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É TUDO VERDADE 2018 | A arte de ser espectador

17/04/2018

Em um festival de cinema chega a ser prepotente indicar títulos específicos para cinéfilos, já que o evento em si e toda sua seleção são do interesse deles. Ainda assim, corre-se o risco de dizer esta 23ª edição do É Tudo Verdade traz em sua programação dois documentário que conversam diretamente com o espectador, justamente pelo o que ele(a) está fazendo ali naquela sala escura, esperando o que as luzes jogadas na tela vão lhe mostrar. O primeiro deles, o longa de Renato Brandão, Quando as Luzes das Marquises se Apagam – A História da Cinelândia Paulistana (2018), usa o subterfúgio da nostalgia para adentrar à memória de uma cultura cinéfila que se perdeu; o segundo, quase um ensaio documental de Cao Guimarães sobre a Espera (2018), pergunta ao público o que ele espera de um – e do próprio – filme.

 

Tão longo quanto seu título, foi o processo de gestação de Quando as Luzes das Marquises se Apagam – A História da Cinelândia Paulistana (2018) e nem precisa dizer, pois é muito perceptível ao assistir o documentário do jornalista Renato Brandão, que as origens da produção estão em um trabalho de conclusão de curso. Não necessariamente pelas imagens gravadas, em sua maioria, em 2009, quando da reabertura do Cine Marabá e usadas em uma primeira montagem para o TCC do diretor no ano seguinte, mas pelo seu tom. Com filmagens extras e uma ampla pesquisa iconográfica em 2011 e 2012, finalização da montagem e da regularização para utilizar todo o material de arquivo coletado em 2015, quando foi realizado um crowdfunding – a “vaquinha” virtual colaborativa – para financiar a pós-produção, o projeto chega finalmente ao público quase dez anos depois, sem ainda se desvencilhar das amarras e estética de um filme universitário.

 

No entanto, seu grande trunfo é justamente trazer esta Cinelândia Paulistana à tela através de tantas imagens de arquivo – há também um esmero no motion design, com interessantes ícones gráficos das fachadas de cada sala citada no decorrer do longa –, mantendo o interesse do público em seus 86 minutos seja pela nostalgia que provoca em que vivenciou aquele ambiente em alguma época, quando ir ao cinema era um evento, ou pela curiosidade pelo inacessível que gera nos novos cinéfilos que, hoje, podem contar nos dedos os cinemas de rua em São Paulo e só têm o Marabá como o único da antiga Cinelândia a exibir filmes do circuito comercial.

 

Com a ajuda do conteúdo de alguns depoimentos, de entrevistados que vão do escritor Ignácio de Loyola Brandão ao exibidor Francisco Luccas Netto, “o último dos moicanos”, Brandão refaz a linha do tempo, desde as origens das salas de cinema na região central da capital, com elas se popularizando especialmente nas avenidas São João e Ipiranga durante a década de 1930, passando pelo auge nos anos 50 e as mudanças tecnológicas em busca de público nas décadas seguintes, até a decadência instaurada a partir dos anos 80 e vista atualmente, com os antigos templos da sétima arte se tornando igrejas neopentecostais ou, na maioria, estacionamentos e os últimos sobreviventes exibindo filmes pornôs. O documentário ainda discute as causas desse declínio, indo da concorrência externa, primeiro com a televisão e depois com os multiplex em shopping, as transformações do próprio Centro, com a vida fervilhante que lá existia se esvaindo junto com os escritórios para a Avenida Paulista e outras regiões da cidade.

Quando as Luzes das Marquises se Apagam – A História da Cinelândia Paulistana (2018)

Duração: 86 min | Classificação: Livre

Direção: Renato Brandão

Produção: Brasil / São Paulo-SP

Áudio e Legendas: diálogos em português

> Sesc 24 de Maio / São Paulo – 17/04/2018 às 13h00

> IMS Paulista / São Paulo – 18/04/2018 às 15h00

> Centro Cultural São Paulo – CCSP / São Paulo – 20/04/2018 às 17h00

> Sesc 24 de Maio / São Paulo – 21/04/2018 às 17h00

> IMS Rio / Rio de Janeiro – 22/04/2018 às 16h00

 

Naquelas coincidências da vida, é curioso que justamente a première de Espera (2018) no É Tudo Verdade tenha feito o público esperar tanto para entrar na sala do IMS e assisti-lo, por causa de atrasos nas sessões anteriores. Era o como se o novo longa do mineiro Cao Guimarães já se antecipasse antes mesmo de seu primeiro fotograma. Ou melhor, frame, pois seu formato é digital, embora seu conceito esteja bem longe da rapidez destes tempos digitais e evoque o compasso mais vagaroso da era analógica, representada pelos filmes em Super-8 que resgata aqui, à espera para que lhe possa revelar algo.

 

Assim, Cao constrói seu filme a partir da dualidade da palavra-título, enquanto arte de passar o tempo até outra ação, acontecimento ou alguém e, igualmente, expectativa por isso que vem. Daí a espera para agir, com músicos e atores aguardando para se apresentar; para chegar, no correr de uma viagem; por qualquer um, na monotonia cotidiana do porteiro e da venda na beira da estrada; por Aquele, na espera religiosa e/ou mística por uma entidade superior; por algo que lhe é natural, mas foi retirado, a exemplo do sono da mulher que vai examiná-lo em uma clínica especializada; ou por algo sempre presente, mas nunca encontrado, como o “Eu” de alguém na esperança pelo resultado das mudanças hormonais de sua adequação de gênero. Observando passivamente esses momentos e também como as pessoas matam este tempo, do tricô ao celular, com breves momentos de narração em off do próprio cineasta, a obra instiga a mesma ansiedade na plateia com suas situações apresentadas.

 

Guimarães somente quebra o fluxo narrativo de seu ensaio sobre o tema, justamente ao adentrar o terreno dessa metamorfose do homem trans, utilizando gravações diárias e caseiras de Gael Benitez, como um confessionário dele para a câmera sobre sua angústia nessa transformação. Como o próprio documentário versa sobre o espectador ser alguém que espera algo da arte que está prestes a fruir, posso dizer, enquanto espectadora e crítica, que esperava uma integração melhor desta narrativa, da mesma maneira que faz com a do Super-8, em todo o seu experimentalismo, ou da até no acompanhar da trajetória de Gael mais ao final, na espera dele na fila para pegar seu novo RG, vendo a barba crescer em frente ao espelho e outros momentos captados pela equipe técnica e não por suas auto-intervenções que destoam do todo. Contudo, o fato de suscitar esta frustração e consequente reflexão sobre as expectativas de sua obra e do cinema, em geral, pode-se dizer que a Espera valeu a pena.

Espera (2018)

Duração: 76 min | Classificação: Livre

Direção: Cao Guimarães

Produção: Brasil / Belo Horizonte-MG

Áudio e Legendas: diálogos em português, com legendas em inglês

> IMS Rio / Rio de Janeiro – 17/04/2018 às 14h00

> Sesc 24 de Maio / São Paulo – 20/04/2018 às 13h00

 

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