, a atriz Fabiula Nascimento, o ator Marco Pigossi e o diretor Henrique Goldman na coletiva de imprensa do filme O Nome da Morte, em São Paulo

O Nome da Morte (2017)

Duração: 98 min | Classificação: 16 anos

Direção: Henrique Goldman

Roteiro: Henrique Goldman e George Moura, baseado no livro “O Nome da Morte” de Klester Cavalcanti

Elenco: Marco Pigossi, André Mattos, Fabiula Nascimento, Augusto Madeira, Matheus Nachtergaele, Martha Nowill, Marie Paquim, Tony Tornado e Gillray Coutinho (veja + no IMDb)

Distribuição: Imagem Filmes

 

 

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