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ALGUMA COISA ASSIM | Amor, amizade e tudo que existe entre eles

29/07/2018

 

Não é novidade no cinema brasileiro o sucesso de um curta-metragem motivar a produção de um longa-metragem e a dobradinha Eu Não Quero Voltar Sozinho (2010) / Hoje Eu Quero Voltar Sozinho (2014) está aí para provar. Do mesmo jeito, em Hollywood, Richard Linklater já usou a evolução humana e de suas relações como motor de seus projetos, na trilogia Antes do Amanhecer e nos 11 anos de filmagem de Boyhood (2014). Esses exemplos são óbvios na comparação que Alguma Coisa Assim (2017) gera em sua proposta, seja pela abordagem da sexualidade como os compatriotas ou na estrutura de filmagem do cineasta norte-americano para observar o desenvolvimento de um relacionamento e das pessoas ao longo dos anos, mas o filme de Esmir Filho e Mariana Bastos mantém algo genuíno nessa mistura, que é muito mais sensível ao público do que necessariamente aos realizadores, que não tiverem essas obras como referência.

 

Os diretores e roteiristas partem, e aproveitam boa parte do material, do curta homônimo deles, premiado no Festival de Cannes em 2006, ao voltarem a observar a relação dos amigos Mari (Caroline Abras) e Caio (André Antunes). Assim, fazem um coming of age da juventude para a vida adulta que acompanha o reencontro da dupla em 2013 – que seria utilizado em um segundo curta, que não chegou a ser finalizado, segundo Esmir –, ainda em São Paulo, e 2016, em Berlim. Foi justamente no prestigiado festival da capital alemã que a coprodução Brasil-Alemanha estreou, além de ser exibido no Festival do Rio, antes de entrar no circuito nesta quinta (26).

 

No último dia 20, os diretores e os atores Caroline Abras e André Antunes explicaram este processo de feitura do filme, em uma coletiva de imprensa em São Paulo. “Eu e o Esmir, a gente se conheceu na faculdade. Antes de qualquer coisa, nós nos aproximamos como amigos, mas a convivência do dia-a-dia foi fazendo com que a gente tivesse uma relação mais forte. Começou com o Alguma Coisa Assim (2006), no roteiro, e ele me convidou pra participar do curta e, aí, foi quando, digamos, a mágica começou a acontecer”, contou Mariana sobre a relação de amizade e profissionalismo entre os dois, em que cada um tem a sua carreira, mas, às vezes, um codirige o trabalho do outro. Esmir relembrou que eles faziam algumas brincadeiras como “Vamos pedir o mesmo prato” e se esforçavam para lerem os e-mails juntos e se entrosarem quando mais próximo das filmagens. Para Bastos, essa sintonia de amigos, em que é divertido estar junto, trouxe muita maturidade profissional para ambos e os ajudou a afinar as decisões, primeiro entre eles, a fim de serem uma voz única para a equipe.

 

Conferir unidade ao longa com materiais provenientes de momentos tão diferentes também exigiu essa sincronia da amizade para a montagem. Segundo Mariana, foi “a coisa mais desafiadora do filme, além de trazer o André (Antunes) de volta”, brinca, pois eles precisavam decidir o que iam utilizar: se aquilo já finalizado no curta ou iriam pegar algo do material bruto, por exemplo. Houve um processo de pré-montagem realizado pela Sabrina Wilkins durante as filmagens, mas quando Caroline Leone, amiga deles e montadora de vários trabalhos de Esmir, inclusive o curta original – além de diretora do sensível Pela Janela (2017), pelo qual deu entrevista ao Nervos –, entrou no projeto, propôs começar tudo de novo. O diretor exemplifica que a produção começava com a última cena, algo que Leone, com um olhar fresco para tudo aquilo, já mudou em favor do desenvolvimento dos personagens.

 

Esse processo de construção e desconstrução dos protagonistas foi sinalizado também pela edição de som, em uma “costura sonora” proposta pelos cineastas e que se comunica com o cenário da música industrial que ambos encontraram em uma viagem de pesquisa em Berlim. Os diretores, que já tinham uma relação pessoal com a cidade alemã, encontraram uma relação musical no que ouviram ali com a música eletrônica em São Paulo retratada em 2006. Esmir afirma que, pensando nisso, eles imaginaram em chamar alguém da Alemanha para compor a trilha sonora, mas enxergaram em Lucas Santtana alguém que “simbolizava o encontro entre São Paulo e Berlim”.

 

O correr do tempo agiu igualmente sobre a equipe da produção, como descreveu Caroline Abras. “Autoanálises aconteceram, porque esbarravam diretamente nas minhas próprias escolhas, evoluindo ou retrocedendo”, disse a atriz, recordando os momentos iniciais, quando filmar parecia uma brincadeira entre eles e não se imaginava que iria acarretar em carreiras profissionais como a que têm hoje. Uma evolução que se reflete até na maneira como a que o longa aborda certas temáticas, como a do aborto.

 

O reencontro entre Mari e Caio na trama amplifica os questionamentos sobre sexualidade, agora com o rapaz, em tese, certo de sua homossexualidade, enquanto a moça continua balançada toda vez que se aproxima do amigo, como já era subentendido no curta. Há uma escolha um pouco covarde de usar o entorpecimento como subterfúgio para que ele quebre a barreira da amizade, assim como a obra depende muito da identificação de cada espectador com alguns elementos da história ou no estilo de vida baladeira, já que o roteiro constrói os protagonistas apenas sobre um prisma emocional e amoroso – como ela chegou em Berlim é um dos questionamentos que pode passar pela cabeça, por exemplo. No entanto, é na excelente atuação de Abras que o público encontra o sentimento mais genuíno de Alguma Coisa Assim, naquilo que está internalizado por sua personagem, entre uma amizade que lhe obriga a ser solidária, enquanto o amor a corrói.

 

André Antunes, Caroline Abras, Mariana Bastos e Esmir Filho na coletiva de imprensa de Alguma Coisa Assim (2018)

Alguma Coisa Assim (2017)

Duração: 80 min | Classificação: 16 anos

Direção: Esmir Filho e Mariana Bastos

Roteiro: Mariana Bastos e Esmir Filho

Elenco: Caroline Abras, André Antunes, Clemens Schick, Knut Berger, Juliane Elting, Lígia Cortez, Vera Holtz e Bruno Stierli (veja + no IMDb)

Distribuição: Vitrine Filmes

 

 

 

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