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7º PANORAMA DO CINEMA SUÍÇO CONTEMPORÂNEO | Hafis & Mara

09/05/2018

 

Na salada cultural ao som de francês, italiano e alemão que faz a Suíça e, consequentemente, seus filmes tão sui generis, quem abre o 7º Panorama do Cinema Suíço Contemporâneo, nesta quarta (09), em São Paulo, é justamente o documentário de um refugiado curdo-sírio sobre um pintor suíço-libanês e sua esposa. O país que sempre recebeu muitos imigrantes e também é palco da recente crise mundial dos refugiados, como revelam outros títulos da seleção deste ano do evento, a exemplo de Bem-vindo à Suíça (2017), mas Hafis & Mara (2018) subverte este “olhar estrangeiro” para o estrangeiro, ao dar, duplamente, voz a eles. O diretor Mano Khalil, erradicado há mais de vinte anos na Suíça e que, recentemente, trouxe à tela um apicultor curdo-turco que mora no país, em Der Imker / The Beekeeper (2013), e uma jovem de origem curda-iraquiana na ficção Die Schwalbe / The Shallows (2016), agora faz o retrato de Hafis e Mara Bertschinger, a partir das várias diferenças que marcam – e, de certo modo, sustentam – o casal.

 

Ele muito expansivo e criativo; ela muito quieta e centrada. Ele um artista medíocre, no sentido mais fiel da palavra, quanto a alguém que está na média e nunca atingiu o sucesso ou ganhou dinheiro com isso, enquanto ela foi quem sempre sustentou a casa, chegando a comprar até os trabalhos do marido. Enquanto ele permanece imerso em suas criações no afastado estúdio de pintura, recebe a visita do filho que teve antes do casamento e faz suas viagens para outros países, a companheira, já bem debilitada fisicamente – e, em frente das câmeras, dá para pensar que também emocionalmente –, fica em casa.

 

Neste sentido, tanto a direção de Khalil quanto a montagem de Thomas Bachmann são sagazes em construir estas contraposições de imagens e falas de um modo eficiente narrativamente. Um exemplo claro é o momento em que Mara fala sinceramente sobre o fato de elogiar quando o esposo lhe apresenta um trabalho recém-concluído e, somente depois, fazer suas críticas a ele, intercalado com a cena de Hafis tentando inutilmente manter de pé a sua instalação artística sobre as pedras do rio, que está sendo derrubada pelo vento – uma imagem igualmente muito significativa sobre a própria carreira dele. Acompanhando o pintor em uma de suas viagens, o flagra despretensioso de um homem nu tomando banho em Gana leva o filme para uma confissão de Mara, desvelando outra camada dos retratados, quanto ao não-questionamento que ela faz da sexualidade dele: apesar de saber do interesse do marido por homens, a esposa prefere fechar os olhos para isso.

 

O desencontro do casal é mais visível quando, lado a lado, Hafis afirma como ela se sente, mas a expressão de Mara revela algo contrário, às vezes até do próprio discurso dela de felicidade. Esse amor na velhice e a finitude que os cerca relembra o uruguaio A Flor da Vida (2017), exibido recentemente no festival É Tudo Verdade, mas o documentário de Claudia Abend e Adriana Loeff conseguia trabalhar esses temas com mais profundidade e dinâmica em sua proposta. No entanto, Mano Khalil abre um diálogo bem interessante sobre este sentimento de ser estrangeiro, não só de maneira óbvia com a “volta à terra natal” do artista plástico visitando a família no Líbano, quanto ao apresentar seus personagens como refugiados em suas próprias vidas, seja naquilo que ela deixou para trás e finge não se importar ou dos sonhos nunca alcançados por ele.

 

=> Leia também a entrevista com o diretor Mano Khalil

Hafis & Mara (Hafis & Mara, 2018)

Duração: 88 min | Classificação: 12 anos

Direção: Mano Khalil

Produção: Suíça

> CineSesc – 09/05/2018 às 20h30 (Filme de Abertura + Debate com o diretor Mano Khalil)

> CCBB SP – 10/05/2018 às 18h30 (Debate com o diretor Mano Khalil)

> CineSesc – 12/05/2018 às 19h30 (Debate com o diretor Mano Khalil)

> CCBB SP – 18/05/2018 às 17h00

 

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