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ESTRELAS DE CINEMA NUNCA MORREM | Se eternizam nas telas

25/04/2018

 

Enquanto Annette Bening está interpretando sua personagem em um ritual de preparação no camarim para, por sua vez, dar vida a outra personagem, o piano de Elton John em Song For Guy embala a cena inicial de Estrelas de Cinema Nunca Morrem (2017), voltando, vez ou outra, na trilha sonora da produção britânica. A canção, quase toda instrumental, tem na sua breve letra, que nem é apresentada no longa, o verso “Life isn’t everything”, que, de certa forma, dialoga com o próprio filme de Paul McGuigan.

 

Centrada nos últimos anos de vida de Gloria Grahame (1923-81), que ganhou o Oscar de Atriz Coadjuvante, em 1953, por Assim Estava Escrito (1952), porém, depois do auge nos anos 50, recebendo o mesmo tipo de papel sensual, foi relegada nas décadas seguintes, conseguindo poucos trabalhos no cinema e no teatro e o reconhecimento de alguns fãs antigos, a obra navega nesta dualidade de semideuses das estrelas de Hollywood, como diria o pensador e sociólogo francês Edgar Morin, entre este aspecto mitológico que adquirem aos olhos do público, e igualmente as eternizam nas telas, e esta humanidade da realidade fora delas, em que estas figuras se tornam ainda mais fragilizadas por terem “quase tocado o céu” com seu estrelato e, posteriormente, enfrentarem o esquecimento cotidiano quando estão por baixo. Quando a encontrou como vizinha de quarto, em 1979, o jovem ator inglês Peter Turner desconhecia a grandeza da estrela do cinema preto-e-branco, mas não o charme da bela dama por quem se encantou.

 

Vividos por Annette Bening e Jamie Bell no longa, os dois engatam um romance que é descrito por Turner em seu livro de memórias Film Stars Don't Die in Liverpool, adaptado no longa por Matt Greenhalgh, roteirista com vasta experiência em cinebiografias como Controle: A História de Ian Curtis (2007), O Garoto de Liverpool (2009) e O Olhar do Amor (2013). Os 28 anos de diferença do casal é malvisto pelos familiares dela, cujo julgamento e inveja ressentidos aparecem em uma breve cena com a mãe e a irmã de Grahame (Vanessa Redgrave e Frances Barber, respectivamente), que vislumbram o passado amoroso conturbado da atriz, casada quatro vezes, sendo a última justamente com um jovem em circunstâncias muito polêmicas. Por outro lado, não são alvos de preconceito por parte da família dele, pelo fato de seus pais serem fãs da atriz, como o script dá a entender; ao contrário, Bella (Julie Walters) é extremamente receptiva com Gloria, quando ela chega doente em sua casa, já em 1981, se opondo ao filho apenas quanto à necessidade de informar aos parentes dela sobre sua situação.

 

Apesar de sua filmografia calcada em filmes de ação como Xeque-Mate (2006) e Heróis (2009) ou fantasia Victor Frankenstein (2015), Paul McGuigan constrói um romance muito delicado nesta sua nova empreitada em terreno desconhecido, trazendo de seu background certa engenhosidade na transição entre os acontecimentos “presentes”, com Grahame doente na casa dos Turner, em Liverpool – por isso, a brincadeira do título original –, e os flashbacks de quando se conheceram em Primrose Hill, durante uma temporada londrina da atriz em uma peça, e todo o desenrolar do romance. A alternância entre os tempos são estabelecidas através de giros de câmera e mudanças de cenário ao redor do personagem de Bell, ou com ele abrindo uma porta e adentrando na memória ensolarada de um entardecer na praia californiana. A luz na fotografia de Urszula Pontikos, assim como o design de produção da equipe de Eve Stewart, aliás, são propositadamente artificiais quando a história está Los Angeles como forma de evocar essa falsa magia de Hollywood.

 

A direção e o roteiro pecam, mais à frente, ao mastigar explicações sobre as intenções da protagonista, reencenando alguns momentos da memória de Peter, então sob o ponto de vista dela. No entanto, essas sequências dão ao público o deleite de observar um pouco mais do talento de Annette, que emprega uma voz pequena, quase sussurrada, sem deixar de lado a sensualidade de Gloria, em toda a sua complexidade, rendendo-lhe uma das três indicações da produção ao BAFTA, o “Oscar britânico”. Além dela e do roteiro, Jamie Bell também foi lembrado pela premiação, mostrando com sua atuação desse jovem, às vezes perdido entre as ações da amada e do próprio destino, como o cinema pouco aproveitou o garoto de Billy Elliot (2000) quando adulto. Estrelas de Cinema Nunca Morrem, ao contrário, não desperdiça suas estrelas e dão a elas a chance de engrandecerem o filme com cenas como a da leitura de Romeu e Julieta.

Estrelas de Cinema Nunca Morrem (Film Stars Don't Die in Liverpool, 2017)

Duração: 105 min | Classificação: 12 anos

Direção: Paul McGuigan

Roteiro: Matt Greenhalgh, baseado no livro “Film Stars Don't Die in Liverpool” de Peter Turner

Elenco: Jamie Bell, Annette Bening, Julie Walters, Vanessa Redgrave, Stephen Graham, Frances Barber, Kenneth Cranham, Leanne Best, Peter Turner, Isabella Laughland e Tom Brittney (veja + no IMDb)

Distribuição: Diamond Films

 

 

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