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7º PANORAMA DO CINEMA SUÍÇO CONTEMPORÂNEO | Entrevista com Mano Khalil, diretor de “Hafis & Mara”

09/05/2018

 

Novo trabalho de Mano Khalil, o documentário Hafis & Mara (2018) acompanha um casal octagenário que vive na Suíça entre os sonhos de sucesso e fama do efusivo artista plástico Hafis Bertschinger e o pragmatismo e resiliência da quieta esposa Mara. O longa abre o 7º Panorama do Cinema Suíço Contemporâneo, nesta quarta (09), com a presença do diretor em debates tanto na abertura quanto nas próximas sessões do filme no evento.

 

Aproveitando a vinda dele ao Brasil, o NERVOS entrevistou o cineasta curdo-sírio, que após ir estudar na Tchecoslováquia, em 1987, e trabalhar na televisão local, foi preso ao voltar para a Síria, simplesmente por uma revista ter o descrito como curdo – a etnia, que não tem sua própria nação, sofre perseguição nos países em que estão espalhados, seja na Síria ou na Turquia e Iraque. Se tornando um refugiado na Suíça, onde mora desde 1996, as características peculiares do país multicultural que tem suas frações Francesa, Italiana e Alemã, além do próprio sentimento de ser estrangeiro foram assuntos na nossa breve conversa com Khalil.

É óbvio o seu interesse sobre estrangeiros. Você é um curdo-sírio na Suíça; fez o The Beekeeper, com um refugiado curdo da Turquia, e The Shallows, uma ficção com uma curda iraquiana. Então, primeiro, como você encontrou o Hafis para este filme e como este sentimento de ser estrangeiro move o seu cinema?

 

Não é uma especialização minha fazer filmes sobre refugiados ou estrangeiros. Eu amo contar uma história, torná-la compreensível para o público... Aliás, todo mundo, de algum modo, se torna um refugiado: nós nos tornamos refugiados quando nos apaixonamos; precisamos da nossa família, pai e mãe; você vai para a sua casa, para a sua mulher, para ficarem juntos. Nós somos também refugiados. E refugiados, eu digo, porque estamos procurando por algo: vivo em um lugar e vou para outro. Todo passarinho que deixa seu ninho, de algum modo, é um refugiado; vai embora, volta...

 

Olhando para a Suíça, ela é um dos exemplos de várias culturas convivendo juntas. Na Suíça, há línguas se misturando, religiões se mesclando, todo mundo está vivendo, de alguma forma, pacificamente juntos. E esse modo pacífico de convivência diz que é possível que os negros, vermelhos, verdes, amarelos e brancos podem ficar juntos e conviverem. Que os cristãos, muçulmanos, judeus, budistas, ortodoxos, católicos, protestantes podem viver juntos em paz. A Suíça é um exemplo para mim e, morando lá, aproveito minha vida, meus trabalhos em absoluta liberdade. Não tem a preocupação em nenhum lugar de que alguém diga “Faça isso. Não faça isso.” É apenas a minha própria alma me proibindo de fazer isso ou aquilo.

 

Hafis para mim, de novo, é um exemplo deste movimento, dessas pessoas se movendo para algum lugar, se reencontrando, dizendo adeus e indo embora novamente. Nessa vida de cineasta, conheci muitas pessoas que caminhavam pela arte, só para fazer arte, fazer cultura. Muitas pessoas, durante toda a vida, estão fazendo algo e nunca sendo bem-sucedidas. Elas não têm dinheiro, não têm fama, ninguém fala delas, mas elas não desistem: estão apenas tentando, fazendo. Há muitos músicos que ninguém conhece, mas eles são músicos em sua alma, estão vivendo a sua arte. E Hafis é exatamente uma dessas pessoas. Ele levanta muito cedo, vai para o estúdio, só pintando feito um louco e, no final do dia, às vezes, ele tem um longo painel pintado. E juntando com o que tem na casa, há mais de 20 mil peças que ele fez. Quando ele morrer e disserem “O que Hafis fez na sua vida?”, ele não matou ninguém, não roubou ninguém, ele apenas fez arte e não ganhou dinheiro por isso. Mas, de alguma maneira, ele estava satisfeito com sua vida, aquilo deu certa paz para sua vida, mesmo quando ele é explosivo, está gritando e pulando, porque temos que, de algum jeito, viver tranquilamente a nossa vida. (...) Na primeira vez que eu encontrei realmente Hafis, ele falou sobre seu pai (...) Conhecendo ele mais e mais, ele é uma criança para mim, mesmo.

 

E Mara, claro, está do lado oposto dele. Ela é a quieta e pacífica dama e mãe, dando suporte a ele, dando a esperança de sonhar de novo, porque sem Mara, ele não seria o mesmo. Porque sem Mara, ele seria um perdedor nas ruas, um vagabundo. Isso era verdade. Isso me fez filmar com ele. (...) Ele levanta de manhã, ele vai para o estúdio que fica fora da cidade, trabalha durante todo o dia. Ele não tem nenhum dinheiro nos seus bolsos, realmente, nenhum dinheiro. Se ele vê esse celular: “Celular? Como funciona?”. Não quer dizer que ele é estúpido ou idiota, absolutamente não, ele só se fixa no seu trabalho. Ele tenta fazer algo para si mesmo.

 

Quando falo sobre Mara, não é fácil para uma mulher que está apaixonada por um homem há 53 anos e sabe que ele tem uma conexão homossexual e, mesmo assim, ela apenas fecha os olhos e diz “eu não vejo este lado do meu marido”. Ela o respeita. Para mim, é muito doloroso. E aí, eu disse “Mara, ama?!”, e ela falou isso: “Livremente”. Ninguém a forçou “Mara, você precisa ficar com esta pessoa”. Não, ela disse “Eu sou feliz”.

 

 

Você disse sobre a Suíça, sobre ser um país multifacetado e temos, agora, a 7ª edição do Panorama Suíço; no ano passado, tivemos aqui o Foco Suíça na Mostra Internacional de Cinema em São Paulo, porque há esse interesse nesta coisa multifacetada do cinema suíço. Como você acha que essa mistura ajuda no cinema suíço contemporâneo?

 

A Suíça, por si mesmo, é um país multicultural. A Suíça está no meio da Europa, mas não faz parte da União Europeia. E isso torna a Suíça unida. A cultura é muito importante para a Suíça, não só os bancos, a tecnologia, chocolate e queijos, mas a cultura. É fato que há algo nessas pessoas. E a Suíça, para mim, é um exemplo de como as pessoas vivem juntas e isso sustenta este tipo de arte: cinema, ou música ou teatro... É um Estado em que existe este suporte. Trazer [os filmes] aqui só para mostrar o modo como vivemos?! Nós somos um país pequeno, somos sete milhões, mas nós não bebemos, de manhã até à noite, Coca-Cola e comendo McDonald’s. Nossas comidas, nós temos muito fondue, muito chocolate... Nós somos pequenos, mas tentamos levar nossos filmes para o cinema exatamente como Hollywood. Não sou contra Hollywood, eles tem muitas coisas boas, mas nós não podemos só viver e respirar Hollywood e comer como os Estados Unidos. Nós temos que defender...

 

... a alma de vocês.

 

Eu digo que nós somos legais, mas somos diferentes. Nós não somos os mesmos. É como se só um existisse, se todos nós fossemos iguais. O que nos torna legais é que nós somos diferentes.

 

E esse é o “molho”?

 

Exatamente. Definitivamente. Peço desculpas pelo meu inglês, porque outras línguas empurram, você sabe... Não sou tão estúpido quanto o meu inglês [risos].

 

 

=> Leia também a crítica do filme Hafis & Mara dentro da cobertura do 7º Panorama do Cinema Suíço Contemporâneo

 

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