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MISSÃO: IMPOSSÍVEL | Tom Cruise versus o Efeito Fallout (ou Ethan Hunt sobreviveria no Brasil?)

28/07/2018

*Para os sensíveis a spoilers, o texto pode conter traços das tramas dos filmes anteriores da franquia

 

Em determinado momento de Missão: Impossível – Efeito Fallout (2018), um personagem questiona: “Quantas vezes o governo de Hunt o traiu, o desautorizou e o abandonou? Quanto tempo um homem como ele aguenta?”. Desde que perdeu a numeração nos títulos, o público pode até perder as contas, às vezes, mas este já é o sexto longa da série cinematográfica estrelada por Tom Cruise, em que, mais uma vez, o protagonista Ethan Hunt é convocado pela agência fictícia de espionagem norte-americana IMF (Impossible Mission Force), desacreditado pela mesma durante a missão e tem de provar a sua inocência desvendando alguma organização criminosa ou esquema vilanesco de risco global. Se, em um primeiro momento, a repetição da fórmula poderia soar cansativa, como a franquia consegue se superar a cada capítulo e entregar agora o seu melhor filme?

 

Vinte dois anos atrás, quando Missão: Impossível (1996) foi aos cinemas, adaptando, três décadas depois, a série televisiva Missão Impossível (1966-73), talvez não se imaginasse um futuro tão longevo para a cinessérie. Porém, com a assinatura de ninguém menos do que Brian De Palma, do clássico Scarface (1983), na direção, o longa não entregou somente a cena mais icônica da franquia – sim, a imagem de Tom Cruise pendurado, tentando não encostar no chão e acionar o alarme da sala do cofre do FBI é daquelas que qualquer pessoa que não tenha assistido tal filme, ao menos sabe de qual se está falando. A produção definiu essa estrutura e elementos, a exemplo das mensagens autodestrutivas e das máscaras, que iriam compor todo o universo das histórias seguintes.

 

 

A sequência Missão: Impossível 2 (2000) não chega a ser uma exceção, mas pode ser considerada o maior deslize – e o capítulo mais datado – da série, justamente pela imposição do estilo do novo diretor, o chinês John Woo, sobre a atmosfera do produto que tinha em mãos. Vindo de sucessos em Hollywood, como A Outra Face (1997), o cineasta torna Ethan Hunt cada vez mais acrobata e põe Cruise para atacar com golpes de kung fu, em escolha que dão mais intensidade à ação da produção, mas que também a deixam mais destoante. Para “ajudar”, o desenvolvimento dos personagens é tão rasteiro quanto o texto.

 

 

Seguir para uma terceira história, portanto, foi uma tarefa difícil e que levou a várias entradas e saídas de diretores e atores, como David Fincher e Scarlett Johansson, do projeto, por diferenças criativas e problemas de agenda. O atraso da produção acabou trazendo J.J. Abrams para a direção de Missão: Impossível 3 (2006), após Tom assistir as duas primeiras temporadas da série de espionagem Alias (2001-06). O realizador deu um tom urgente e mais “pé no chão” ao filme, frente à espetacularização do anterior, humanizando o protagonista, com Hunt fora do trabalho de campo, ficando noivo de Julia (Michelle Monaghan) e todo protetor de sua primeira aluna, a agente Farris (Keri Russell) – além de ter um dos melhores vilões que enfrentaram a IMF, com um soberbo e assustador Philip Seymour Hoffman na pele de Owen Davian, apesar dos buracos do roteiro.

 

 

Apesar da boa impressão que o terceiro longa deixou no público e na crítica, a bilheteria foi menor do que as anteriores, enquanto Tom Cruise estava sob os holofotes da mídia, seja pelo relacionamento com Katie Holmes ou pelas controvérsias da Cientologia, seita da qual faz parte. Por muito tempo, pairou-se a dúvida se M:i:III seria o encerramento decente de uma trilogia ou se a franquia teria forças para seguir em frente, mas, embora não se percebesse na época, a entrada de J.J. Abrams deu um novo rumo para a história de Ethan Hunt que seria muito benéfico nos capítulos seguintes, em que ele permaneceu apenas na produção. Depois de cinco anos de espera, chegou Missão: Impossível – Protocolo Fantasma (2011), sob a direção de Brad Bird, de Os Incríveis (2004), fazendo a sua estreia em live action em grande estilo: colocando Cruise para escalar o Burj Khalifa, o maior prédio do mundo, em Dubai, o cineasta conseguiu dosar a ação de seu astro com os dramas pessoais dos personagens e acertar na dose de humor com o Benji Dunn de Simon Pegg sendo alçado à coadjuvante ao lado de Jeremy Renner entrando muito bem na trama como William Brandt – e a única produção em que seu fiel companheiro Luther (Ving Rhames) faz apenas uma participação.

 

 

O entretenimento em IMAX rendeu bons resultados de bilheteria – por enquanto, é a maior da série mundialmente – e acelerou a produção de um quinto filme, baseado em uma pista do final do quarto capítulo, a de uma organização secreta chamada “Sindicato”, que visa desestabilizar o sistema da qual seus integrantes, ex-agentes de segurança de vários países, faziam parte. Comprovar a existência dela e sua própria inocência nos atentados por ela provocados é a Missão: Impossível – Nação Secreta (2015) da vez para Hunt, que já começa a história pendurado em um avião. Com Christopher McQuarrie, que já tinha colaborado no roteiro do anterior, à frente do longa, a superprodução continua a esbanjar em seus cenários multinacionais, mas tem os pés fincados em uma narrativa mais elaborada na relação do protagonista com a dúbia Ilsa Faust (Rebecca Ferguson), agente desligada do serviço secreto britânico, além de uma homenagem aos clássicos do gênero e a referência a O Homem que Sabia Demais (1956), de Alfred Hitchcock, com a sequência na ópera de Viena.

 

 

A excelente recepção do público e da crítica deu a certeza de que uma sexta missão teria de vir logo e Missão: Impossível – Efeito Fallout chega aos cinemas, nesta semana, já se estabelecendo como a melhor delas – além de ter o status de ser a primeira produção da série a ser lançada em 3D, que funciona bem e deve adicionar mais alguns trocados na bilheteria. Novamente diretor e roteirista, McQuarrie não só aproveita e expande na tela os limites da capacidade de Cruise como astro de ação como constrói o filme mais pessoal da franquia ao levar o passado de Ethan Hunt como motor da trama. Não só Luther e Benji continuam como seus fiéis escudeiros em uma nova cruzada contra os apóstolos de Solomon Lane (Sean Harris, fazendo dele outro vilão icônico deste universo), que vem do quinto longa para assombrá-lo, assim como Ilsa volta para o seu caminho, o bem-estar de sua ex-mulher Julia torna a preocupá-lo e Alec Baldwin retorna como o agora Secretário Alan Hunley, enquanto o agente da CIA August Walker (o “Superman” Henry Cavill, justificando o bigode da discórdia com o papel e sua atuação) entra para ser uma pedra no sapato dele.

 

 

Não que seja imprescindível ao espectador ter assistido aos anteriores para entender a trama, pois o roteiro esclarece algumas relações, porém, ao (re)vê-los, o público tem a clara noção da evolução da série e o desenvolvimento das personagens femininas, geralmente deixadas de lado em favor de sua estrela, é um exemplo disso. Se no primeiro Missão: Impossível, De Palma conferia uma sensualidade perigosa à Claire (a francesa Emmanuelle Béart) na atração subentendida entre ela e Hunt, sem expandir as motivações dela, Woo retrocede em M:i:II, seja na forma como Nyah Nordoff-Hall (Thandie Newton sem ter muito o que fazer com aquele papel) serve de joguete entre o protagonista e o vilão ou nos diálogos depreciativos às mulheres. J.J. Abrams apazigua a situação em M:i:III, entretanto, a Julie de Monaghan faz as vezes da donzela em perigo, a novata agente Farris de Russell é morta logo no início do longa e Zhen Lei (Maggie Q) não ultrapassa a barreira de assistente; Bird melhora a situação em Protocolo Fantasma com Paula Patton fazendo uma Jane forte, que trava um bom embate com Léa Seydoux na pele da assassina Sabine Moreau, mas que ainda serve como “isca sexual” em uma das ações do time da IMF. Só com McQuarrie, aparece a Ilsa de Rebecca Ferguson, uma mulher para fazer frente à Hunt – na realidade, o superar na perseguição de moto e evitar mata-lo por diversas vezes em Nação Secreta – e, apesar de despertar o seu interesse, não depender dele para sobreviver nesses dois últimos filmes – no último, até Julie ganha mais força como personagem, apesar da breve participação.

 

 

Neste mesmo sentido, até Ethan Hunt melhorou como protagonista, pois, por mais que a sua infalibilidade não seja questionada quando Walker pergunta “Quanto tempo um homem como ele aguenta?” e suas ações se tornaram mais grandiosas, o personagem foi ganhando mais humanidade no decorrer das produções e, na ação realizada pelo próprio ator, mostrando o esforço e o cansaço dele com o tempo. A chegada de BourneIdentidade Bourne é de 2002 e Supremacia Bourne, de 2004 – revolucionando o gênero com a sua urgência na câmera da mão e senso de realidade pungente modificou os rumos da franquia 007, que é referência desde sua origem na série de TV Missão Impossível, na década de 60. Daniel Craig constrói um James Bond mais crível e sério a partir do excelente 007: Cassino Royale (2006), mesmo ano em que M:i:III traça este novo caminho para sua cinessérie.

 

 

Mantendo seus elementos peculiares como o uso das máscaras de forma nostálgica e até cômica – vide a fala da presidente da CIA Erica Sloan (Angela Bassett) agora em Fallout, dizendo que a IMF é um Halloween –, mas sempre de forma eficiente na narrativa, que faz o público sempre duvidar mais um pouco no que está vendo do que já é comum em um filme de espionagem, Missão: Impossível se diferenciou também em outro aspecto. Se Bond tem todo um aparato e apoio do Estado, como agente do britânico MI6, mas age sozinho, enquanto Bourne só tem a ele mesmo em quem confiar contra as constantes perseguições que sofre do governo norte-americano que o abandonou, Hunt se tornou mais poderoso quando o trabalho em equipe foi reforçado ao longo das últimas tramas. Este sexto capítulo, contudo, ganha um realismo inesperado e inédito, quando a sua premissa de terrorismo global, calcado em um descontentamento com o sistema vigente e que busca a paz através do sofrimento, tentando unir as religiões, parece ser a menos impossível da franquia em uma atualidade cada vez mais inverossímil.

 

 

Essa grandiosidade do protagonista, porém, só se sustenta na força do estrelato de Tom Cruise que, aos poucos, foi sobrepujando seus problemas de imagem pessoal da década passada para novamente trazer o seu perfil de bom moço de maneira benéfica ao personagem que tem grandes dilemas morais ao desperdiçar uma vida humana ao favor de um bem comum, como se manifesta logo na abertura de Fallout. Quem diria, também, que o orçamento reduzido da primeira adaptação, lá em 1996, obrigaria o ator a fazer muitas das cenas do longa de Brian De Palma no lugar de dublês e, a partir de então, o tornaria no astro de ação que, cada vez mais, se arrisca em cena. McQuarrie, que já havia trabalhado com ele em Jack Reacher: O Último Tiro (2012), soube aproveitar este ímpeto incontrolável dele em favor da narrativa, como na incrível sequência deste sexto filme em que Tom realmente pilota um helicóptero em uma perseguição aérea entre vales e montanhas, com direito a descidas em espiral – e não torna isso em um exagero como acontece com as proporções cada vez maiores de Velozes e Furiosos, que saltou de carros para submarinos.

 

 

No entanto, esta última produção teve sete semanas de pausa por conta da lesão no tornozelo direito dele, na cena, que foi deixada no corte final, do ator principal pulando de um prédio a outro em Londres. É aí que a questão Quanto tempo um homem como ele aguenta? faz sentido, se for levado em conta que Cruise já está com 56 anos, mesmo que mais inteiro do que nós – pode ter certeza que ele sai menos cansado do que os jovens espectadores da sessão de Efeito Fallout, com seus tensos 147 minutos de duração. Essas duas horas e meia, porém, são tão recompensadoras como um filme de ação que entretém, causa apreensão e guarda um genuíno carinho pelos seus personagens, que é inevitável pensar no futuro da franquia. Embora Liam Neeson esteja aí para provar que ação não tem idade, Tom continuaria se arriscando tanto em um próximo filme, que é muito possível se as bilheterias confirmarem a reputação que a obra vem ganhando; ou recorreria mais aos dublês e efeitos especiais, tirando a verdade que adquiriu nestes anos, ou poderia aproveitar sua idade como um trunfo narrativo, a exemplo de Logan (2017)?

 

Difícil saber agora, enquanto a única confirmação é a de que Tom Cruise voltará a pilotar caças em um novo Top Gun: Maverick (2019), que está em processo de filmagem, mas Efeito Fallout me fez imaginar se Ethan Hunt conseguiria cumprir uma missão impossível no Brasil... Ele conseguiria encontrar um orelhão funcionando ou sinal de celular e fazer uma ligação para uma linha segura? O pacote com as mensagens ultrassecretas e autodestrutivas seria entregue a tempo pelos Correios ou ficaria preso em Curitiba? Será que se perderia nas vielas dos morros cariocas? Suas famosas perseguições de carro, já frustradas pelo trânsito indiano, seriam possíveis nas ruas esburacadas de São Paulo e tantas outras metrópoles brasileiras no horário de pico? Conseguiria fazer as transferências das estações Paulista e Pinheiros do metrô em tempo recorde, às cinco ou seis da tarde de um dia útil? À pé, poderia correr pela Avenida Paulista sem ser atrapalhado por entregadores de folhetos, voluntários de ONG’s, palhaços e etc.?

 

Imaginação à parte, são justamente essas nossas pequenas missões impossíveis, que regem a correria do nosso dia-a-dia, que alimentam o interesse contínuo do público em ver Tom Cruise fazendo o seu possível extraordinário no cinema.

Missão: Impossível (Mission: Impossible, 1996)

Duração: 110 min | Classificação: 12 anos

Direção: Brian De Palma

Roteiro: David Koepp e Robert Towne, com argumento de David Koepp e Steven Zaillian, baseado na série “Missão Impossível” de Bruce Geller

Elenco: Tom Cruise, Jon Voight, Emmanuelle Béart, Henry Czerny, Jean Reno, Ving Rhames, Kristin Scott Thomas, e Vanessa Redgrave (veja + no IMDb)

Distribuição: Paramount Pictures

 

Missão: Impossível 2 (Mission: Impossible II, 2000)

Duração: 123 min| Classificação: 12 anos

Direção: John Woo

Roteiro: Robert Towne, com argumento de Ronald D. Moore e Brannon Braga, baseado na série “Missão Impossível” de Bruce Geller

Elenco: Tom Cruise, Dougray Scott, Thandie Newton, Ving Rhames, Richard Roxburgh, John Polson, Brendan Gleeson, Brendan Gleeson e Rade Serbedzija (veja + no IMDb)

Distribuição: Paramount Pictures

 

Missão: Impossível 3 (Mission: Impossible III, 2006)

Duração: 126 min | Classificação: 12 anos

Direção: J.J. Abrams

Roteiro: Alex Kurtzman, Roberto Orci e J.J. Abrams, baseado na série “Missão Impossível” de Bruce Geller

Elenco: Tom Cruise, Michelle Monaghan, Philip Seymour Hoffman, Ving Rhames, Billy Crudup, Jonathan Rhys Meyers, Keri Russell, Maggie Q, Simon Pegg, Eddie Marsan e Laurence Fishburne (veja + no IMDb)

Distribuição: Paramount Pictures

 

Missão: Impossível – Protocolo Fantasma (Mission: Impossible – Ghost Protocol, 2011)

Duração: 132 min | Classificação: 14 anos

Direção: Brad Bird

Roteiro: Josh Appelbaum e André Nemec, baseado na série “Missão Impossível” de Bruce Geller

Elenco: Tom Cruise, Jeremy Renner, Simon Pegg, Paula Patton, Michael Nyqvist, Anil Kapoor, Léa Seydoux e Josh Holloway (veja + no IMDb)

Distribuição: Paramount Pictures

 

Missão: Impossível – Nação Secreta (Mission: Impossible – Rogue Nation, 2015)

Duração: 131 min | Classificação: 12 anos

Direção: Christopher McQuarrie

Roteiro: Christopher McQuarrie, com argumento de Christopher McQuarrie e Drew Pearce, baseado na série “Missão Impossível” de Bruce Geller

Elenco: Tom Cruise, Rebecca Ferguson, Jeremy Renner, Simon Pegg, Ving Rhames, Sean Harris, Simon McBurney, Jingchu Zhang, Tom Hollander, Jens Hultén e Alec Baldwin (veja + no IMDb)

Distribuição: Paramount Pictures

 

Missão: Impossível – Efeito Fallout (Mission: Impossible – Fallout, 2018)

Duração: 147 min | Classificação: 14 anos

Direção: Christopher McQuarrie

Roteiro: Christopher McQuarrie, baseado na série “Missão Impossível” de Bruce Geller

Elenco: Tom Cruise, Henry Cavill, Ving Rhames, Simon Pegg, Rebecca Ferguson, Sean Harris, Angela Bassett, Vanessa Kirby, Michelle Monaghan, Wes Bentley e Alec Baldwin (veja + no IMDb)

Distribuição: Paramount Pictures

 

 

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