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RÉQUIEM PARA A SRA. J | Réquiem para um país

23/05/2018

 

Apesar de ser, tecnicamente, uma coprodução europeia entre Sérvia, Búlgaria, Macedônia, Rússia e França, o representante sérvio na última corrida para o Oscar de Melhor Filme Estrangeiro encontra mesmo a sua voz como um típico exemplar deste cinema contemporâneo dos Balcãs. Há, em Réquiem Para a Sra. J (2017), o tempo próprio do Leste Europeu e um humor negro peculiar, capaz de criticar o absurdo de suas mazelas comuns, como a burocracia, de modo agridoce em seu aparente minimalismo. E se, guardada suas particularidades regionais, a cinematografia romena foi a primeira a despontar para o público brasileiro com estas características nos últimos anos, a partir da New Wave ou Nouvelle Vague Romena iniciada por nomes como Cristi Puiu, de A Morte do Sr. Lazarescu (2005) e Sieranevada (2016), e o cinema búlgaro tem mostrado sua cara no circuito nacional com as obras da dupla Kristina Grozeva e Petar Valchanov, de A Lição (2014) e Glory (2016), a produção sérvia começa a despertar a atenção dos cinéfilos, até porque há uma ressonância de cenário, problemas e discursos de lá quando vistos por uma plateia daqui.

 

Exibido no Festival de Berlim do ano passado e também no Brasil, na programação do Indie 2017, o longa de Bojan Vuletić pode até não ter a excentricidade escancarada da história do maquinista que se angustiava por ainda não ter matado ninguém por acidente, como todos os seus colegas, na comédia Diário de um Maquinista (2016), de Milos Radovic, exibida aqui na 40º Mostra Internacional de Cinema em São Paulo. No entanto, o diretor, que estreou com a comédia romântica Practical Guide to Belgrade with Singing and Crying (2011), fez uma série e um documentário, aparentemente volta à ficção com um drama de uma viúva (Mirjana Karanović, presente também na farsa ferroviária compatriota) que não vê mais sentido em sua vida, no qual o humor negro está constantemente pairando sobre as situações. Seja na motivação da protagonista, que tenta resolver, na semana que antecede o aniversário de um ano de morte do marido – mesmo tempo em que decorre a trama, que destaca em cartelas cada dia da semana –, os últimos detalhes antes de se suicidar, ou nos empecilhos que um país, também em certo luto, põe no seu caminho.

 

Desempregada, além de viúva, a Sra. J, que antes cantava tão belamente, como afirma uma personagem, agora mal fala. Ana (Jovana Gavrilović), a filha mais velha, virou a chefe da casa, onde vivem também a irmã caçula, Koviljka (Danica Nedeljković), e sua avó Desanka (Mira Banjac), sogra da protagonista que mal sai de seu quarto – sem falar no namorado dela, Milance (Vučić Perović), que sempre está por lá, prometendo tirá-la deste lar paupérrimo. A direção de Vuletić e a fotografia, propositadamente pálida e também sem vida, de Jelena Stanković utilizam os planos longos e estáticos para indicar a lenta mudança da personagem e da Sérvia, mas que igualmente geram um incômodo ainda maior no espectador ao observar este ambiente familiar hostil, no qual a mãe, que em profunda depressão, nem liga mais para as filhas e elas a desprezam e a ofendem.

 

Se ali há tensão, quando a Sra. J sai à procura de cumprir suas últimas tarefas, o filme ganha ares mais tragicômicos, desde o momento em que ela pede para colocarem a foto dela ao lado marido na lápide, já com o ano atual como o de sua morte. O retrato da burocracia do país surge nas tentativas de ir ao médico e conseguir seu seguro-desemprego, mas as alegorias mais amplas desta Sérvia que ainda não esqueceu seu passado estão no carro da família, abandonado lá fora do prédio, e no cenário desolador da antiga fábrica onde a protagonista trabalhava. A ironia, até visual, em um estilo Wes Anderson sem tanta fissura por simetria, vem no setor administrativo, onde no meio de tantas papeladas, a ex-funcionária encontra seus antigos colegas, na etapa de negação de seu processo de luto do emprego de toda uma vida perdido.

 

Este processo de transição também é complexo para uma nação que, depois de tentar formar seu próprio reino, por décadas foi centro da Iugoslávia, vivendo sob o regime comunista do Marechal Josip Broz “Tito”, e passou por uma dolorosa separação que culminou na Guerra da Bósnia, entre 1992 e 1995. Na ocasião, sérvios cristãos ortodoxos, croatas católicos romanos e bósnios muçulmanos se enfrentaram em um conflito sangrento, no qual os primeiros foram responsáveis por graves crimes de genocídio e limpeza étnica, cometidos igualmente, em menor escala, pelos outros lados – e que foi retratado mais diretamente no ótimo A Boa Esposa (2016), filme estrelado, dirigido e roteirizado por Mirjana Karanović, que novamente repete a boa atuação, ainda que a Sra. J sofra uma angústia mais silenciosa. Hoje, frente a um mundo globalizado e capitalista, a Sérvia continua chorando por um país morto, porém, até mesmo na aparente falta de perspectiva empregada por Vuletić, Réquiem Para a Sra. J ainda brada um canto de esperança.

Réquiem Para a Sra. J (Rekvijem za Gospodju J., 2017)

Duração: 94 min | Classificação: 14 anos

Direção: Bojan Vuletić

Roteiro: Bojan Vuletić

Elenco: Mirjana Karanović, Jovana Gavrilović, Danica Nedeljković, Vučić Perović, Mira Banjac, Boris Isaković, Srdjan Todorović (veja + no IMDb)

Distribuição: Zeta Filmes

 

 

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